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Carta aberta Edgar Feitosa – Por Delano Câmara

Capa do Livro: Escritos de Vitória, Volume 15 Personalidades de Vitória

Meu caro Edgar,

Recebi um convite para escrever sobre uma personalidade qualquer de Vitória. Ligo para a Prefeitura, de onde me vem o pedido, e fico sabendo que o assunto deve se cingir a uma pessoa que, de uma forma ou de outra, tenha de algum modo me marcado e que tenha sido, ao mesmo tempo, alguém que Vitória amou e que por ela foi correspondido.

Há dias vinha fazendo um inútil esforço de memória e nada me ocorreu que pudesse justificar o tema. É claro que conheci e conheço muita gente interessante, pois, passados esses anos todos, medindo os meus passos pelas ruas desta cidade, da qual só me afastei — meu Deus, e como foi amarga a separação — por uma ou mais dessas razões que a gente não sabe ao certo explicar, fui catalogando, aqui e ali nos escaninhos da minha alma cigana, uma mulher assim, um sujeito assado, um outro que ficou famoso porque a mulher fugiu com um antigo namorado e até aqueles malucos que Vitória acolheu porque na loucura deles conseguiram fazer rir algumas pessoas. Mas nada que me retirasse da voluntária preguiça à qual tenho me entregue, não sei bem ao certo por quê, quando devo me sentar, ficar quieto, olhar para dentro de mim mesmo e depois escrever. Deve ser coisa da idade, por certo.

Hoje, sem querer, procurando um documento em meus guardados, encontro, entre curioso e aflito e por entre as páginas de um velho conto policial, o meu retrato estampado numa folha já rota e esquecida deste mesmo jornal, a mesma que trouxe uma de suas colunas que você intitulava "Hoje" e que escreveu sabe lá Deus há quantos anos. Devo confessar — e o faço sem pudor e vergonha — que estou confuso, e enternecido até, porque então eu era um moço ainda muito jovem, e a minha juventude era nostálgica e boa. Mas o tempo passou, passou você, passaram os homens e as coisas, e eis-me aqui, com uma pontinha de inveja a contemplar a minha mocidade e a engolir, letra a letra, tudo o que você escreveu sobre os meus vinte e poucos anos. Ah, Edgar, tudo então era muito doce e fugaz.

Talvez eu não devesse ter encontrado, em meio aos meus guardados, a velha folha amarela de jornal, a mesma que você escreveu. Porque, de repente, me veio entrando assim pela boca um gosto inoportuno de saudade, e é uma saudade tão grande e tão meiga, e é assim tão amiga, que sem saber mesmo como eu me encontro relendo velhas crônicas que escrevi, por incentivo seu e quando aqui comecei, crônicas que o fantasma do tempo poupou e guardou para mim numa velha pasta de capa azulada.

Ah, meu caro Feitosa, por esta imensa saudade o culpado de tudo fui eu. Porque eu não devia, à busca do personagem de você, revolver assim o meu passado e com essa amarga e agressiva lucidez. Devia, sim, temperá-lo antes com uns copos de cerveja e doses de conhaque bem forte — e dizem que essa mistura embriaga até o espírito — porque então, ébrio, eu talvez me risse de tudo e acordasse depois, medroso, como quem desperta de um longo pesadelo sem maiores conseqüências do que uma dor de cabeça mais ou menos grave. Mas sem lembranças, sem recordações, esse saldo horrível de quem se lança assim, sem mais nem menos, a tarefa tão perigosa e incerta.

Lembro-me bem — e você de tal também se recordaria, se vivo estivesse — de quando nos encontrávamos casualmente pelas ruas da cidade, nessas andanças de boêmios que talvez tenhamos sido naquele tempo. Você falava tanto, e gesticulava, e de tal forma me incentivava que hoje concluo que, no fundo, você foi para mim um flagelo, um carrasco até. Mas um carrasco assim que não podia faltar na minha vida de cronista que mal começava. Porque, enquanto você falava e me atirava, com o seu incentivo, às páginas do jornal, sabia que me arrancava também do meu sossego, onde as feridas de amor ainda não se tinham aberto e não doíam. Então, para fazer jus a todo o incentivo que você me dava, eu me punha à frente de um papel branco, abria as portas de toda a minha angústia e da minha inspiração, e desandava a escrever um artigo que você certamente iria guardar nos seus arquivos. Porque naquele tempo — talvez como você — eu amava um fantasma abstrato e impossível, e para escrever era preciso libertá-lo. E, solto, ele me torturava, e me doía, e me queimava assustadoramente por dentro. Mas, a despeito disso, era preciso gravar alguma coisa no papel branco: você queria, você gostava, você merecia. Direi mais: você era então o meu mais ferrenho e, paradoxalmente, o meu mais estimado algoz.

Hoje, já liberto de tudo — um pouco mais velho e cansado — eu encontro o pedaço de jornal e, com ele, o pedaço de mim mesmo que você e eu tínhamos perdido desde quando você morreu. E desde então, quando eu não mais o encontro pelas ruas, tenho passado quase incógnito pelas pessoas que me lêem, porque delas só me vem um lacônico "olá" ou um formalíssimo "bom dia". Vez ou outra repetem, e mecanicamente, que aquele artigo estava bom, que aquela croniqueta vadia deu para rir um pouco, mas nada parecido com o incentivo que você me dava. De qualquer forma, meu querido Edgar, não ando procurando maiores e melhores recompensas do que as que já tenho tido, mas sim, apenas pretendendo evitar, quando escrevo, que o tempo envelheça ainda mais o meu coração.

Não acho que deveria falar de outra pessoa que me lembre uma doce e feliz personagem de Vitória. Você me basta, mesmo escondido nos fundos daquela mesa escura que ocupava no velho prédio da Gazeta, da rua General Osório, e hoje só por feliz e saudosa lembrança. Por isso, meu caro Edgar, vou esconder novamente o pedaço de jornal no qual você falou sobre mim, esquecer que você morreu, que envelheci, e só lembrar que continuo o mesmo moço que de você recebeu o melhor incentivo e a melhor coragem para continuar escrevendo. Acho que assim o homenageio e o elejo aqui a minha personalidade muito viva desta cidade que você tanto amou. Espero, tão-somente e aflito, que onde quer que você esteja agora abra a mim, e a Vitória também, sempre e novamente a sua porta, e, sorrindo, também o seu enorme e inquieto coração.

 

Com o melhor abraço do

 

Delano Câmara

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Delano Câmara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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