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Aspectos da Escravidão – Trabalho e Família

Aspectos da Escravidão – Trabalho e Família

O Espírito Santo era, durante o período escravista, uma província essencialmente agrícola e apoiada na força de trabalho dos escravos. Nesse caso, é necessário destacar que os negros exerceram todos os tipos de trabalhos rurais e urbanos existentes. Mas é importante destacar que muitas dessas atividades requeriam inteligência, iniciativa e conhecimentos técnicos, como o extrativismo mineral e vegetal; os serviços domésticos de todos os níveis; o artesanato e as manufaturas com argila, madeira, couro e metais; os trabalhos como tripulantes de embarcações fluviais e marítimas; pescadores; artistas; ferreiros; consertadores de armas e serralheiros; criadores de animais etc. Todas as atividades produtivas constituíam trabalhos para negros, logo, pode-se dizer que foram eles os construtores da base da riqueza capixaba, fossem eles escravos ou livres.

Em uma fazenda escravista, um dia de trabalho para os negros poderia ser assim: acordar às 5 horas e depois da higiene pessoal, café com broa de milho, uma reza e trabalho até as 9 horas, quando era servido o almoço, quase sempre de forma coletiva, ou seja, em grandes gamelas, uma espécie de bacia feita de madeira. Por volta de meio-dia, havia uma merenda de café com batata assada, banana-da-terra ou angu. As atividades seguiam até o jantar, às 16 horas, e depois retornavam ao trabalho até as 18, quando eram encerradas as atividades nos campos e todos voltavam para a casa grande, onde eram dadas advertências sobre o andamento dos trabalhos, instruções e recomendações para o dia seguinte ou até mesmo procurava-se apurar alguma irregularidade que estivesse ocorrendo. Após isso, novo lanche, mais umas orações e às 20 horas todos deveriam ir para as senzalas.

Aos sábados, a rotina poderia ser normal até o meio-dia quando o encarregado, capataz ou o próprio senhor fazia uma inspeção, aconselhava, instruía e definia novas tarefas para a semana seguinte. Depois, poderia haver uma folga para que os escravos cuidassem de seus afazeres particulares, como lavar roupas, cuidar de crianças, dos velhos e enfermos ou até de atividades artesanais e de lazer. Aos domingos, após a missa, poderiam ser realizados os batizados, casamentos e festas com liberdade para os negros. Houve casos de senhores que, em ocasiões especiais, até davam presentes para seus escravos, acompanhavam suas festas ou até mesmo batizavam seus filhos. Era comum os senhores procurarem desenvolver certo paternalismo no tratamento de seus trabalhadores escravos ou livres, pois isso lhes asseguravam, às vezes, a fidelidade e o apoio do trabalhador, evitando fugas e suavizando as relações entre senhores e escravizados.

Houve casos de senhores que não reprimiam as manifestações culturais negras e até mesmo gostavam de vê-las, divertindo-se com elas. Nesse quadro, enquadravam-se os senhores da Fazenda Monte Líbano, em Cachoeiro de Itapemirim. Entretanto essa não era a regra. A maioria dos senhores procurava economizar o máximo na alimentação de seus trabalhadores e explorar o seu trabalho, inclusive evitando dar as folgas dos dias santos e domingos, não permitindo que eles plantassem ou tivessem uma folga para cuidar de suas próprias roças (28).

Família

Eram grandes as dificuldades para permanecerem unidos pais e filhos de uma mesma família de escravos. Havia resistência de muitos senhores em permitir casamentos; aconteciam separações ocasionadas pela venda de membros de uma mesma família e castigos e vinganças impostas às famílias, humilhando os pais com torturas ou tirando-lhes os filhos. Apesar de tudo isso, a união entre escravos era muito mais frequente do que os historiadores têm revelado. E sabe-se também que muito do que tem sido falado sobre a promiscuidade sexual entre os escravos era mentira dos senhores para justificar os abusos que eles cometiam contra os negros.

Pesquisas recentes têm demonstrado que em 1875, por exemplo, nas fazendas de Viana e Queimado, mais de 60% dos escravos eram membros de famílias nas quais os filhos viviam ao lado dos pais. Contudo, mesmos que essas áreas fossem tradicionais na exploração do trabalho escravo e que o tráfico entre as diversas províncias e diferentes regiões do próprio Espírito Santo tenha sido fator de desagregação familiar, não se pode negar que houve grande número de casamentos estáveis.

É perceptível também o fato de ter havido uniões duradouras entre negros e brancos, já que sempre foi grande o número de mestiços capixabas, principalmente mulatos, nas áreas menos ricas. Há registros, nessas regiões, de mestiços que ascenderam socialmente ou ganharam a liberdade através do reconhecimento da paternidade pelo senhor de sua mãe. Alguns desses mestiços tornaram-se senhores de escravos ao receberem heranças dos pais. Aliás, nesse sentido, é conhecido o inventário dos bens de João Ignácio Vieira Machado, que, ao morrer, deixou como herdeiros 16 filhos, gerados com cinco escravas, todos reconhecidos por ele em batismos realizados na Capela de Nossa Senhora da Ajuda, na fazenda Araçatiba, em Viana.

Em Viana e Vitória, por sinal, eram muito comuns os casamentos entre escravos e livres, principalmente mulatos. Já nas regiões de São Mateus e Cachoeiro de Itapemirim, a maioria dos casamentos acontecia entre pessoas escravizadas e a miscigenação era menor (29).

Concluindo, pode-se dizer que embora o escravo fosse considerado um objeto que, como tal, o senhor podia vender, dar, partir, mutilar etc, isso não lhe tirou a condição de humano. Outro aspecto importante é que, embora abundantes, cruéis e variados, os castigos não destruíram o espírito de luta, a vontade de viver e a dignidade dos negros. Tudo isso era demonstrado pela variedade, diversidade, competência e seriedade com que, mesmo sob péssimas condições, os negros realizavam seus trabalhos e tentavam organizar suas vidas e famílias da melhor forma possível.

 

 

NOTAS

(28) Almada, 1984.

(29) Almada, 1984.

 

 

GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO

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GSA

 

Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. – 2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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