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Chico DAnta, o Violeiro Escravo de São Benedito

Conceição da Barra, ES

Hermógenes não só pesquisou e anotou muita coisa sobre a cultura tradicional capixaba, mas conviveu com os grupos folclóricos, conheceu e era conhecido por todos os mestres das diversas manifestações populares, a exemplo do violeiro do ticumbi Chico Danta, a quem dedicou uma crônica que foi publicada na revista Folclore em dezembro de 1980. Observa-se nesse texto, além da fluidez da narrativa jornalística de Hermógenes, sua reverência ante a autoridade dessa impressionante personagem da cultura negra, com um destaque à fidelidade ao seu linguajar. Chico D’Anta, o violeiro escravo de São Benedito: 

“— A bença, seu Chico.

— Deus te abençoe, patrãozinho.

— Seu Chico, como está?

— Como Deus é servido, e São Binidito tombém.

74 ou 76 anos, que o preto não teve registro. Foi arranjado um para os documentos, no fim da vida, quando exigiram, que nunca antes ele precisou.

Chico morador do Morro da Anta. Acabou só Chico D'Anta. Chico era negro de sangue na guelra, gostava de batuque e de mulheres, mas gostava também de trabalhar, aqui e ali enfrentando o eito. Chico escolheu um pedaço de terra e botou roça de mandioca, fez pasto e criou gado. Era tudo mata virgem. Chico caborocou, fez derrubada para plantar e um dia espetou um estrepe no pé que quase varou de um lado a outro. Criou postema e arruinou. Não havia emplastro que desse jeito de sarar. Aí Chico D'Anta fez promessa para o glorioso São Benedito. Se ele sarasse tocaria sua viola por toda a vida no Baile de Congo de São Benedito, até não poder mais e São Benedito o chamasse para tocar para ele.

A promessa foi cumprida. Para os ensaios, mesmo distantes, lá ia ele com a viola no saco e ponteava a noite toda com o cigarro no queixo, largando cinza na roupa e na viola. Foi assim mais de cinqüenta anos. Todos os anos começavam em setembro os ensaios. Todos os sábados a noite toda, até o dia da festa, descendo o rio de manhãzinha após o ensaio geral, com o foguetório e aquele povão devoto indo buscar São Benedito das Piabas, morador do Corgo Fundo. O ano novo rompia com o ronco dos morteiros e o pipocar dos foguetes. Três dias de festas, canta aqui e canta ali na casa dos conhecidos, dos devotos do São Bino, o milagroso.

Chico D'Anta viajou para São Paulo, que mestre Guilherme levou o Baile de Congo para os festejos do IV Centenário de São Paulo. Foram de caminhão comendo poeira pelas estradas de chão, que não tinham asfalto nem o conforto dos ônibus. Lá foi novidade e fizeram sucesso no Ibirapuera, com distribuição de folhetos em cinco línguas. Isso foi em 1954, quando começou a fama do Ticumbí.Chico D'Anta foi a Brasília e tocou no hasteamento da Bandeira Nacional.

Chico D'Anta foi ao Rio, no Congresso da ASTA que deixou a gringada toda admirada e batendo muitas fotos. Chico D'Anta foi a Maceió na Festa Nacional do Folclore Brasileiro. Aí que Chico D'Anta se lembrou que havia nascido em Alagoas, em Quebrângulo, terra de Graciliano Ramos.

O Trapichão tinha povo que não cabia mais e tinha gente de todo canto para desfilar na festa grandiosa. Eram as brincadeiras do povo de todo jeito. Das cheganças, do Bumba-meu-Boi, de Pastoris, Bacamarteiros, eram 800 brincantes de tudo que tem por aí, por esse Brasil todo.

O Ticumbi encabeçava o desfile, abrindo a festa e foi anunciado: Conceição da Barra do Espírito Santo apresenta a mais antiga e tradicional festa de São Benedito, o que sobrou do Cacumbi, Quicumbi e Cucumbi. Aí nós explicamos o que era e como era o auto e rematamos: Povo das Alagoas! Sabe de onde é esse violeiro que cinqüenta anos toca nesse grupo? Ele é de Quebrângulo, minha gente! Foi aquele palmatório danado e Chico D'Anta suspendeu os braços com a viola nas mãos, cumprimentando o seu povo. Dissemos mais: Senhor Governador de Alagoas e Senhor Prefeito de Quebrângulo, Conceição da Barra tem uma reivindicação a fazer a vossas excelências. É trocar este crioulo velho por quatro crioulinhos novos. Chico D'Anta ponteou a viola e Terto e Julinho mais o resto riscaram os pandeiros em marcha de saída. Ninguém, porém, ouvia nada. Era só palmas e vivas do povo.

No dia seguinte, o reitor da Universidade Federal de Alagoas, Dr. Manuel Ramalho, mandou um carro buscar Chico D'Anta para ser recebido pela Congregação da UFAL. Lá estava a viúva de Graciliano Ramos. Lá estava o prefeito de Quebrângulo. Lá estava o professor Elias, Théo Brandão e mais uma porção de sumidades alagoanas.
O professor Elias perguntou de que família era ele. Chico respondeu: A prugunta num tá certa não. Voscimicê quer sabe de que família nóis era escravo, né?

