Clementino De Barcellos

Editor: Morro do Moreno - publicada: 19/04/2012

Clementino De Barcellos

Na última década do século XIX surgiam em Vila Velha as primeiras ruas em substituição aos caminhos então existentes. Viam-se, ainda, árvores centenárias cujas ramagens eram açoitadas pela inclemência do vento sul. Vila Velha era um verdadeiro poema composto pelas lindas manhãs ensolaradas, pelo contínuo murmúrio do mar espreguiçando suas ondas nas areias da desaparecida “Prainha”, ou pelos matizes cambiantes das tardes arrebol.

Nesse cenário bucólico veio à luz Clementino de Barcellos, a 4 de maio de 1891. Nascia aquele que seria um dos maiores apaixonados pela gleba vila-velhanse e o grande incentivador das coisas alegres que foram feitas em Vila Velha.

Nascido no seio de tradicional família, logo cedo o menino Clementino aprendeu a amar o torrão natal e a respeitar suas mais nobres tradições. Por isso, ninguém melhor que ele conheceu as lendas de sua terra e o folclore que, hoje, lamentavelmente, vive sepultado na noite do esquecimento.

Filho de Jerônimo Pereira de Barcellos e Ana Penha Leão de Barcellos, Clementino constituiu família casando-se, em 1917, com Maria Emelina Mascarenhas (D. Nenê). Do matrimônio nasceram três filhos: João e Marina (falecidos) e Francisco. O primeiro era funcionário aposentado da Companhia Vale do Rio Doce, ela, Marina, casada com Américo Bernardes da Silveira, ex-deputado e ex-prefeito desta cidade, e Francisco atua como cirurgião-dentista. Todos radicados em Vila Velha.

A partir do primeiro decênio do século XX, Clementino de Barcellos passou a fazer parte da história de Vila Velha. Em se tratando de comemorações cívicas ou de entretenimentos populares, nada aqui se fazia sem a sua ativa participação.

O desembargador Antônio Ferreira Coelho, pernambucano de nascimento, trouxe para o Espírito Santo o folclore nordestino. Um auto de Natal apaixonava as duas facções (o cordão azul e o cordão encarnado) nas apresentações feitas sempre no mês de dezembro e, encontrou, em Clementino de Barcellos, o mais vivo entusiasta para dar prosseguimento, durante muitos anos, na terra canela-verde, às festas que arrancavam do povo os maiores aplausos. A Lapinha e o Reisado, originários do Nordeste brasileiro e aqui representados sob o comando de Clementino, enfeitavam as noites vazias e mal iluminadas de Vila Velha.

Clementino realmente gostava de viver alegremente a vida. Assim gostava muito também de cantar. Eram de seu repertório “O sole mio”, “Oh! que mar tão lindo” e “O assobio”. Esta última, uma canção de letra muito jocosa, tendo o estribilho assobiado, era sucesso certo onde a cantasse. Gostava de organizar seus teatrinhos, onde podia ser ou produtor, diretor, autor e ator, como também iluminador, coreógrafo, sonoplasta, cenógrafo, etc.

Enfim, qualquer atividade ligada ao teatro ele a exercia com competência. Tinha também muita habilidade para trabalhos manuais, o que lhe permitia cuidar do guarda-roupa do teatro, dos adereços, etc...

“Há dias no ano em que o povo precisa fazer-se criança. Contrariar esta lei, é torná-lo triste, desgraçado”, escreveu Melo Moreia Filho.

Na verdade, o nosso inesquecível Clê (como era chamado pelos parentes e amigos) tinha o maravilhoso dom de fabricar alegria. Sabia, como ninguém, transportar as pessoas para a fase mais feliz da vida: a infância. Diante das festas por ele organizadas, fossem os “Banhos de Mar à Fantasia” ou as “Batalhas de Confete”, fossem os folguedos juninos, sempre acompanhados das tradicionais “quadrilhas”, ou a encenação folclórica da “Maruja”, todos se sentiam crianças, dominados pela mais contagiante alegria.

