Morro do Moreno: Desde 1535
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Bate-papo em frente a Igreja do Rosário – Por Dijairo Gonçalves Lima

Igreja do Rosário e Praça da Matriz

— A igreja do Rosário é testemunha solitária de todos os acontecimentos históricos aqui desenrolados desde o início da colonização. O terreno em que hoje pisamos foi palco das lutas entre os colonos e os índios e certamente por isso muitos procuravam refúgio no interior desse templo, principalmente mulheres, velhos e feridos. Durante algum tempo foi a residência provisória da Casa da Caridade que, segundo César Marques, abrigava indigentes (5). Por conseguinte, essa igreja aqui diante de nós deve merecer o zelo não só das autoridades, mas de todos os vila-velhenses, pois ela significa o primeiro marco de religiosidade fincado em terras do Espírito Santo.

As pessoas sentadas a pouca distância, ao perceber que a conversa poderia ter contornos interessantes porque abordava assuntos ligados a um remoto passado da cidade, procuraram aproximar suas cadeiras do grupo de amigos dos Quintela, para não perderem uma só palavra.

O delegado Olímpio Abreu arriscou uma pergunta:

— Dizem que a igreja do Rosário é a mais antiga do Estado e uma das mais antigas do Brasil. É possível saber-se quando foi construída, doutor Diógenes?

— Não se sabe exatamente. Talvez logo no início da colonização, em 1535 ou 1536. Podemos, porém, afirmar que o jesuíta Leonardo Nunes, de passagem por Vila Velha, em 1549, quando rumava para a Capitania de São Vicente, em carta endereçada aos seus superiores hierárquicos registrou que, à noite, quando fazia doutrina, reunia a todos em uma praça porque, sendo a igreja local muito pequena, não comportava o grande número de pessoas às quais ele falava. Essa informação nos assegura que o local citado pelo jesuíta pode ser este largo onde estamos agora e a igreja não tinha as mesmas dimensões que hoje tem. Era bem menor.

Com o propósito de colaborar com a narrativa do doutor Quintela, Chico Chagas, assíduo freqüentador da Chácara onde ficava horas, sempre que podia, a devorar os livros da biblioteca do amigo, resolveu aditar às palavras de Diógenes:

— A área da igreja restringia-se à parte traseira, onde hoje está o altar-mor. De tamanho tão exíguo, não tinha condições de abrigar tanta gente. Daí por que o padre jesuíta fez suas pregações do lado de fora. A parte da frente, de área bem maior, que compreende a nave onde ficam os bancos, foi edificada posteriormente (5A). Quanto à sua idade, é claro ser a mais antiga do Estado. Afirmam, porém, ser a terceira mais antiga do Brasil, o que carece de comprovação documental. Antes dela, segundo dizem, foi construída uma igreja em Olinda, Pernambuco, e outra em São Vicente, São Paulo.

— Há quem afirme, — atalhou o coronel Balbino Xavier, — que essa igreja foi erguida por Afonso Brás em 1551 e que antes dela existia uma outra. Não seria essa outra a mencionada por Leonardo Nunes?

— Estão enganados os que pensam assim, — discordou Diógenes. — Em 1551 o padre Afonso Brás estava muito ocupado com a construção de casa e igreja na ilha e continuou seu trabalho, tanto que em 1552, quando Nóbrega, acompanhado de Tomé de Souza, chegou à vila da Vitória já encontrou "grande casa e igreja", segundo seu próprio registro (5B). Era a igreja de São Tiago, provavelmente inaugurada em 25 de julho de1551. Logo, onde encontrar tempo e ajuda para construir simultaneamente na ilha e no continente, pois Vila Velha não mais despertava qualquer interesse dos colonos por estar o núcleo da administração da Capitania situado em Vitória? Aqui ficaram apenas alguns poucos colonos que passaram a se dedicar mais à atividade pesqueira.

E continuou:

— Embora sem a presença de um sacerdote na comitiva de Vasco Fernandes Coutinho, os portugueses, ao pisarem em terra firme, começaram a levantar as primeiras habitações com toros de madeira fincados no solo. Ao mesmo tempo, deram início à construção de uma igreja, uma pequenina capela pronta para abrigar o colono quando quisesse rezar. Desse modo, nos primórdios da colonização surgiu a primeira igreja com paredes de alvenaria, em solo espírito-santense, em conseqüência de um acordo firmado entre a Coroa portuguesa e o Vaticano.

— Acordo? — indagou curioso o coronel Balbino Xavier.

— Sim, uma espécie de tratado entre a Igreja e Portugal convencionava que o país lusitano, em seus domínios na Ásia e na África e depois também no Brasil, onde fundasse uma cidade ou vila, deveria logo construir uma igreja para a expansão do cristianismo.

— Nossa igreja, segundo a tradição, ao ser construída foi logo dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Estou certo? — Desta vez a pergunta partiu do delegado.

