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Cheira a espírito juvenil

Capa do Livro: Vitória de Todos os Ritmos, coleção Escritos de Vitória - ano 2000

O primeiro show a gente nunca esquece. Com 17 anos, tremendo de medo, subi ao palco de madeira do Colégio Nacional para tocar em público pela primeira vez. A banda chamava-se Hell, nome que veio a substituir o antigo Túmulo 7 (deu para sentir que a turma era meio obcecada pelo Coisa Ruim).

No meio de uma música do Black Sabbath, eis que os fãs me aparecem com uma cruz (de verdade!!!), que havia sido sequestrada do Cemitério de Vila Velha especialmente para a ocasião. A banda é claro, fez jus ao rótulo de metaleira e tocou com mais garra ainda. Só no dia seguinte que bateu a consciência pesada: Deus, de quem seria aquela cruz? Mistério...

Depois da Hell, fui tocar bateria na banda Seven e desembarquei na Skelter. banda em cujos shows invariavelmente rolavam as mais toscas confusões. A origem delas é a mesma de hoje: os fãs não conseguem segurar as pontas e liberam a adrenalina através de stage dives (mergulho do palco) durante o show — algo que não entra na cabeça dos seguranças. Entre um e outro voador, a temperatura aumenta e... pronto! Está armado o circo.

Situações como essa aconteceram na boate Krypton, no Serra Bela Clube, em São Diogo... O Skelter era tão engraçado que uma vez, na Prainha de Vila Velha (naquela praça que hoje está abandonada), nosso guitarrista, Klaus, fez a maior parte do show com a caixa desligada! Ciente de que estava abafando, Klaus agitava os cabelos e só veio a se dar conta de que seu instrumento não emitia som algum depois que um roadie o avisou do mico.

Após o Skelter, fui parar na The Rain, com a qual também passei por algumas roubadas. A pior delas foi ter viajado de carro para Viçosa pela Rodovia do Sol (antes que riam da minha cara, não era eu que estava no volante) para fazer um show na universidade local. A banda só foi notar a gafe na fronteira com o Rio. Resultado: o jeito foi subir a serra de Manhumirim para, enfim, descer na BR 262. Para piorar a situação, em Manhuaçu, o cano de descarga quebrou. E a banda, que saíra de Vitória às 17h, só chegou a Viçosa às 6 da manhã do dia seguinte.

Álcool e rock também são coisas que, definitivamente, andam junta. O The Rain tinha até uma música chamada Bom to be Drunk ("Nasci para ser bêbado"). Fabinho Lyrio, da Skelter, apostava suas fichas numa canção chamada More Alcohol, jamais concluída porque ele devia estar mais pra lá do que pra cá quando a tocava. Pois graças ao exagero etílico, em Cachoeiro de Itapemirim, o The Rain fez o pior show de sua história.

Tudo deu errado naquela viagem. Para começar, a banda esqueceu os documentos do carro, um Passat envenenado, e foi parada pela Polícia Federal:

— Até que se prove o contrário, vocês são suspeitos de terem roubado o veículo e os equipamentos — disse o guarda.

Uma vez liberada da "dura", a banda seguiu para o local do show -  um bar chamado Yole. E eis que a Polícia aparece novamente, desta vez para retirar os menores de idade presentes no local. O clima fica tenso e a banda, cada vez mais bêbada. Na hora do set, o guitarrista Alex Cepile perde o equilíbrio e cai por cima da bateria. Os instrumentos estão desafinados, as músicas todas erradas. E ainda teve um infeliz que gravou aquele lixo e nos mostrou o cassete no dia seguinte.

— Paciência. Até que o show não foi tão ruim assim — disse o cara.

O guitarrista Serjão, que estrategicamente faltara àquele evento, preferia driblar estas adversidades com uma sabedoria digna de The Comittments:

— Dagô (esse era meu apelido), cheguei à conclusão que, nessa banda, ninguém toca mal. Quem quiser que mude a música na hora do show e o resto que vá atrás.

O "resto" obedecia.

É essa magia que leva uma banda a receber, com as guitarras abertas, o reforço de sujeitos os quais nunca viu mais gordo, durante a execução de Satisfaction. Porque o verdadeiro rock — Mick Jagger bem o sabe — significa transgressão. Sei que o pessoal do Pé do Lixo, Lordose Pra Leão (o Adolfo deve estar falando de mim na crônica dele), Java Roots, Manimal, Salvação, Urublues, Dead Fish, Undertow, Crivo, Big Bat Blues Band e mais um punhado de bandas legais já deve ter passado por situações semelhantes como estas que descrevi. Tomara que eles também resolvam colocá-las no papel. Serei o primeiro a ler e ouvir.

 

Fonte: Vitória de Todos os Ritmos, coleção Escritos de Vitória, Nº 19, ano 2000
Autor: José Roberto Santos Neves

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