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Britz

Ao falar de bares antigos em uma coletânea corro dois riscos: ou citar os mesmo lugares que todos, o que ficará repetitivo, ou falar de bares que ninguém conheceu, o que comprometerá minha fama de boêmio tão bem cultivada. De qualquer modo vamos ao agradável labor de rememorar os que eu freqüentava, lembrando que havia também as boates Buteko, Cave, Aux Chandelles, Porão 214, Anelise, Monalisa (as duas últimas freqüentadas por senhoras não muito de família), ma s aí já é outro assunto. Como tudo criado pelo homem, o bar sempre foi e será dividido em classes sociais distintas. Por exemplo, o Marrocos, na rua Duque de Caxias, atrás da Praça Oito, o primeiro que freqüentei assim que cheguei a Vitória, nos idos de 1964. Lá reunia-se a esquerda intelectual festiva ou não, uma verdadeira igrejinha fechadíssima, formada de jovens inteligentes, pretensiosos, que iriam mudar o mundo ( o tempo provou que o mundo mudou todos eles...). O prato famoso era o filé ao Marrocos. Garçom era o “Cariacica”. Ali madruguei porres homéricos, bebi uma lente de contato, chorei desamores...

Já o Dominó, no então aristocrático Parque Moscoso, era freqüentado por mocinhos (mocinhas não iam a bar) das famílias ricas. Sua decadência começou quando um garçom matou a tiros um dos rapazes freqüentadores, num tempo em que crimes ainda abalavam a população. Eu só o freqüentava pela madrugada para comer a última refeição do dia – ou a primeira? – um delicioso e pavoroso arroz com ovos e salsicha.

O Britz Bar (da cidade) começou a subir com a queda do Dominó, e ficou famoso por estar logicamente freqüentado pelos jornalistas que viam o sol nascer em suas cadeiras. A esquerda jovem liberal, os hippies, os porraloucas, a polícia federal disfarçada, as primeiras bichas liberadas, fizeram lá seu ninho para tomar cerveja quente, sentir o terrível odor do banheiro, os esporros do proprietário, a reclamação do prédio em frente... Sabem o mistério daquela pessoa feia, sem educação, vulgar, desbocada, sem graça, ma que você não consegue passar um dia sem ver? Assim era o Britz.

Bar Santos, Mar e Terra... Estes eram os meus bares. Esporadicamente batia ponto também no Miramar e Bar do Iate Clube, na Praia do Canto, Bar do Álvaro e Shakesbeer, respectivamente ao lado e atrás do Teatro Carlos Gomes, Bar do David (Jucutuquara0, Scandinave (no centro), Bar do Grego (na Duque de Caxias), Bar do Toninho (na longínqua Praia da Costa, onde dormi várias vezes esquecido pelos amigos que tinham carro), Bar dos Caranguejos (Paul) e muitos botecos anônimos, principalmente em Santo Antônio. Não esquecer o saudoso Terra Viva, em Santa Lúcia, berço de muitos cantores capixabas, onde dei adeus á vida noturna.

Mas foi o Bar do Ralph, em uma sobreloja em plena praça Costa Pereira, em frente ao Teatro Glória, que marcou a minha vida. Foi ali, numa tarde de chuva fina, que tomei uma grande decisão. Bebericava em silêncio junto com Zélia Stein, quando, olhando a praça, avistei os moços Elcio Álvares e Marien Calixte cruzarem por Boião, mendigo negro enorme que morreu de beber, logo após passarem pelos jovens Marcos de Alencar e Amylton de Almeida, e pararem para um papo com o quase garoto Antonio Carlos Neves e Arthur Carlos Gerhardt Santos. Em seguida adentrou no bar a figura de Mane Diabo seguida pelo locutor de rádio Gerson Camata. Todos já eram personagens da cidade, eu os conhecia e me conheciam. De uma forma ou de outra, faziam porte de minha história. Aí, veio a decisão: - Vou ficar para sempre em Vitória! Além domais, eu já estava embriagado de amor pela ilha.

Acho que é por isso que não freqüento mais bares. Não preciso. Meu porre – de amor – é permanente.

De: Milson Henriques.
Livro: Escritos de Vitória: Bares, botequins, etc.

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