E Diógenes, mais que depressa: — Este é um assunto que merece uma análise mais cuidadosa. Chegaremos lá. Respondo antes a uma observação do nosso coronel: vários motivos impediam a construção de mais de um templo em Vila Velha. Quando falo em templo, refiro-me a uma sólida construção de alvenaria. A escassez de braços era uma das maiores dificuldades, pois a maioria estava voltada para o amanho da terra, o plantio e a colheita da cana necessária ao funcionamento dos engenhos. De certa forma não podiam descuidar-se das ameaçadoras incursões dos silvícolas, pois esses fatores, agravados pela pobreza dos habitantes decorrente das imensas dificuldades enfrentadas na vila, eram fortes motivos que impossibilitavam a construção de mais de uma igreja. Além disso, para a diminuta população da vila, que perdera a primazia de ser a sede da Colônia, não justificava a existência de mais de uma igreja no lugar. Se existiu uma outra foi sem dúvida uma pequena capela precariamente erguida com troncos de árvores nos primeiros dias da povoação e que por motivos óbvios não deixou vestígios. Quanto à afirmação de alguns, conforme acentuou o nosso prezado coronel Xavier, de que a igrejinha do Rosário foi construída pelo jesuíta Afonso Brás, devo acrescentar ao que disse momentos antes: o mencionado padre chegou ao Espírito Santo nos primeiros dias de abril de 1551, oficializando a vinda dos discípulos de Loiola para a Capitania. Ficou hospedado na ilha que já estava povoada e tinha a denominação de Vila da Vitória. Se naquela época, observem por favor o detalhe histórico, se naquela época, repito, a ilha e seus habitantes viviam fustigados pelo feroz ataque dos gentios, circunstância que culminou com a vitória dos brancos sobre os indígenas, a 8 de setembro do mesmo ano, (6) o que não dizer da pobre vila no continente, onde a maioria dos seus habitantes já se havia transferido para Vitória e os poucos que aqui ficaram não tinham tranqüilidade nem segurança para nada, muito menos para cuidar da construção de outra igreja? Na verdade, além de sua missão religiosa, a especialidade de Afonso Brás era o trabalho de carpintaria e de edificações. Um mestre de obras, assim podia ser chamado. Talvez por isso e também por haver o padre escrito que trabalharia para construir uma capela em um bom local a fim de celebrar missas, confessar e doutrinar, (7) é quase certo haverem entendido que o comandado de Nóbrega estava se referindo a Vila Velha. Mas não, ele estava na Vitória e foi lá que erigiu o colégio e a igreja de São Tiago. A igreja do Rosário foi erguida, como disse, logo no início da colonização, em 1535 ou 1536, quando Vila Velha era o centro administrativo da Capitania. Não se trata, portanto, de construção jesuítica. Ademais, se os jesuítas a tivessem construído, por certo teriam mencionado o fato em cartas a seus superiores, tão ciosos eram em informar sobre os acontecimentos vinculados ao seu trabalho missionário. O silêncio sobre o assunto é uma prova de que não foram os autores da obra.

— Ela é mais antiga que o Convento da Penha?

Entre uma taça e outra de vinho, Diógenes respondeu à pergunta de Osvaldo Coutinho:

— Ora, meu amigo, como bom vila-velhense você deveria saber a resposta. Frei Pedro Palácios, construtor da ermida das Palmeiras, que deu origem mais tarde ao Convento, aqui chegou em 1558. Vitória já era a sede da Capitania. Antes dele, repito o padre Leonardo Nunes, quando aqui esteve no final de 1549, já encontrara a igreja. Ainda não tive oportunidade de ver, mas me afirmaram existir na igreja a pedra d' ara com a data de 1535, e nela gravado o nome de Lisboa. (8) Isso significa que ela foi trazida pelo primeiro donatário e colocada no altar da igreja por ele construída.

O mesmo Osvaldo lembrou então a necessidade de esclarecer a indagação do delegado Olímpio, isto é, se desde o início da colonização ela fora dedicada a Nossa Senhora do Rosário, conforme garantia a tradição, apoiada pelo padre Vidigal em sermão recentemente proferido.

As últimas palavras do tesoureiro da Câmara continham certa dose de veneno, pois insinuavam o propósito de jogar a opinião de Diógenes contra a do pároco. Não era à toa que o chamavam de "língua maldita".

A resposta seca de Diógenes, dita com convicção, causou una enorme silêncio e uma visível expressão de dúvida ou talvez de mal estar entre os circunstantes, visto que, em sermão pronunciado na missa do domingo anterior, o padre havia afirmado que a devoção a Nossa Senhora do Rosário nascera no início do século XIII, quando São Domingos tivera uma visão da Virgem. A santa mostrava o rosário e aconselhava que o mesmo fosse recitado pelos cristãos para favorecer-lhes a salvação. Portanto, como a campanha organizada por São Domingos e seus prosélitos fez surgir o culto à Senhora do Rosário no início do ano de 1200 e o povoamento da Capitania ocorreu três séculos depois, ou seja, em 1535, era evidente que a igreja, segundo a afirmativa do sacerdote, fora construída em homenagem à Virgem do Rosário.

Quando o assunto assumia conotações religiosas a tendência da maioria era acatar a palavra do sacerdote. Quintela sabia disso. Desse modo esforçava-se para não parecer anticlerical. No entanto, para ser fiel à História, não se importava em manifestar conceitos ou interpretar acontecimentos históricos, ainda que contrariassem tradições ou premissas de natureza religiosa. Seus amigos mais chegados sabiam disso.

Antes que alguém mais fizesse referência ao sermão, colocando em confronto a afirmativa do padre e a resposta negativa de Diógenes, este observou com rapidez:

— Vejam bem! Eu nada tenho contra as tradições religiosas de um povo desde, é claro, que não distorçam a verdade dos fatos. Me foi perguntado se a igreja do Rosário sempre teve este nome, ou melhor, se foi erigida para ser dedicada à Senhora do Rosário. Respondi negativamente e explico. Às vésperas de sua partida de Portugal para o Brasil, quando trouxe a família para a Capitania por ele herdada, o filho homônimo de Vasco Coutinho escreveu um testamento, datado de 19 de abril de 1573. (9) Por duas vezes nesse documento ele falou sobre a igreja de Santa Catarina existente em Vila Velha e determinou, caso morresse na viagem, fossem retirados do produto do seu engenho situado em Itaquari, ou de qualquer outra coisa que fosse vendida, os recursos necessários para um frontal a ser colocado no citado templo. (10) O testamento não fala de outra igreja e em nenhum momento referiu-se à igreja de Nossa Senhora do Rosário. Que igreja seria esta senão a mesma que está aqui diante de nós, erguida pelo pai do segundo donatário, a única existente na vila em razão dos motivos mencionados?

Neste ponto interrompeu Balbino Xavier:

— Quem sabe se o nome dado à igreja não representava uma homenagem do primeiro donatário à rainha Catarina, mulher de D. João III e avó de D. Sebastião, sucessor do rei que iniciou com as donatarias o povoamento do Brasil?

— É possível, meu caro, é possível. Com a morte do rei D. João III o trono coube ao neto, D. Sebastião. Por ser criança, ficou sob a tutela da avó, D. Catarina. Precisando Coutinho do apoio da Coroa para povoar sua Capitania, ou talvez por haver sido agraciado por Sua Majestade com terras no Brasil, achou assim uma forma de manifestar seu agradecimento, homenageando a rainha. Daí a igreja de Santa Catarina.

— Embora a devoção a Nossa Senhora do Rosário haja nascido no começo do século XIII, o que justifica o surgimento de várias igrejas com esse nome nos séculos posteriores, o testamento deixado por Vasco Coutinho, o filho, que o senhor mencionou, não deixa dúvidas quanto à existência dessa igreja dedicada a Santa Catarina.

