Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Cana e cadeia – Por José Maria Batista

Milson Henriques nominou a tirinha de Britznicks

Um dia do ano de 1973, quando eu trabalhava com um amigo que estava montando uma serraria em Teixeira de Freitas, fui convocado para ser fiscal de rendas em Ipatinga, depois de ter passado num concurso.

A caminho de Ipatinga, passei por Vitória.

Eu não conhecia Vitória. Ao invés de ir direto para Ipatinga, fui a Nanuque. De Nanuque, vim para Vitória, tendo chegado à Rodoviária (que era no Parque Moscoso) num sábado de manhã. Quando eu estava virando a esquina do Parque Moscoso, dei de cara com um amigo meu, Hely Edson, com quem eu tinha trabalhado em Minas. Primeiro no jornal Vale do Aço e depois no Diário da Manhã, de Ipatinga.

Conversamos, fomos para a praia e ele me convidou para ficar aqui até a segunda-feira seguinte, quando ele me arrumaria dinheiro para eu viajar. Bebemos o dinheiro todo e, na segunda-feira, a gente não tinha dinheiro. Nem eu nem ele. A solução foi procurar emprego. Fui nA Gazeta, o pessoal não fez muita questão, da mesma forma que nA Tribuna.

Foi quando Hely Edson me falou que o Cláudio Bueno Rocha — na época diretor dO DIÁRIO — estava me esperando. Cheguei lá, peguei a pauta, fui para a rua, fiz a matéria e depois fui almoçar com Hely Edson, Paulo Maia, na época diretor de redação, e o CBR. Eles disseram que eu seria chefe de reportagem. Eu não entendia muito bem disso, mas aceitei.

No meu primeiro fim-de-semana capixaba, resolvi conhecer Guarapari. Cheguei lá, tomei todas e esqueci os documentos dentro do ônibus. Quando me lembrei, entrei na frente do ônibus fazendo sinal para o motorista parar. Ele jogou o ônibus em cima de mim, escrachei geral na Rodoviária e fui preso. Chegando na delegacia, pensei que o único jeito de sair era ficar sem comer. Fiquei preso o domingo de noite, a segunda, a terça e a quarta. Eu não comia, não bebia café nem nada. Os presos estavam espantados porque nunca tinham visto greve de fome e chamaram o pessoal da imprensa para ver o cara que era jornalista e não queria comer. Foi então que chegou o Hilmar de Jesus (que trabalhava nO DIÁRIO como repórter de Polícia). Depois disto houve um monte de pedido de desculpas e eu saí da prisão.

Naquela época eu tinha 26 anos.

A gente fazia um jornal vespertino tentando matar todos os assuntos dA Gazeta e dA Tribuna à tarde. Então, no outro dia de manhã cedo, eles teriam que dar matérias que já tinham saído nO DIÁRIO. O jornal virou vespertino exatamente com essa idéia de antecipar a notícia.

Havia muita censura. A Polícia Federal passou um bom período sentada na sala do Paulo Maia. Uma vez os censores deixaram passar uma notícia e, como não tinha jeito de mudar mais quando eles notaram, no lugar da notícia saiu uma tarja preta. Deu um reboliço danado na cidade e os federais voltaram lá querendo prender todo mundo. Mas não deu em nada, ficou por isso mesmo.

Quando eu entrei nO DIÁRIO também apareceu por lá o Luzimar Nogueira Dias, que era de esquerda, estudante de medicina e estava iniciando a carreira de repórter. Às vezes ele era obrigado a sumir por uns 15 dias porque os "homens" estavam doidos para pegá-lo.

Havia umas coisas interessantes como ter de trabalhar até meia-noite, uma hora, porque o jornal era vespertino. O pessoal da revisão, por exemplo, trabalhava até 2, 3, 4 horas da manhã. Eu chegava de manhã, às 9 horas, ficava até 4, 5 horas da tarde. Depois ia para o Jornal da Cidade e às 9 horas da noite, às vezes, voltava a0 DIÁRIO para ver como é que estava. Tinha também a ronda da madrugada feita pelo Hilmar de Jesus. Ele saía da redação por volta das 11 horas da noite e chegava de manhã.

Fiquei pouco mais de dois anos nO DIÁRIO. Depois fui editar o Jornal de Serviço. Em seguida, A Tribuna me chamou, e eu fiquei nA Tribuna e no Jornal de Serviço. Depois fui para o Rio e, quando voltei em 78, comecei a fazer a primeira página dO DIÁRIO. Mas aí o jornal já estava chegando ao  ocaso.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: José Maria Batista
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

Imprensa

Cascatopres – Renato Dias Ribeiro

Cascatopres – Renato Dias Ribeiro

O sábado determinava, pelos seus próprios ingredientes, algumas mudanças na rotina do velho jornal O Diário

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Um ateu no convento – Por Areovaldo Costa Oliveira

Fui encarregado de fazer a cobertura da Festa da Penha, mas não me informei a respeito do que escrever

Ver Artigo
Fé na gente, bairrismo neles – Por Marien Calixte

Uma sociedade sem hábitos culturais não tem como formar opinião. Uma sociedade sem opinião não está apta a formar sua própria cultura

Ver Artigo
Carlos Tourinho - Jornalismo Regional: Mudanças à vista, 1996

A vida do jornalista é cercada por “sirenes”. Em vários sentidos, em diferentes configurações

Ver Artigo
A guerra do sete dias – Por José Costa

Viajei num raio ao passado e desci no jornal 7 Dias, onde conheci o estoicismo, cada edição era uma história, um desafio, uma prova de obstáculos

Ver Artigo
Seis meses sem escrever – Por Milson Henriques

NO DIÁRIO eu fui desenhista, crítico de rádio e TV, e levei o Jornaleco pra lá

Ver Artigo