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Cascatopres – Renato Dias Ribeiro

Primeira página da primeira edição dO DIÁIRIO, de caráter nitidamente pessedista em 7 de julho de 1955

O sábado determinava, pelos seus próprios ingredientes, algumas mudanças na rotina do velho jornal O Diário, instalado então em um malcuidado casarão no final da Rua Sete de Setembro.

Cláudio Bueno Rocha, o CBR, com toda a fleuma inerente aos intelectuais, esquecia um pouco de James Joyce. Bem próximo, Américo Rosa intensificava seus delírios e entoava desafinado "Os Peixinhos do Mar", sua marca registrada. Rogério Medeiros costumava deixar de lado a gravata, talvez pensando no futebol ao lado de Zé da Bola, e Amylton de Almeida aumentava suas rotações por minuto para falar de cinema e teatro. Pedro Maia já pensava no "bode" seguinte, discutindo com Barreto, e Paulo Makoto perdia um pouco do pragmatismo nipônico. Afinal, sábado é sábado. Sempre.

Dia de "fechamento" mais cedo para incursões que poderiam terminar no boteco do Luís, bem ali na esquina, ou garantir vaga no Britz e mesmo na boate do Ronaldo Nascimento, lá pela madrugada. Paulo Zimmer, "o papagaio", cuspia fogo e só não tirava a paciência de Vinicius Seixas, com certeza alma gêmea de Jó. Bonates aproveitava para falar de Freud com Dindinho, um "armário" de três metros, cujo mérito maior era conhecer todas as bandeiras do mundo, incluindo as de algumas republiquetas que nem constavam do mapa. Alemão não discutia com Bissinga no comando das duas linotipos, "Hilda" e "Gilda", preocupado que estava com a culinária do Dequinha, um crioulo espigado, digno representante da preguiça, mas esperto como gente e fiel como amigo.

Camélia gritava mais alto sua questão de ordem dando "vivas ao Simpósio", deixando Maura Fraga agitadíssima e Mariângela cada vez mais perplexa. Tinoco fazia vestibular para "socialista", simplesmente sendo contra tudo e todos, e Erildo queria se engordurar, independente do óleo. Porque sábado é sábado.

O patrão Edgard dos Anjos passava "de arranque" verificando o número de anúncios e Jadir Gobbi queria saber da tiragem e circulação, o ganha-pão comissionado. E tinha o "Astronauta", velho comandante de um fusca alaranjado, para o qual era difícil fazer o então chamado "seguro obrigatório", por razões óbvias.

E claro que minha rotina também mudava, torcendo para que os cartolas do nosso futebol não inventassem um jogo no sábado à noite. Era de doer. Inicialmente apenas com o Boca e depois com o Caser, tudo ficava esquematizado para encerramento ali pelas 13 horas. E descanso. Porque sábado é sábado.

Mas para desespero da requintada turma e especial-mente do querido Paulo Torre, o velho camburão preto da Polícia Federal não quebrava a rotina: estava presente no fechamento do jornal para conferir toda a edição. Mesmo que fosse sábado.

E, naquele sábado, ele chegou como de costume. Com muito barulho e muitas perguntas. Sem vacilar, foi direto ao assunto: Guerrilha do Araguaia. O resultado não poderia ser pior do que uma página inteira do Segundo Caderno totalmente censurada. Nem uma linha. Azar o meu... Sem opção, Paulo Torre me alcançou quase próximo à calçada e jogou devagar: "Por favor, duas laudas. Só duas laudas. A gente completa com fotos. Escreva qualquer coisa. Sei que hoje é sábado. Mas os homens não respeitam nada..."

Relutei. Meu dever estava cumprido. Tudo editado e programado. Não tinha nada com Araguaia. Mas com Paulo Torre, CBR e Vinicius, qualquer negativa era simplesmente impossível. Topei: "Duas laudas. Nada mais."

Tenho que recordar um velho hábito. Como era grande a desorganização em O Diário, costumava grudar as laudas uma a uma, de acordo com o programado para escrever, usando durex. Caso contrário, as laudas desapareceriam em tamanha balbúrdia. Preguei as duas laudas e comecei a disparar o que vinha à cabeça.

Em volta, todos ansiosos, aguardando o encerramento. E, de repente, o telefone me chama. Saio da mesa e atendo. Do outro lado da linha, o sinal de desarme. Volto à máquina e continuo em busca do fechamento das duas laudas. Perco a noção das batidas e vou em frente. Novamente o telefone me chama. Corro até o mesmo e a dose se repete: caiu a ligação. Retornando à máquina, detono a escrever ainda sob olhares ansiosos dos que aguardavam o final. Vou em frente. São apenas duas laudas. Encerro o assunto e recebo uma salva de palmas. Havia fechado a página censurada com um assunto corriqueiro ligado ao esporte.

Só então percebi que havia caído no "conto da lauda". Enquanto atendia aos supostos telefonemas a mim endereçados, meus amigos adicionaram nada menos do que seis laudas ao programado. Ou seja, escrevi oito laudas, realmente necessárias para o fechamento da página. Sem perceber, pestanejar ou reclamar Afinal eram "duas laudas".

Diz o folclore que na realidade escrevi doze laudas. E que este fato já foi tema em congresso de jornalismo. Desconheço. Mas sou obrigado a reconhecer que, naquele maldito (ou bendito?) sábado, foi inaugurada a "Cascatopress"...

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla   
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Renato Dias Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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