Olímpio Abreu mal terminara de pronunciar as últimas palavras que concordavam com a exposição do doutor Quintela e o tesoureiro do município quase interrompia o delegado para poder externar sua dúvida:

— Mas não podia ser uma outra igreja?

— Claro que não, Osvaldo! — respondeu Diógenes. Acrescentou em seguida: — Você está esquecido que Leonardo Nunes, quando por aqui passou em 1549, com destino à Capitania de São Vicente, viu apenas uma igreja muito pequena que não tinha condições de abrigar todos aqueles a quem o padre procurava doutrinar com sermões! Logo depois os moradores da vila passaram a ser fustigados pelos íncolas, e com o ataque houve a transferência dos colonos para a ilha, que sem demora passou a ser o centro administrativo da Capitania. Portanto, onde encontrar tempo, tranqüilidade e recursos pecuniários para construir uma outra igreja se os goitacases a partir de então não davam mais trégua aos moradores da vila?

Com o mesmo interesse demonstrado pelos demais, Semíramis acompanhava o desenrolar da conversa. Puxou a cadeira para ficar mais perto de Diógenes e pousou sua mão suavemente na dele.

Perguntou:

— Se em 1573, data do testamento do segundo donatário, a igreja tinha o nome de Santa Catarina, a partir de quando passou a chamar se de Rosário? É uma curiosidade não só minha, mas de todos, eu creio. Li, não me lembro onde nem quando, que nos tempos do padre Anchieta aqui existia uma igreja com o nome de Misericórdia, tanto que o Auto da Visitação de Santa Isabel foi escrito pelo inaciano para ser encenado na frente dessa igreja. Seria a mesma do Rosário, ou seria outro templo?

— Para chegar à sua resposta, minha querida, é necessário que eu faça o seguinte preâmbulo: este assunto, não faz muitos dias, foi objeto de um sermão do nosso pároco, e nessa oportunidade ele falou sobre a origem da devoção a Nossa Senhora do Rosário. Conforme disse o padre Vidigal, a Virgem passou a ser cultuada também com este nome quando, no início do ano de 1200, ela apareceu a São Domingos e mandou que o rosário fosse recitado por todos os fiéis. Deu, portanto, a entender que a partir de então surgiram as igrejas consagradas à Virgem do Rosário. Mas, com todo o respeito que devoto ao amigo e piedoso padre, devo discordar em parte de sua afirmativa, porque a devoção em verdade surgiu não em 1200, mas ao raiar do ano de 1300, e a primeira confraria do Rosário só foi criada em 1474, às margens do Reno, em Colônia. A palavra rosário, na forma como é atribuída a Nossa Senhora, tem um sentido místico muito bonito. Significa: "o jardim das rosas de Maria". A festa era comemorada no primeiro domingo de outubro nas igrejas onde houvesse um altar dedicado à Senhora do Rosário. Vejam bem. Não havia igrejas com esse nome, mas simplesmente altares. Todavia, a devoção só foi verdadeiramente intensificada quando ocorreu um fato de extraordinária importância para o mundo cristão, que pôs à prova a fé dos devotos recompensados com um feliz resultado: a vitória na batalha de Lepanto.

Para Chico Chagas a expressão "batalha de Lepanto" não era novidade, por ser ele também um estudioso da História. Os demais, porém, em silêncio, aguardaram que Diógenes continuasse sua dissertação a fim de esclarecer a relação que existia entre a Virgem do Rosário e a tal batalha por ele citada.

— Todos sabem, — continuou Diógenes, — da grande influência que exerceu sobre o mundo o império otomano. Sob o longo reinado de quarenta e seis anos de Solimão, o Magnífico, tornou-se o mais extenso e poderoso Estado da história islâmica. Solimão não se celebrizou apenas por haver sido um grande guerreiro, mas especialmente por haver elaborado um código de leis que três séculos depois de sua morte ainda era aplicado pelos magistrados muçulmanos.

Com a morte de Solimão teve início a lenta decadência do império otomano. No lugar do Magnífico subiu ao trono Selim II. Este rompeu com Veneza um tratado de paz que durava trinta anos e que vinha desde os tempos do seu antecessor. Deu início então a uma guerra de conquista. Atacou primeiro a cidade de Nicósia, que caiu banhada com o sangue de vinte mil pessoas. Outras cidades foram subjugadas pelo império turco, a essa altura com pleno domínio do mar Adriático. Tal situação deixou apavorado o papa Pio V ao pressentir o perigo que ameaçava os povos cristãos. Fez veemente apelo à cristandade e desse modo conseguiu formar uma Santa Liga entre os países cristãos a fim de enfrentar a fúria sanguinária do inimigo.

Imediatamente formou-se uma frota comandada por D. João da Áustria, irmão do rei de Espanha. Da Sicília partiram os cristãos e logo avistaram os turcos quando saía do golfo de Lepanto a esquadra comandada por Ali Paxá, composta de trezentos navios.

Com cem barcos a menos, a frota aliada não se atemorizou e partiu para o combate. Feriu-se a formidável batalha. Era o mês de outubro de 1571 e, após muitas horas de sangrenta luta, morre o comandante Ali Paxá e, sem o líder, os turcos, desorientados, perdem o controle da situação. Morreram mais de vinte mil soldados islâmicos e mais de dez mil foram feitos prisioneiros, enquanto do lado cristão pereceram cerca de oito mil homens e vinte e um mil ficaram feridos.

— Registra a História que Miguel de Cervantes, ainda não famoso, pois suas obras viriam mais tarde, participou dessa batalha e, devido a um golpe de lança ou de espada, ficou com a mão esquerda para sempre inválida, — interferiu Francisco no relato do amigo.

— Além das pesadas baixas do inimigo, — prosseguiu Diógenes, — os aliados conseguiram restituir a liberdade a milhares de cristãos que estavam prisioneiros dos soldados do Islã. Foi a primeira vitória do mundo cristão sobre os turcos. Estando em desvantagem numérica diante dos muçulmanos, os aliados atribuíram a vitória a um verdadeiro milagre concedido pelo grande poder de Nossa Senhora do Rosário porque, enquanto os homens lutavam desesperadamente, a força que encontravam para combater com tanta bravura vinha da santa, pois nas horas em que se travava a batalha, as mulheres, velhos e crianças, nas igrejas ou em casa, rezavam o rosário com fervor e devoção implorando a vitória. Tudo isto repercutiu tão fortemente e de tal forma que, se antes o culto à Senhora do rosário restringia-se a certos grupos ou segmentos do Catolicismo, agora, no entanto, depois da memorável batalha naval de Lepanto, expandia-se com entusiasmo, acompanhada de comemoração festiva anualmente. (11) É o que revela a tradição amparada pela história.

