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Atividades dos Tropeiros – Por Ormando Moraes

Fábrica de Ferragens para animais no começo deste século - Forte São João, Vitória

Além do muladeiro, que fazia o comércio de compra e venda de muares, as tropas estimularam o crescimento de várias outras atividades no interior do Espírito Santo. O seleiro, o funileiro, o ferreiro, o ferrador de burros, o curandeiro, o proprietário de ranchos e pastos para alugar, na beira da estrada, todos tinham uma participação e uma importância muito grandes na vida das tropas.

O seleiro era um artesão de muita habilidade na fabricação de selas e de todo o arreamento necessário ao animal de carga, inclusive a cangalha, para o que usava variados instrumentos, como facas, alicates, martelos, sovelas ou furadores, agulhas, linhas, tala de madeira para costurar no colo, punções para executar os diversos desenhos no couro e também o grude feito de polvilho azedo, para servir de cola.

Em pontos estratégicos de maior movimentação de tropas, sempre se encontrava um seleiro, e seu pequeno estabelecimento artesanal era local muito freqüentado.

O funileiro, em torno da forja e da bigorna, também produzia muitos utensílios para as tropas, como lamparinas, canecos, tachos, cincerros, etc., enquanto o ferreiro se dedicava à produção de ferraduras, tão importantes para as tropas quanto são hoje os pneus para veículos automotores. Mas estas duas atividades no Espírito Santo não atendiam à demanda, de sorte que nossas tropas eram também supridas pelos muladeiros que vinham de Minas, trazendo ferraduras, além, como é óbvio, dos animais em pêlo ou arreados.

A propósito de atividades derivadas, conta Vítor Hugo Vervloet, conhecedor do movimento de tropas em Santa Leopoldina-Santa Teresa, na década de 20, que, nos péssimos caminhos então existentes, havia muitos caldeirões ou atoleiros, onde os animais costumavam perder suas ferraduras. Isto ensejava o aparecimento de outra atividade bem modesta, exercida por crianças pobres de beira de estrada: a de catadores de ferraduras para vender aos tropeiros. Outra informação interessante é dada por Theodoro Herzog, proprietário de tropas no município de Santa Leopoldina: para facilitar a passagem das tropas, esses atoleiros eram lastreados por grossas taboas de madeira de lei, na época muito farta no interior, como jacarandá, braúna e tapinhoã, e em trechos menores era usado também couro de boi.

Regra geral, qualquer tropeiro sabia ferrar e chamava a atenção do leigo no assunto e despertava sua admiração a facilidade com que, muitas vezes, sozinho, dobrava a perna do burro, cortava-lhe o casco, colocava a ferradura e batia os cravos. Mas, em locais estratégicos de maior movimento de tropas, sempre se encontrava um especialista no ramo, como é o caso de Antônio Curió, em Cachoeiro de Itapemirim.

Outro profissional importantíssimo para as tropas era o curandeiro, já citado no capítulo sobre "Medicina Tropeira".

Igualmente muito importante era o amansador de burros, que se encarregava de prepará-los para sela ou para tropa. Era geralmente preto e gostava de se exibir nas ruas e praças do interior, montando os bichos ainda bravios e xucros e castigando-os severamente com um bom porrete. Eles pulavam, pulavam e acabavam se acostumando e aceitando a cangalha, o arreio, a carga ou o montador. Era profissional comum no interior, no tempo das tropas.

O poeta Carlos Campos, ex-desembargador, conta que, na região de Calçado, um dos amansadores de burros mais famosos foi Raymundo Horácio da Silva, empregado de seu pai, o fazendeiro Antonico Campos.

Naquele tempo, dente de ouro era um dos melhores sinais exteriores de riqueza, indício de vaidade ou preparativo para uma conquista amorosa. Pois bem, Raymundo Horácio achou por bem colocar na boca não um dente, mas uma dentadura inteira de ouro e, quando Antonico Campos o viu assim, não pensou duas vezes, pois era homem decidido: 

— Raymundo, você não me serve mais. Tenho que dispensá-lo.

— Mas por que, patrão?

— Não serve para trabalhar comigo e pronto. Está dispensado, uai!...

Apesar de ser ótimo empregado, valente e prestativo, era muito ouro numa boca só. Dava para desconfiar, senão da honestidade, pelo menos do perfeito equilíbrio mental. Raymundo mudou-se para Afonso Cláudio, grande centro tropeiro, onde foi assassinado por um soldado.

Finalmente, outra atividade surgida em conseqüência das tropas era a de instalação de ranchos e reserva de pastos cercados para pouso de tropas e tropeiros, em alguns locais das estradas e nos pontos finais de seu destino.

Os ranchos eram totalmente abertos, tinham apenas a cobertura de telhas tipo canal e neles os tropeiros depositavam a carga de suas tropas, armavam a cozinha de trempe e dormiam quase ao relento, em cima de couros e protegidos por grandes capas gaúchas. Na beira das estradas, os ranchos abrigavam cargas e arreios, mas, nos pontos finais, as cargas de café e outros produtos iam diretamente para os armazéns de seus compradores.

Em Castelo, por exemplo, segundo informa Avelino Dadalto, havia vários ranchos, onde se pagavam, em 1940, 200 réis de diária por animal, com direito a pasto. Este preço pulou para 400 réis pouco tempo depois. Enquanto isto, Manoel Lopes fala no preço de 2 mil réis por tropa de 10 animais, na região de Afonso Cláudio, o que confere com o preço anterior. Já Antônio Destefani diz que seu avô, imigrante italiano, tinha um rancho muito famoso, em Povoação, último pouso das tropas que se dirigiam a Castelo, onde o preço por noite, na década de 20, era de um mil réis por tropa.

Nos pontos finais mais importantes de destino das tropas, como Alegre, Castelo e Santa Leopoldina, entre outros, as firmas comerciais tinham os seus próprios ranchos, onde os tropeiros fregueses pernoitavam, sem nada pagar.

A respeito de ranchos, o fato mais curioso foi contacto pelo professor Valdemar Mendes de Andrade. Próximo à fronteira sul do Espírito Santo, mas já em território do Estado do Rio, um fazendeiro tinha um rancho muito freqüentado por tropeiros de Guaçuí e imediações. O tropeiro chegava, pedia pouso e o fazendeiro, um tanto autoritário, respondia:

— Pode ficar, mas amanhã, bem cedinho, varre e sai.

Nesse local, surgiu, mais tarde, a vila até hoje conhecida por Varre-Sai.

É história semelhante àquela do dono de botequim de beira de estrada do Nordeste, que andava muito acabrunhado com os fregueses que chegavam, pediam uma, duas, três cachacinhas e ficavam ali cuspindo, conversando horas sem fim e nada de pagar. Então, ele colocou na parede o seguinte aviso:

Bebeu,

Cuspiu,

Pagou,

Saiu...

 

Fonte: Por Serras e Vales do Espírito Santo – A epopéia das Tropas e dos Tropeiros, 1989
Autor: Ormando Moraes
Acervo: Edward Athayde D’ Alcantara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2016

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