Bonde

Editor: Morro do Moreno - publicada: 04/04/2012

Trajeto do bonde em Vitória e Vila Velha - Acervo: Edward Alcântara

Nesta volta no tempo não se pode deixar de mencionar o que muito pouca gente sabe: que Cachoeiro de Itapemirim teve bondes. Cachoeiro foi a única cidade do interior do Estado que possuiu este tipo de transporte. Foram poucos os carros, e de vida curta, mas os bondes circularam pelas ruas da cidade durante alguns anos na década de 30. Porém foi mesmo na capital capixaba que leses representaram, por várias décadas, o principal meio de transporte coletivo.

Os primeiros bondes a circular em Vitória eram do tipo locomotiva movido a carvão. Os veículos pertenciam à Companhia Ferro Carril e faziam a linha Vitória/ Praia do Suá. No mesmo período apareceram os bondes puxados a burro, que rodavam apenas no centro da cidade. Já o tipo clássico, movido a energia elétrica, só veio mais tarde, trazendo algumas variações, pois, além do carro motriz, havia o reboque para passageiros e um tipo especial de reboque que servia de carro funerário. “Na época, ou seja, até os anos 40”, diz Nilton, “muitos enterros, para não dizer a maioria, eram feitos por bonde”. O carro funerário, que transportava o caixão era engatado ao bonde, onde viajava o cortejo. Segundo Nilton, o carro era o mesmo para todo mundo. O que mudava era a decoração. “Para o enterro de pessoas que tinham maior poder aquisitivo e podiam pagar por um serviço mais requintado tinha até cortina”, conta.

Um tipo especial de bonde elétrico foi o “taioba” que circulava no início da manhã, ainda madrugada. Era um carro sem assentos que além de transportar verduras e legumes para o mercado, onde seriam vendidos, levava os boêmios que voltavam para casa.

Os bondes, segundo Nilton, eram diferenciados também por suas linhas. “Tinha o circular, que só rodava no Centro, ligando as partes alta e baixa da cidade”, explica. “E havia os bondes que faziam linhas. Aqui em Vitória, tinha uma linha que saía de Santo Antônio e vinha até o Centro, e outra que ligava o Centro à Praia do Canto”. Nilton lembra também que em Vila Velha, onde este meio de transporte só deixou de ser utilizado em 1967, dois anos depois da desativação dos últimos bondes de Vitória, havia uma linha que saía de Paul e chegava à Prainha, passando por uma série de bairros.

 

Tudo era devagar

 

Dona Palmira, com quem Nilton está casado há quase 50 anos, lembra que uma volta no circular custava 200 réis. Segundo Nilton, o bonde, na reta, chegava a atingir 30 quilômetros por hora. “Tudo era devagar naquela época”, comenta dona Palmira. Esta “velocidade máxima” só era atingida nas linhas para os bairros, ou seja, fora do Centro.

Vitória e Vila Velha juntas tiveram 25 bondes, sendo que os primeiros vinham da Europa (Alemanha), e foram apenas montados aqui. “Depois passamos a construir os bondes e reboques aqui mesmo”. A oficina da Central Brasileira de Força Elétrica, responsável pelos serviços de energia, telefonia, lanchas e bondes, ficava na Rua Sete de Setembro, onde está localizada hoje a sede da Escelsa.

Seu Nilton diz que, embora o tempo dos bondes tenha terminado há alguns anos, o capixaba deveria ter ainda alguns carros em locais propícios para visitação pública, o que seria um registro de um importante período da vida da cidade. Um dos bondes chegou a ser enviado para o Instituto Tecnológico do Estado, onde foi acomodado dentro de um grande galpão, próximo ao Clube Álvares Cabral. “E foi um bonde completo, com reboque e dois motores extras”, conta ele.

O paradeiro deste carro, porém, é desconhecido. “deve ter sido desmontado”. Lamenta Nilton, “assim como um reboque para a Apae. Um terceiro reboque foi enviado para o Sesc e ficou exposto no pátio, ao lado da antiga rodoviária de Vitória. Mas também este desapareceu. A mesma sorte teve um bonde que ficou no porto de Paul por muito tempo esperando para ser instalado no 38º BI”, conta. “Nós iríamos instalá-lo funcionando, Mas depois houve mudança de comando no BI e o projeto foi deixado de lado”.

Hoje, o “último dos moicanos” permanece no pátio da Escelsa, em Carapina. Mas também esse irá se acabar se não o tirarem do tempo e o colocarem em um local protegido. A esperança de Nilton é que o carro, devidamente restaurado, seja colocado no museu que a Escelsa tem planos de criar na sede da empresa, na Rua Sete de Setembro.

 

A viagem possível

 

Aos 76 anos e depois de se submeter a uma difícil cirurgia cardíaca por causa de um enfarte, em 1989, Nilton deixou a fotografia de lado e confessa não ter a intenção de voltar a fotografar, embora permanece como membro do Foto Clube do Espírito Santo. E uma vez que nenhum dos bondes que rodaram em solo capixaba estão hoje conservados, o que dificulta a volta no tempo a Vitória “dos bons velhos tempos”, como diz Nilton, a viagem possível é através do seu acervo de fotos.

Uma viagem que ele pretende que não seja uma exclusividade sua, mas que todos possam também fazer. Para tanto, planeja uma exposição.

Os primeiros contatos nesse sentido já foram feitos coma secretaria de Cultura e Esportes da Prefeitura de Vitória, Vera Viana. “A promessa de uma exposição na Fafi foi feita”, diz Nilton. “E a secretária ficou de ligar para combinar a data, mas nada até agora”. Ele tem quase cem fotos de bondes, dez fotos de lanchas e um grande número de fotografias que retratam a Central Brasileira de Força Elétrica.

Vale registrar também que Nilton não fotografou apenas os bondes de Vitória, Vila Velha e Cachoeiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele, com a família, se transferiu para o recife. “Eu fui ajudar no serviço de bondes daquela cidade, que era o único meio de transporte, e o trabalho era muito”, conta. Durante os dois anos que passou lá, ele fotografou os bondes (e consequentemente as pessoas e a cidade). Uma destas fotos saiu na capa do livro The Tramways of Brazil, A 130 – Year Survey, do jornalista Allen Morrison, lançado em 1989 pela Bonde Press, de Nova Iorque. O exemplo que Nilton recebeu trouxe uma dedicatória do autor, agradecendo a ele, que “inspirou e tanto ajudou para a conclusão da obra”. As fotos de Nilton aparecem também em nove páginas do livro.

O interesse do jornalista americano pelo acervo se deu após a publicação, em janeiro de 1986, em A GAZETA, de uma matéria sobre Nilton e seu acervo fotográfico. Allen Morrison veio a Vitória, no mesmo ano, e conseguiu farto material para a publicação.

 

Autor: Alvarito Mendes Filho
Fonte: Jornal A GAZETA
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012 

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