Foi por isso, meus amigos, que o papa Clemente XI, através da bula de outubro de 1716, ampliou o evento ao determinar que a festa de Nossa Senhora do Rosário fosse comemorada por toda a cristandade. A partir daí, começaram a surgir os templos com essa denominação. (11a)

Portanto, Semíramis, embora sem poder precisar a data por falta até agora de provas documentais, arrisco-me a dizer que a nossa igreja matriz foi consagrada à Virgem do Rosário algum tempo depois da bula papal de 1716.

Há também quem afirme que ela se chamou de igreja da Misericórdia. (12)

Pelo exposto, e em se tratando de um só templo, acho que, ao ser construído na época em que governava o primeiro donatário, ela foi dedicada a Santa Catarina. Em seguida, após uma reforma ou reconstrução, passou a ser chamada de igreja da Misericórdia e finalmente de igreja do Rosário.

De dentro do bar podia-se contemplar a igreja, distante cerca de cem metros, simples na sua aparência mais majestosa diante dos séculos que viu passar na voragem do tempo.

Quando Cleto tentava formular uma pergunta, aproximou-se da mesa um garçom. Trazia nas mãos uma bandeja de prata coberta por um guardanapo de linho branco.

— Sua encomenda, doutor.

Diógenes agradeceu e perguntou se não faltava alguma coisa.

— Sim, senhor. Trago já.

Trouxe em seguida uma garrafa de vinho do Porto, branco, transparente e seco. Colocou-a sobre a mesa com algumas taças, pouco maiores que cálices, apropriadas para o vinho que ia ser servido.

Todos ao redor olhavam curiosos para a bandeja coberta. Ninguém mais havia pedido nada igual. Somente os que estavam à mesa de Diógenes sabiam do que se tratava porque conheciam o seu gosto pela iguaria servida. Enquanto o vinho era posto nas taças pelo garçom, o doutor Quintela, vagarosamente, com elegância, retirou o guardanapo de sobre a bandeja. Continha ostras. Ostras enormes, bem criadas, ainda dentro das conchas, porém abertas. Um detalhe: estavam cruas. Ele e Semíramis, com visível prazer, passaram a saborear o molusco cru, com duas gotas de limão e azeitonas pretas. Acompanhava o vinho do Porto de sabor inigualável. Cleto e Chico, habituados a comer com o amigo, fizeram o mesmo, pois haviam aprendido a gostar da iguaria.

À distância, algumas pessoas se repugnavam ao verem as ostras sendo comidas cruas, com vinho.

O certo, no entanto, é que naquela noite foi introduzido mais um prato no cardápio do vila-velhense habituado às moquecas apimentadas de peixes ou de mariscos. Passou a ser consumida por muita gente, no bar do Manduca, ostra crua com vinho do Porto branco e seco. Aos domingos, pela manhã, antes do almoço, era a maior atração culinária do bar.

Depois de saborear mais uma taça do néctar oriundo da região do Douro, entusiasmado, Cleto insistiu no assunto antes que alguém se antecipasse a ele.

Referindo-se a uma observação de Chico sobre a possibilidade de, ao ser erigida a igreja no tempo do primeiro donatário, sua área construída era apenas a parte dos fundos onde está a sacristia, Cleto Amorim questionou a afirmativa do amigo perguntando se havia registro histórico que informasse quando a igreja passou a ter a atual forma arquitetônica. (12a)

Depois de degustar vagarosamente o pouco do vinho do Porto repousado no fundo da taça, o morador da Chácara respondeu:

— Por falta de recursos financeiros a igreja por várias vezes ficou em ruínas, pois na segunda década do século XIX, quando por aqui passou o famoso naturalista Saint-Hilaire, Vila Velha não passava de uma pequena e pobre aldeia de pescadores, conforme observou e escreveu o cientista francês. Ora, se no século passado a situação da vila era de extrema pobreza, podemos imaginar o que não ocorria nos séculos anteriores. Por outro lado, é possível que a apatia ou talvez a incúria dos habitantes da vila haja contribuído para a falta de conservação do templo. Segundo monsenhor Pizarro, depois de estar em ruínas a igreja foi reconstruída e tomou o nome de igreja da Misericórdia.(13) Antes, certamente, deveria chamar-se de Santa Catarina. Notem que isso aconteceu ainda no tempo de Anchieta. Esse templo não tinha primitivamente as mesmas dimensões e características atuais. Ao longo dos seus quase quatro séculos de existência passou por várias reformas. Se assim não fosse, não teria sobrevivido ao calor escaldante do sol nem à fúria inclemente das chuvas e do vento.

E continuou em sua explanação esclarecendo que em 1709, por iniciativa do bispo do Rio de Janeiro, a igreja foi reedificada. Gastou-se com as obras a quantia de duzentos mil réis pagos pela Coroa. Naquela época, o Tesouro lusitano nadava no ouro levado do Brasil. Portanto, não fazia nenhum favor em subvencionar as obras de restauração da igreja do Rosário.

— Quem sabe, meu caro Cleto, se a ampliação do templo não aconteceu naquela oportunidade. É possível, também, que o estilo da arquitetura jesuítica predominante nas igrejas erigidas principalmente no litoral haja influenciado o mestre de obras, pois a igreja do Rosário passou a ter semelhança com os templos edificados pelos padres da Companhia. Só não foram erguidas as torres. Mas se observarmos com cuidado veremos no adro as bases e os espaços deixados para elas. Talvez os recursos financeiros para a ampliação fossem insuficientes para a construção das torres. Insisto pois em dizer: a igreja primitiva não é de origem jesuítica, simplesmente porque quando os inacianos chegaram, em 1551, ela já existia. As reformas nela introduzidas até atingirem as características hoje conhecidas, essas sim, sofreram a influência do modelo adotado pelos discípulos de Loiola.

