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Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira – Por Levy Rocha

Fac-símile do livro: Tratado da Província do Brasil, 1576. Autor: Pero de Magalhães de Gândavo

Positivamente, o Brigadeiro José Joaquim Machado de Oliveira não era muito de "esquentar lugares", mesmo os de presidente de províncias. Após fazer parte do governo provisório do Rio Grande do Sul, ele passou pelas presidências do Pará, em 1832; das Alagoas, em 1834; de Santa Catarina, em 1837; e Espírito Santo, em 1840. E, mal completava oito meses de administração desta última, arribou a outras plagas, no desempenho de missões político-diplomáticas.

Natural seria que o nome desse paulista (da Capital), nascido a 8 de julho de 1790, caísse no esquecimento dos pósteros, não fosse a sua vida marcante de soldado (militou na campanha sulista cinco anos); de político (representou, na Câmara temporária, algumas províncias); de estadista, geógrafo, etnógrafo e historiador.

Das suas obras impressas, merecem destaque: uma "Geografia" e um "Quadro Histórico" da província de São Paulo; uma "Questão de Limites" entre o Brasil e o Uruguai e uma monografia sobre os índios Caiapós, do Paraná.

Sua curta administração da província capixaba foi marcada por alguns acontecimentos e atos administrativos. Nomeado por carta imperial de 5 de agosto, tomou posse a 15 de outubro de 1840, coincidindo a oportunidade com a chegada, em Vitória, naquele ano, da primeira tipografia comprada pelo fazendeiro, proprietário e ex-alferes de 1ª Linha, Alfredo Ayres Vieira de Albuquerque Tovar, a qual imprimiu o primeiro jornal do Espírito Santo: O Estafeta. "Mofino — diz a crônica —, só circulou o 1° número". E, nem dos 120 exemplares que deveriam ter sido impressos, no mínimo, para atender as exigências oficiais, nos consta sobrexistir um único. Mas a tipografia continuou, lançando as primeiras impressões capixabas dos ofícios, poesias, rezas, circulares, relatórios de presidentes da Província e livros. Vendida oito anos depois, foi servir à impressão do bi-semanário Correio da Vitória, o qual durou 24 anos.

O fracasso do primeiro jornal do Espírito Santo não teria sido motivado pela falta de apoio e estímulo do Presidente da Província. Homem de letras, sócio-fundador do Instituto Histórico Brasileiro, com diversas monografias, Machado de Oliveira deve ter conquistado a admiração do diretor daquela tipografia, José Marcelino Pereira de Vasconcelos. No jornal de sua propriedade: O Semanário, ele transcreveu, em 1857, a memória do Convento da Penha que Machado de Oliveira divulgara, no tomo 18º da Revista Trimensal. Essa edição desenvolvida "de uma antiga lenda do mesmo convento", foi também divulgada no tomo 8° (1892), da Revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Além de constituir rica fonte de informação histórica, revela um autor "cuidadoso e elegante no estilo, capaz mesmo de ombrear com os mais insignes prosadores da sua geração", segundo comentário de Haroldo Paranhos, na sua "História do Romantismo no Brasil". No mesmo livro, encontro arrolada a seguinte produção de Machado de Oliveira: "Notícia sobre a estrada de ferro que da província do Espírito Santo segue para a de Minas Gerais, através da Serra Geral, etc." — Vitória, 1841 — in 8° de 33 pgs." E a observação de que "foi tirada uma 2ª edição, no Rio, em 1851". Acontece, porém, que a primeira estrada de ferro espírito-santense só foi inaugurada em 1887. Sabe-se que, por ocasião da 2ª edição, mencionada, os engenheiros Argolo e Hermilo Cândido da Costa Alves foram incumbidos de explorar o melhor traçado de uma estrada de ferro de Vitória a Minas e não chegaram a nenhuma conclusão favorável às vantagens do dito traçado. Tratar-se-ia da velha Estrada do Rubim, abandonada pela falta de trânsito e de intercâmbio comercial entre as duas províncias. Com efeito, Machado de Oliveira transcreveu, no Vol. 19º da Revista Trimensal, algumas cópias de atas das sessões do Conselho Provincial, relativas a providências necessárias à reabertura de tal estrada.

No período administrativo que durou até 2 de abril de 1841, Machado de Oliveira mandou levantar seis cartas topográficas da província do Espírito Santo: duas da barra e da baía de Vitória; três do Rio Doce e uma da cidade de São Mateus. Ele divulgou, em 1845, no tomo 7ª da Revista Trimensal, estudos do Rio Doce, realizados pelo major engenheiro Luiz d'Alincourt. Prestou inestimável contribuição ao acervo da história capixaba. As "Notas, Apontamentos e Notícias para a História do Espírito Santo", que publicou, em 1856, na dita Revista, constituem manancial imprescindível aos que se ocupam do tema.

E aqui se deve assinalar outra notável coincidência na administração de Machado de Oliveira: a inauguração da navegação do Rio Doce, realizada por João Diogo Sturz. Sócio do engenheiro Monlevade, Sturz desceu o rio, no ano de 1824, até o mar, em viagem de exploração da rota, a fim de conduzir 475 arrobas de maquinismos importados da Europa, destinados ao princípio da Siderúrgica de São Miguel. Três anos após, ele conduzia, por águas do Rio Doce, os pesados maquinismos partidos do Rio de Janeiro numa sumaca comboiada por pequenas embarcações de guerra. Usou, no transporte, cinco canoas, num penoso trabalho que durou três meses e no qual muito ajudaram os índios botocudos, aldeados por Guido Marliére. Em 1836, Sturz formou uma companhia nacional e estrangeira para explorar a navegação do Rio Doce. Estabeleceu alguns colonos, montou serrarias e, em 1841, fez um pequeno vapor sulcar aquelas águas. Mas, em pouco, a empresa desorganizou-se e os destroços do vapor, até o ano de 1859, ainda jaziam encalhados nas areias daquela importante artéria fluvial.

A crônica não registra até que ponto Machado de Oliveira prestigiou a companhia de capitais mistos, mas a sua preocupação em mapear o rio foi prova de que ele se mostrava interessado no êxito de tal empreendimento.

Machado de Oliveira transcreveu, na Revista Trimensal, a Memória Estatística feita em 1817 por Francisco Alberto Rubim, ex-governador da província, não se limitando a uma transcrição integral, pois atualizou os números, a linguagem e a grafia de nomes próprios, fazendo pequenos acréscimos e enxertos seus. O historiador Afonso Cláudio chegou a levantar dúvida interrogativa: "Onde acabou o trabalho de Rubim e começou o de Machado de Oliveira?" Pelo menos, no que se refere a uma parte da Memória, é fácil o confronto de textos. As Publicações do Arquivo Nacional, de 1914, tomo 14ª, pgs. 95 a 110, reproduzem as Memórias Estatísticas de Rubim. O mesmo Arquivo guarda uma cópia do original manuscrito.

Tempo houve em que muito interessou aos advogados da Bahia e do Espírito Santo, nas discussões da questão dos limites interestaduais, tergiversar sobre esses documentos.

O historiador paulista, descendente pelo lado materno do economista francês João Batista Say, era filho do tenente-coronel Francisco João Machado de Oliveira. Faleceu, com honras de Brigadeiro, na sua cidade natal, aos 18 de agosto de 1867.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembto/2015

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