Os antigos bailes da União das Flores, Fenianos, Democratas ou Celestial, clubes que disputavam a hegemonia do carnaval vila-velhense nas décadas de 20 e 30, não podiam ser animados sem a presença marcante de Clementino de Barcellos. Era um homem que inspirava confiança e quando assumia a direção de qualquer empreendimento popular, o sucesso vinha na certa. Por isso, desde os carros alegóricos dos movimentados e românticos carnavais de Vila Velha até a representação de peças teatrais, era imprescindível a orientação genial daquele homem inteligente e alegre, a irradiar simpatia por onde passava.

Numa época em que o silêncio das noites era quebrado, não raro, pela melodia acariciante de uma serenata, quase sempre acompanhada de um violão boêmio, que, docemente, despertava as pessoas, nascia em Vila Velha o teatro amador. Aliás, em meados do século XVI, nos primórdios da Colonização do Espírito Santo, a área em frente à Igreja do Rosário tinha sido palco para a encenação de pelo menos uma peça do Padre José de Anchieta, o “Auto de Santa Isabel”. Portanto, a representação teatral, no Brasil, se não nasceu em Vila Velha, aqui, certamente, ensaiou seus primeiros passos.

Clementino de Barcellos e amigos, também admiradores da arte cênica, dentre eles Diociécio Gonçalves Lima, Lúcio Bacelar, Miguel Aguiar e outros, ensaiaram e representaram dramas oriundos do teatro português, tão em voga na época. Foi uma fase importante na vida da cidade, que passou a ser bafejada com ensinamentos culturais ditados pelo teatro.

Em 14 de novembro de 1914 – aos 23 anos de idade - assumiu por nomeação do Governo Federal o cargo de sinalizador do posto semafórico localizado no Morro do Moreno, à entrada da Baía de Vitória, em substituição ao seu falecido pai, que naquela época exercia a mesma função.

Esse posto tinha por finalidade identificar, por meio de uma luneta de longo alcance, os navios ainda em alto-mar e verificar, com antecedência de várias horas, se os mesmos demandavam ao Porto de Vitória, se vinham do sul ou do norte, fornecendo detalhes, como o nome do navio, da companhia a que pertencia, etc. Foi nessa atividade que, em 1914, Clementino teve oportunidade de avisar a aproximação do primeiro avião que desceu em Vitória. Eram os almirantes portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral realizando a primeira travessia aérea do Atlântico.

Em 1937, com a extinção do posto do Moreno, passou a exercer a chefia de linhas dos Correios e Telégrafos. Em 6 de março de 1939, foi designado para a função de guarda fios.

Em 10 de dezembro de 1940, passou ao cargo de auxiliar do depósito, sendo elevado à chefia da unidade em 4 de fevereiro de 1941. Em 1947, foi nomeado inspetor de linha, tendo em várias ocasiões, exercido, em substituição, o cargo de chefe de linhas. Nesta função aposentou-se em 1951, ocasião em que recebeu justa homenagem do diretor geral dos Correios e de seus colegas de serviço.

Por tudo que realizou, levando ao povo entretenimento, alegria e cultura, Vila Velha estava devendo a Clementino uma homenagem que tornasse o seu nome conhecido pela atual geração e sempre lembrado por todos que, no passado, conheceram ou conviveram com aquela maravilhosa figura que soube marcar uma época, destacando-se pela dedicação e amor sempre voltados para a terra que lhe serviu de berço e sepultura. Faleceu a 7 de junho de 1983.

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Clementino é tema do livro infanto-juvenil "Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno", devido ao seu trabalho como observador do Posto Semafórico do Morro do Moreno. 

Uma curiosidade que grande parte da população canela-verde desconhece é que o nome do Terminal de Vila Velha é oficialmente Clementino de Barcellos, em homenagem ao grande Mestre Clê.

 

Texto: Djairo Gonçalves Lima (Academia de Letras Humberto Campos)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2012

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