Quarenta e um anos depois das obras de ampliação referidas por Diógenes Quintela, isto é, em 1750, a igreja foi elevada à categoria de paróquia. Não obstante o predicamento de paróquia a ela concedido, o seu estado de conservação sempre deixou a desejar. E foi isso que impressionou o imperador Pedro II quando esteve em Vila Velha, em janeiro de 1860. Não só o interior da igreja mas toda a vila vivia um lamentável estado de pobreza, "uma espécie de São Vicente de Paulo", conforme registrou o monarca.(14) Desde a passagem de Saint-Hilaire, em 1818, até a visita do soberano brasileiro, em 1860, nada havia melhorado na vila. Sensibilizado, o imperador doou, do seu bolso, a importância de quatrocentos mil réis para melhorar as condições da igreja e igual quantia, a título de esmola, deu aos pobres locais.

O jornalista que acompanhou Pedro II e sua enorme comitiva formulou em seu jornal veemente apelo ao presidente da Província do Espírito Santo para que aplicasse a verba de um conto de réis, aprovada pela Assembléia Provincial, destinada à reforma da igreja do Rosário.(15) Se realmente a verba foi aplicada não se tem notícia.

Diomedes Quintela até então permanecia calado. Limitava-se a ouvir as perguntas dos amigos e as respostas dadas pelo irmão. Resolveu também participar do assunto que, aliás, não era o seu forte pois durante toda a vida dedicara-se ao comércio, amealhando fortuna.

— Outro dia, Diógenes, passando os olhos em um livro da sua biblioteca li que em tempos idos existiu uma Casa da Misericórdia ou Casa de Caridade destinada a socorrer os pobres da vila. O assunto despertou minha curiosidade mas, infelizmente, devido ao, meus afazeres, não pude continuar a leitura. 

Muito oportuna sua observação, pois este assunto de certa forma está ligado à igreja do Rosário. Trata-se de matéria até certo ponto controvertida devido à circunstância de se confundir Casa de Caridade com Casa da Misericórdia. Os historiadores que se ocuparam do assunto ora mencionam um nome, ora outro, indicando, no entanto, para as casas citadas a mesma finalidade. Sabe-se que, por determinação do provincial Inácio de Tolosa, deveria ser efetuada a construção de um hospital ou asilo em cada vila. Por isso é que em 1595, quando em virtude de enfermidade Anchieta durante alguns meses esteve abrigado na casa de Miguel de Azeredo, no sitio ao pé do morro do Moreno, na mesma casa onde viveram os dois primeiros donatários, pediu o padre que em Vila Velha fosse construída a Casa da Caridade onde os pobres, inclusive índios velhos e doentes, pudessem ser albergados e tratados de suas enfermidades.

— Mas quem foi Miguel de Azeredo? — quis saber Osvaldo Coutinho, cujo conhecimento de História não era dos melhores.

— Foi o capitão a quem Luíza Grinalda passou em caráter interino o governo da Capitania assim que chegou ao seu conhecimento que a Coroa decidira entregar a Colônia a Francisco de Aguiar Coutinho, primo de Vasco Filho.

E continuou Diógenes:

— Fortalecia o pedido do padre Anchieta o fato de haver grassado uma epidemia de varíola em 1594. Muitas vidas foram ceifadas em Vila Velha e em Vitória. Não havia local apropriado para dar assistência aos enfermos. Diante da evidência e também porque não podia negar nada ao amigo por quem nutria grande amizade, Miguel de Azeredo autorizou a construção da Casa da Caridade. Enquanto se verificava a construção, a igreja do Rosário albergou os doentes e desabrigados até a conclusão das obras, realizadas onde hoje está situada a rua Pedro Palácios, segundo Daemon. Daí em diante, sempre que se fazia alusão ao estabelecimento falava-se Casa da Caridade ou Casa da Misericórdia. Por conseguinte, durante o tempo em que ficou provisoriamente instalada na igreja chamava-se Casa da Caridade, passando a intitular-se Casa da Misericórdia tão logo a construção da sede do estabelecimento ficou concluída na atual rua Pedro Palácios. Não deve ser confundida com a Irmandade da Misericórdia. existente na vila desde 1545. Esta era apenas uma instituição beneficente mas sem estabelecimento para a ajuda material de desvalidos.

Em relatório assinado em julho de 1682, o provedor Manoel de Morais informava ao donatário da Capitania do Espirito Santo, Francisco Gil de Araújo, haver cumprido suas ordens reconstruindo na vila do Espírito Santo a Casa da Misericórdia da qual só vestígios existiam. O mesmo documento dizia ter Vila Velha somente aparência de vila, mas, depois de construídos a Casa da Câmara de Vereadores e o pelourinho, tudo feito com especial carinho, usando-se pedra e cal, a localidade tomou um aspecto sem igual em toda a Capitania.(16)

Ao pôr na taça um pouco mais de vinho, Diógenes foi delicadamente puxado por Samírarnis, que sussurrou ao seu ouvido:

— Querido, você já bebeu o suficiente. Não acha? Mais vinho pode lhe fazer mal... pode provocar acidez no estômago. Tome agora um pouco de água fresca. Tome!

Ele riu, beijou a nívea e perfumada mão de sua acompanhante e, voltando-se para os amigos mais próximos, comentou sorridente:

— Semíramis se preocupa quando bebo vinho. Diz que pode provocar acidez em meu estômago. Mas seu receio verdadeiramente é outro. Teme que o vinho possa interferir em meu comportamento. Minha inspiração, mal sabe ela, só começa depois da terceira ou quarta taça. Água faz mal, o vinho é que faz bem à saúde. Assim dizem nossos irmãos lusitanos. Não é verdade, Chico? O que disse sobre isso o poeta persa, Omar Khayyam? Lembra-se?

Todos se voltaram para Francisco. Por alguns instantes, olhou para cima como quem se esforçasse para lembrar de alguma coisa. Em seguida recitou:

Procura ser feliz ainda hoje

Pois não sabes o que te reserva

O dia de amanhã.

Toma uma taça de vinho,

Senta-te ao clarão do luar e monologa:

Talvez amanhã a lua me procure em vão.