Com esta resposta, este negro é de lá mesmo, aduziu o professor Elias com a risada de todos.

O prefeito de Quebrângulo telefonou para a prefeitura mandando preparar um banquete para receber o filho nobre e famoso violeiro de São Benedito, de quem ele dizia ser escravo. Esperaram. Esperaram com foguetes e outras coisas. Mas o motorista do ônibus não quis ir.

Da Reitoria, com a honraria prestada pela mais alta expressão cultural de seus conterrâneos, que Chico D'Anta a tudo viu e tudo assistiu com a maior simplicidade e humor, a todos encantando, juntou-se ao grupo para a gravação, no Hotel Luxor, do disco que mestre Bráulio Nascimento lançou este ano (1980) no Dia Nacional do Folclore, em cuja capa lá está o nosso Chico D'Anta imortalizado.
Chico D'Anta está no filme "O Canto para a Liberdade", percorrendo todo o Brasil como o mais autêntico documentário, feito por Orlando Bonfim.
Chico D'Anta era a honradez, a dignidade, a personalidade, que todos os seus companheiros respeitavam, que toda Conceição da Barra estimava.

Por tudo isso, Humberto Serra sentiu um nó na garganta quando soube de sua morte e, como prefeito, decretou três dias de luto e a bandeira do município subiu a meio-pau, numa reverência e respeito àquela figura que tão bem soube dignificar e levar por todos os cantos o nome de Conceição da Barra.

Gesto de grande nobreza, o de Humberto Serra, porque é um homem integrado às coisas de seu povo. Sente a grandeza e a riqueza das tradições que esse mesmo povo mantém. Talvez em canto algum tenha tido um prefeito praticado tal ato, prestando grande honra a um homem simples, preto velho, que era estima de Humberto, que não teve dúvidas de usar de suas atribuições, acima de qualquer preconceito, para expressar os seus sentimentos, os sentimentos do povo barrense.

Parece que estou vendo a cena. Chico D'Anta batendo na porta do céu e São Pedro veio atender:

— Quem é você, meu filho, o que deseja?

— Sou Chico D'Anta, de Conceição da Barra. Quero falar com São Binidito. Sou o violeiro e escravo dele.

São Benedito veio depressa.

- Chico!

— A bença, meu glorioso São Binidito.

— Deus te abençoe, Chico. Trouxeste a viola?

— Num pudia deixá. Foi Dr. Guilherme que me deu, faz munto tempo.
— Como está a turma lá na terra?

— Ah, meu São Binidito! A coisa num ta boa não. Acabaram cum as terra da gente, plantarum acalipe e acabou cum tudo. Uns forum simbora, outros vive na cidade cumendo "mivale" cum um punhado de farinha, apanhando esses peixinho na Friespe e na Barrapesca, que de pindaíba cum minhoca demora munto. A minha preta ficou lá. Num sei o que será dela. Julinho, Couxi, Binoti e os outro tão bom. Cadê o pessoár que veio primêro: Olaro, Teorfo e mais os antigo? Se tão aqui cum voscimicê, chama eles que a gente faz uma samba agorinha mesmo.

E São Benedito, sorrindo, com seu sorriso de santo bom dos pretos, passa a mão na carapinha do preto Chico D'Anta, que foi seu escravo violeiro na terra, em Conceição da Barra, tocando para ele nas suas devoções, nas suas crenças, no seu respeito, nas suas esperanças que os aliviavam das fadigas, dos sofrimentos, das injustiças e confiantes. Confiantes no seu santo preto, invocado a cada instante e louvado com toda pompa de suas festas. São Benedito sorri. Sorri da candura do seu violeiro escravo na terra de Conceição da Barra.

Aí chegou o povo devoto. Chico D'Anta pinicou a viola e cantaram o Ticumbi, ali, na presença de São Benedito, o padroeiro, o protetor", registrou o folclorista e professor Hermógenes Lima Fonseca.
Não poderíamos, também nós, deixar de manifestar nossa gratidão e nosso reconhecimento à extraordinária figura humana que foi Chico D'Anta, o "violeiro cativo de São Benedito".

No artigo Ticumbi e Cucumbis publicado na Revista Folclore a 17 de agosto de 1979, Hermógenes relata como testemunha ocular o percurso dos devotos de São Benedito, até a dramatização do ticumbi – baile de congo de São Benedito em frente à Igreja. Observa-se nesse texto ainda o seguinte comentário, revelando um pouco do Hermógenes brincalhão: "O Ticumbi apresentou-se em São Paulo, em Brasília e no Congresso Internacional da Asta, no Rio de Janeiro, e tanto interesse despertou ao ponto de um americano aparecer lá no Povoado de Santana e de indagação, em indagação, levaram-no para falar comigo e me perguntou: Can I see the Taicumbi today? No, darling, respondi. É diferente das Mulatas Sargenteli, que tem todo dia. Aqui, velho, só de ano em ano”.

 

Fonte: Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo - Hermógenes Lima Fonseca, 2014
Texto: Bartolomeu Boeno de Freitas
Coordenação: Antônio de Pádua Gurgel/ 27-9864-3566 

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