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Brincando com o perigo – Por Adam Emil Czartoryski

O Diário - Rua Sete, Vitória

Comecei a trabalhar na imprensa em 1952 e, depois de trabalhar no Rio de Janeiro (Última Hora) e em Brasília (DC Brasília), retomei a Vitória em 1968, sendo convidado por Edgard dos Anjos para ser o redator-chefe dO DIÁRIO.

Aceitei o convite de Edgard, mas me senti um pouco estranho no meio daqueles jovens cabeludos, barbados, desleixados e desbocados, pois era de uma geração mais velha do que eles.

Lá eu encontrei o falecido Paulo Torre, grande companheiro, grande jornalista, que mais tarde veio a ser diretor de redação nA Gazeta. Lá também estavam Tinoco dos Anjos e o irmão dele, Erildo, o Paulo Makoto e o Secreta, que eram fotógrafos, Maura Fraga, Milson Henriques, Carmélia Maria de Souza, Mariângela Pellerano, Amylton de Almeida. Depois se juntou à gente o Marílio Cabral, que também era da minha geração e que já trabalhara no jornal.

Era uma equipe de jovens idealistas, que queriam mudar a situação do Brasil, naquela ocasião sob a ditadura. Entrei naquele meio um pouco sem jeito e até comentei com Cacau Monjardim, Fernando Jakes e Edgard: "Meu Deus do céu, onde vocês me enfiaram? Esta é uma garotada muito rebelde...".

Realmente eles eram rebeldes, mas extremamente inteligentes, com muita disposição para o trabalho, muito amor ao que faziam. E extremamente politizados. Mas era uma garotada que resolvia os problemas do Brasil e do mundo nas mesas do Britz.

Na ocasião, a repressão era muito severa. No Governo Médici, tivemos um dos períodos de maior repressão nos meios de comunicação. Eu, como redator-chefe, posso dizer que um dia sim outro também comparecia à Polícia Federal, ao antigo 3º. Batalhão de Caçadores ou à Marinha.

Praticamente todos os dias me levavam lá para dar "novas instruções" em relação às matérias que deveriam ser publicadas. Depois colocaram dois oficiais na redação para ler e conferir todas as matérias que fazíamos. Os dois oficiais - Romão e Mazziero - acabaram se tomando nossos amigos, vendo que havia muito romantismo por trás daquilo e que o jornal era feito por jovens em busca de uma vida ideal.

Mas permanentemente tínhamos que mudar matérias por causa da repressão, a exemplo do que faziam os outros jornais. Colocávamos receitas de bolo, coisas que não tinham nada a ver com o jornal, uma fotografia qualquer, sem legenda, sem nada...

Mas tivemos problemas bem sérios. Por exemplo: em pleno período represssivo, havia um procurador da República cuja esposa foi matricular a filha no Colégio Sagrado Coração e parece que houve um aumento da mensalidade na hora da rematrícula.

Ela ligou para o marido dizendo que o dinheiro não havia dado para pagar. Horas depois, o procurador mandou a Polícia Federal prender as freiras. Recebemos a informação e partimos para o local. O Makoto fez uma foto muito feliz, pegou justamente duas irmãs de caridade sendo empurradas pelo policial para entrar no cofre do camburão.

Publicamos a foto em meia página do jornal. No dia seguinte, logo cedo, a Polícia Federal recolheu o José Carlos Monjardim Cavalcanti, o Edgard dos Anjos e eu. Passamos quase o dia inteiro (era sábado ou domingo) na polícia em razão dessa foto. Depois desse episódio do procurador, tivemos outro. O jornalista Djalma Magalhães, que era dono do jornal Debate, ofereceu uma recepção às autoridades da cidade na churrascaria que fica próxima à Prefeitura de Vitória. Lá estavam autoridades como o comandante da Marinha e o superintendente de Polícia Federal.

Fui com a minha mulher. Mal entrei no restaurante, um amigo meu, o falecido Marcelo Vivacqua, arquiteto, me chamou rapidamente para ir ao banheiro e perguntou o que O DIÁRIO estava publicando ou iria publicar, porque ele tinha ouvido que a polícia ia apreender toda a edição e prender todos nós.