Chico foi aplaudido e, mudando o tom declamatório, cheio de entusiasmo devido aos aplausos recebidos, prosseguiu:

— Falávamos há pouco de José de Anchieta e isso me faz lembrar: se o teatro no Brasil não nasceu em Vila Velha, pelo menos aqui houve uma colaboração pioneira para o desenvolvimento da arte cênica. Aqui, na frente de nossa igreja, foi encenado o Auto da Visitação de Santa Isabel, escrito por Anchieta quando já estava muito doente. A encenação aconteceu dois meses depois do seu falecimento. Diógenes compreendia e até respeitava o bairrismo do amigo, mas quando percebia exageros que chegavam ao cúmulo de ferir a verdade de fatos históricos, interferia e pedia calma e prudência.

No tocante à colocação de Francisco sobre os autos escritos por Anchieta e a participação de Vila Velha na sua encenação, procurou esclarecer:

— Chico, com seu bairrismo até certo ponto elogiável e que traduz o amor por ele devotado a esta terra, se esqueceu de dizer que em Vitória, antes de Vila Velha, houve representação teatral de uma peça de Anchieta: o Auto da Vila de Vitória ou de São Maurício, encenado em 1595. Segundo os críticos, foi a melhor produção dramática do autor, pois está repleta de movimentos, humor e ensinamentos morais. Portanto, — concluiu Diógenes, — não foi só Vila Velha que serviu de palco para a encenação das peças do padre, os "insulanos vitorienses", como costuma dizer o nosso Chico, também participaram desse pioneirismo.

Chico sorriu e silenciou. Por uma questão de orgulho ou talvez para ser coerente com o seu ponto de vista, não quis dar razão ao amigo, pois tudo de bom ligado à Capital do Estado lhe causava ojeriza. Não gostava de Vitória e nas oportunidades surgidas dizia que a Capital deveria estar instalada em Vila Velha. Esta, sim, reunia todas as condições para ser a sede do governo estadual. Sentia-se feliz quando era apoiado pelos amigos e, dando asas à imaginação, falava do futuro da cidade com suas largas e compridas avenidas arborizadas e bem iluminadas. Sentia-se prefeito e em seus devaneios visitava feliz, ao final do dia, as praças com seus jardins floridos. Em torno dos canteiros ou dos gramados não seriam colocadas pequenas cercas que impedissem as pessoas de tocar as flores ou de pisar a grama. Na verdade, Francisco Chagas era um visionário. Em seus sonhos quiméricos acreditava que o povo não sujaria as ruas e os jardins da cidade não seriam violentados por ninguém. Por ser uma propriedade pública construída com o dinheiro resultante dos tributos pagos pelos munícipes, imaginava que os moradores zelariam por um bem que na verdade lhes pertencia. Era como pensava Chico Avenida, às vezes tão inocente, doido para ser um dia prefeito de Vila Velha.

• • • •

O MOVIMENTO do Café e Bar da Prainha continuava animado. Ninguém do grupo em torno de Quintela arredava pé, tamanho o interesse despertado pela igrejinha sempre reverenciada pelos vila-velhenses.

Instado a falar mais ainda a respeito da igreja, Diógenes não se fez de rogado. A história de Vila Velha era para ele um assunto sempre fascinante. Logo se identificara com o seu povo e dizia que era filho da cidade que o recebera com tanto carinho e simpatia.

— No período colonial e até mesmo durante o Império, a Igreja no Brasil, além da atividade religiosa que exercia, desempenhava papel muito importante na vida da sociedade. Por seu intermédio a população local era informada sobre assuntos do seu interesse ligados à vida financeira, social e política da vila, ou da cidade. Em seu interior não se rezava apenas. Durante as rezas, o homem, ao admirar uma mulher bem vestida e bonita, às vezes se insinuava com um discreto olhar ou com um disfarçado sorriso. Ao se abanar, com um movimento característico do leque, segundo as convenções da época, ela demonstrava aceitar ou não a corte do cavalheiro. Assim surgiam namoros e até casamentos.

Não existiam bancos nos templos. Durante os ofícios religiosos os homens ficavam de pé e as mulheres sentavam-se no chão sobre bonitos tapetes trazidos de casa ou sobre pequenas almofadas cuidadosamente escolhidas. Somente autoridades de elevada posição hierárquica faziam jus a cadeiras de espaldar colocadas diante do altar-mor.

Após as orações ou as missas, o padre passava aos fiéis notícias de natureza social e de interesse da sociedade local. Era um verdadeiro jornal falado. Divulgavam-se os noivados, casamentos, batizados, atos administrativos e políticos e informações sobre venda de terras, colheitas e demais negócios comerciais. Na saída, no adro da igreja, admirava-se a moda e faziam-se mexericos. Logo, tanto nas vilas como nas cidades, as pessoas se inteiravam com detalhes de fatos ou acontecimentos quando iam à missa dominical. Isso geralmente acontecia nas vilas e pequenas cidades onde não existia jornal. Mesmo assim, nas capitais das províncias ou cidades mais desenvolvidas do Brasil Império, ao final da missa o sacerdote lia para os fiéis as notícias mais importantes publicadas nos periódicos.

Por ser o povo daquela época muito religioso e devido à importância que o templo tinha no seio da sociedade, não se regateavam esforços nem sacrifícios para o seu embelezamento. Procurava-se dar um aspecto grandioso à igreja de sua predileção, aformoseando-se os altares e todo o seu interior. Com a farta e rica contribuição dos que dominavam a economia da época, máxime dos que viviam nababescamente em decorrência da lavoura cafeeira e à custa do escravismo, eram contratados artistas do quilate de Aleijadinho e de Mestre Valentim.

Por decisão do governo imperial e por ser a Igreja integrada ao Estado, em virtude do sacramento do batismo ela controlava o registro de nascimento da população do país. Da mesma forma, exercia o controle do registro de casamento. Desse modo, somente a união matrimonial celebrada por um sacerdote produzia efeitos legais. O casamento de protestantes não era considerado válido. Era uma situação constrangedora para os que não professavam o catolicismo.

Sabe-se que, por exigência da Inglaterra, o protestantismo passou a ser reconhecido no Brasil. O reconhecimento nasceu com o Tratado de Comércio e Navegação firmado entre Portugal e Inglaterra, em 1810, por intermédio do qual, entre outros assuntos de natureza comercial, ficou estabelecido que os britânicos poderiam aqui praticar a religião anglicana.

Nessas condições, os cultos evangélicos identificados por anglicanos, metodistas, luteranos e presbiterianos apareceram no  Brasil no período de 1819 a 1862.

Não obstante o mandamento (art. 5°) da primeira Carta Magna do Brasil, datada de1824, estabelecesse a liberdade religiosa, o privilégio dos registros de nascimento e de casamento permaneceu com a Igreja. Com isso, o casamento dos protestantes continuou ilegal no país. Somente com a lei 1.141, de 11 de setembro de 1863, regulamentada pelo decreto 3.069, de 17 de abril do ano seguinte, os casamentos realizados pelos ministros evangélicos passaram a produzir efeitos legais. Às igrejas protestantes foi também outorgado o direito de registrar o nascimento dos filhos de seus membros. Esta situação perdurou até o advento da República, quando foram criados os cartórios do registro civil que passaram a ter, em definitivo, tal incumbência.

O papel desempenhado pela igreja do Rosário entre os moradores de Vila Velha não era diferente do que desempenharam suas congêneres espalhadas por todo o Brasil. A única diferença era a extrema pobreza da vila, cuja população não tinha recursos para conservar e muito menos para embelezar com obras de arte seu único templo. Quanto ao mais, ela desincumbia-se muito bem do seu papel social perante os "canelas-verdes".

No início da guerra do Paraguai, quando o Brasil estava inferiorizado diante do inimigo em número de homens, o governo imperial formulou apelo a todos os governadores das províncias que, por sua vez, notificaram as vilas com o objetivo de incentivarem os homens a se alistar no Corpo de Voluntários da Pátria.

O presidente da Câmara de Vereadores, em data de 9 de fevereiro de 1865, recebeu ofício neste sentido. (17) Com certeza, na mesma igrejinha de aparência tão singela, mas de tanto valor sentimental e histórico, a notícia repercutiu. O padre, talvez a pedido da Câmara, pronunciou sermão para despertar o sentimento de patriotismo dos habitantes da vila. Falou que a honra da nação fora ferida com a invasão do território brasileiro por tropas paraguaias. Terminou conclamando os homens solteiros a aderir ao movimento nacional dos Voluntários da Pátria, em cujas fileiras se deveriam engajar os bons brasileiros a fim de lutar contra a tirania de Solano López. Era a linguagem da época.

— Ah! O meu pai de vez em quando comentava lá em casa alguma coisa sobre isso, — informou Cleto Amorim. — Dizia o avô dele que, assim que o padre terminou de falar, os rapazes mesmo os casados, se enfurnaram em suas casas durante dias, com medo da guerra. Algum tempo depois, muitos se embrenharam no mato para não se alistarem espontaneamente. Espontaneamente entre aspas, é claro.

— Cuidado, Cleto! Que o major Felipe Gonçalves não ouça o que você disse, — falou alguém, provocando risos.

O major não estava presente pois evitava sair à noite. Continuou Diógenes:

— Quem sabe se muitos anos atrás, isto é, em 1824, o pobre povo da vila, no interior da mesma igreja do Rosário, não tomou conhecimento da existência de portaria emanada da Corte segundo a qual era nomeado o cirurgião-mor Francisco Luiz da Silva para coordenar na Província do Espírito Santo a aplicação da vacina contra a varíola, mediante a gratificação anual de cem mil réis. O pagamento da gratificação seria dividido entre as vilas, ficando fora do rateio a cidade de Vitória. (18)

— Tinha de ser assim, — desta vez era Francisco que atalhava. — Uma vila paupérrima era obrigada a participar da despesa com o pagamento dos honorários do médico enquanto, sem qualquer justificativa, Vitória ficava isenta do rateio, embora com maior número de habitantes e muito deles ricos.

Não era de estranhar que Chico assim se manifestasse pois todos conheciam sua proverbial antipatia pela Capital e seus habitantes. O delegado Abreu tomou a palavra:

— Quando criança, ouvia meu bisavô várias vezes dizer de um movimento a que assistira, também quando menino, com muita gente na igreja. Falava-se, dizia ele, de uma constituição.

E Diógenes retomou a palavra para dar razão ao bisavô de Chico.

— Seu bisavô, meu caro, estava coberto de razões. Quanto à nossa igreja do Rosário, vimos, meus amigos, a importância que representou em tempos idos para os moradores da vila. Por isso mesmo, devemos a ela todo o nosso respeito pelo muito que significou no passado e representa no presente.

Em tempos bem mais remotos, crianças e idosos, incapacitados para a luta, refugiaram-se em seu interior para não serem alvejados pelas flechas dos índios enfurecidos. Ali, enfermos e indigentes receberam abrigo e alimentos.

Dentro dela ajoelhou e orou o velho Vasco, antes tão cheio de esperança, mas depois, devido aos insucessos, cansado e doente, à espera da morte.

Coutinho Filho, sua mulher Luíza, Belchior de Azeredo, Miguel de Azeredo, José de Anchieta — quando de passagem, vindo de sua querida aldeia Reritiba — e tantos outros, cujos nomes estão sepultados na tumba do esquecimento, certamente se prostraram de joelhos em preces fervorosas sob o teto desse templo, numa demonstração de humildade religiosa.

Na ampulheta do tempo as horas formaram dias, os dias viraram anos e os anos somaram séculos. E nossa querida igreja do Rosário, sempre tão singela, na grandeza de sua simplicidade permaneceu de pé como a desejar em seu mutismo secular revelar-nos a história dos nossos antepassados.

Diógenes é aplaudido por todos. Semíramis lhe beija o rosto.

A noite já estava alta quando as pessoas começaram a sair de volta a casa. Algumas saíram amparadas, por outras, pois não conseguiram controlar a dosagem do álcool que podiam suportar.

De qualquer forma, tudo transcorrera sem qualquer incidente.

Os poucos que antes olhavam a igreja do Rosário com certa indiferença, simplesmente porque ignoravam o seu passado, saíram felizes depois de terem ouvido Diógenes. A partir daí o templo passou a fazer parte da vida de cada um.

— O papo está gostoso, o vinho maravilhoso, mas amanhã devo estar de pé bem cedo, — disse, levantando-se, o delegado Abreu. — Minha mulher não me perdoará se eu deixar de ir à missa amanhã.