Mal saí do banheiro, um outro amigo meu, o professor Quintino Barbosa, me levou de volta para o banheiro e confirmou a história. "Adam, tem alguma coisa nO DIÁRIO e eles vão apreender". Comecei a me preocupar, mas não lembrava de nada bombástico que seria divulgado no outro dia.

Passei perto de uns oficiais do Exército e os cumprimentei. Eles estavam todos sorridentes. Aí me preocupei ainda mais. Pensei: o negócio não deve estar nada bom...

Larguei minha mulher lá, peguei o carro e fui até o jornal ver o que estava acontecendo. Lá estava o Jadir Gobbi, que era o gerente comercial, e o jornal já estava rodando. Pedi para o Jadir parar a impressão. Examinamos o jornal e vi uma charge do Nilson Henriques (que havia entregado o desenho depois da minha saída). Foi quando Dom Hélder Câmara veio aqui, pouco depois da edição do AI-5, em dezembro de 68. A charge era uma caricatura dele com uma cruz na boca, como se estivesse sendo censurado. Vi que só poderia ser a charge.

Rapidamente recolhemos os jornais que já haviam sido rodados e coloquei no porta-malas do meu carro. No espaço da charge sobre D. Helder, colocamos uma que havia sido publicada anteriormente, e voltei para o churrasco.

Às 4 da madrugada resolvi voltar para O DIÁRIO, quando chegou um grupamento da Polícia Militar e do 3° Batalhão de Caçadores querendo ver os jornais. Eles se espantaram porque não encontraram nada. Aí foi a minha vez de rir para eles: "O que é que houve, o que estão procurando?"

Fatos como este eram comuns. Foi um período em que a censura atuou com muita violência sobre o noticiário de jornal.

O DIÁRIO foi um dos poucos jornais do País que publicou matéria com destaque sobre a cassação de Carlos Lacerda, que havia sido governador do Estado da Guanabara, hoje município do Rio de Janeiro. Como os dois oficiais que ficavam no jornal já tinham ido embora, telefonei para o comandante do 3° BC e perguntei se podíamos ou não publicar. Aí entrou a auto-censura, que é ainda pior que a censura.

Na verdade, a gente enrolava os censores, entregando para eles todas as "porcarias" que chegavam no jornal (tipo matérias de agência), aquilo que você raramente publica. Eles liam aquilo tudo e às vezes nem sobrava tempo para ler as matérias realmente importantes. Foi quando eles descobriram que nós estávamos fazendo-os de palhaços. Afinal, eles nunca viam as matérias que autorizavam serem publicadas.

Acabamos publicando a matéria do Carlos Lacerda e no dia seguinte de manhã estávamos todos novamente na presença das autoridades.

Também nos rendeu muita dor de cabeça uma foto que publicamos, tendo a Associação Médica chegado a publicar uma nota oficial contra nós por causa dela. Um político de Vila Velha bastante conhecido, Paulo Mares Guia, foi baleado e levado para a Santa Casa. A dupla encarregada de fazer a matéria era Rogério Medeiros e Paulo Makoto, chefe dos fotógrafos.

Como eles voltaram com uma fotografia de fachada da Santa Casa, coloquei o Makoto dentro do carro (do meu, naquele tempo a gente saía com carro próprio ou a pé) e fui com ele para tentarmos fazer outra foto. Falei com ele para bater foto de pessoas que estavam na sala de espera.

Num certo momento, vi que havia uma saleta em que a enfermeira abria uma janelinha para passar instrumentos para a sala de operação. Falei com Makoto: "Fica aqui perto, na hora que a enfermeira abrir a janelinha, você mete a máquina e faz uma foto... e vamos sair correndo". Não deu outra coisa. Foi uma balbúrdia total e tivemos que sair correndo escada a baixo. Acabamos publicando a foto.

Os outros jornais, não sei se porque eram menos agressivos, furavam menos o bloqueio de censura. Mas nO DIÁRIO, nossa rotina era procurar maneiras de burlar a vigilância e publicar notícias que não podiam sair. Por isso, foi um período gratificante. A imprensa deve muito aO DIÁRIO.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.

Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel

Autor: Adam Emil Czartoryski

Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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