Tinha razão o delegado.  Mariazinha, sua mulher, era a maior carola da cidade. Fazia parte do coro da igreja e liderava o movimento das mulheres que rivalizavam com o coro do Convento. Era uma alma caridosa mas conduzia o marido com rédeas curtas. Por isso, justificava-se a preocupação do marido em não perder a missa.

Diógenes também se levantou. Despediu-se de todos e abraçou Manduca Ribeiro pela feliz inauguração do seu estabelecimento. Em seguida, retirou-se com Semíramis e com os inseparáveis amigos e Cleto, enquanto Diógenes voltava a casa.

Uma brisa suave e gostosa, com cheiro de mar, vinha dos lados da Prainha. A luz argêntea da lua mostrava a presença de pequeno grupo que cantava ao som de dois violões. Eram os irmãos Arnaldo e Antônio Barcelos, violonistas e seresteiros famosos da cidade que, tendo saído mais cedo da festa de inauguração do estabelecimento de Manduca Ribeiro, estavam agora com alguns amigos na Prainha. Os quatro se juntaram ao grupo. Cleto saiu quase correndo para buscar a flauta. Enquanto Chico, acompanhado pelos violões dos irmãos Barcelos e a flauta de Cleto, cantava canções com versos que falavam de amor, Semíramis, sentada na areia da Prainha, amparava a cabeça do amado em seu colo macio e perfumado.

E assim a madrugada chegou, banhada pelo luar, sob os acordes da serenata.

NOTAS

5. Dicionário Histórico, Geográfico e Estatístico da Província do Espírito Santo, 1878 (César A Marques).

5a  Conforme pesquisa feita pelo estudioso de nossa história, engenheiro civil Roberto B. de Abreu, na parte posterior da igreja do Rosário, em reforma ocorrida em 1990, "verificou-se predominância do uso de pedra, cal e óleo de baleia para a construção das paredes e já na parte da frente apareceu o uso de tijolos maciços denotando ser da época em que a cerâmica já estava sendo implantada, o que não acontecia nos primeiros meses de colonização".

5b. Serafim Leite, História da Companhia de Jesus no Brasil, 3 vol. p. 221.

6. Contrariando a tradição, afirma José Teixeira de Oliveira (op. cit., p. 63) que não foi a derrota dos nativos que motivou a mudança do nome de Vila Nova para Vitória, pois antes do mês de março de 1550 existia uma provisão assinada por Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor da Fazenda Real, constando o nome de "Villa da Victoria Provincia do Espirito Santo Capitania de Vasco Fernandes Coutinho".

7. Serafim Leite, op. cit., vol. I, p. 214.

8. Quem faz referência à pedra d'ara (pedra de altar), sua origem e data é Mario Aristides Freire em “A Capitania do Espírito Santo”, p. 8. Entretanto, já faz algum tempo, constatamos que ela não existia na igreja do Rosário. Ao que sabemos, desapareceu em uma das reformas do templo, tomando paradeiro ignorado.

9. Espírito Santo: Documentos Coloniais, série Documentos Capixabas. Publicado pela Fundação Jones dos Santos Neves, vol. 1, agosto/1978. 

10. "Somente do rendimento do dito engenho, ou do que estiver vendido do melhor parado se tirará para hum frontal que mando que se ponha na igreja de Sancta Catarina que estaa na Villa Velha onde se Dara pela alma do meu pay que Deos perdoe." E mais adiante explica qual o tipo de tecido e cor que deseja para o frontal: "...de chamalote carmesim, ou de tafetá da mesma cor da maneira que a meu testamenteiro lhe bem parecer...". Publicação referida na nota n° 10, p. 34-37.

11. Cesare Cantil, História Universal, vol. 21, p. 478.

11a. Pelo menos até agora não é conhecido nenhum documento com data anterior a 1716 que faça referência à igreja do Rosário. Os documentos existentes são todos posteriores ao ano acima citado, conforme se vê do Catálogo de Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Espírito Santo (1585-1822), nota 181, p. 46, trabalho organizado pelo professor e paleógrafo João Eurípedes Franklin Leal, Arquivo Público Estadual. Isso vem provar que o templo só passou a ter o nome da Virgem do Rosário após a bula papal de outubro de 1716. Primeiramente homenageava Santa Catarina. Depois passou a se chamar "da Misericórdia" e por último "do Rosário". Em Vitória, a igreja do Rosário foi edificada a partir de 1765.

12. Monsenhor Pizarro (José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo), na sua obra Memórias Históricas do Rio de Janeiro, em dez volumes, diz (vol. II, p. 9-10) que a atual igreja do Rosário, depois de estar em ruínas, foi reconstruída com o nome de igreja da Misericórdia. Em Anchieta, o Apóstolo do Brasil, de Hélio Abranches Viotti, S.J., p. 224, também é dito que o Auto de Santa Isabel foi escrito por Anchieta "para ser levado à cena diante da igreja da Misericórdia, na Vila Velha".

12a. Em 1910 ainda existia na lateral esquerda da igreja do Rosário um anexo de remotas épocas e que, provavelmente, servia de casa paroquial. Foi demolido na ocasião em que se construía a linha de bonde (ver gravura no capítulo VI deste livro). A igreja sofreu uma mutilação desnecessária, pois o espaço existente entre o anexo demolido e as casas à margem do logradouro bastava para dar passagem aos bondes que ali iam trafegar.

13. Ver nota n° 12, acima.

14. Levy Rocha, Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, p. 62.

15. Levy Rocha, op. cit.

16. Documento publicado pela primeira vez por Alberto Lamego em Terra Goitacá e transcrito por José Teixeira de Oliveira em História do Estado do Espírito Santo, p. 168-169.

17. Ver fac-símile de documento pertencente ao Arquivo da Prefeitura Municipal de Vila Velha — Anexo 1 (Doc. 1 - pg. 213).

18. Ver fac-símile de documento pertencente ao Arquivo da Prefeitura Municipal de Vila Velha — Anexo 2 (Doc. 2 - pg. 215). 

 

Fonte: Vila Velha seu passado sua gente, 2002
Autor: Dijairo Gonçalves Lima
Ilustrações: Mônica Mol
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2015



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Arte indígena em Anchieta

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A igreja e a antiga residência de Anchieta foram construídas no século XVI pelo padre e os índios, com pedras e blocos de recifes sob argamassa de cal de mariscos e óleo de baleia

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