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Colégio Maria Ortiz

Colégio Maria Ortiz

No Maria Horta,

Gaspar foi rei.

No Maria Ortiz

é que foi feliz.

Ali do lado do Palácio Anchieta. De forma que um governador pode, da janela, observar as meninas em recreio. Dizem até que um fazia isso com certa freqüência. O Colégio Maria Ortiz é a parte feminina do Palácio.

Ali do lado. De forma que o governador Chiquinho assim se refere, quando lhe indagam ao telefone de que lado estava, no pipocar da Revolução de 1964. É parte do anedotário político.

O certo é que certa magnificência do centro do poder, já pelo peso maior da arquitetura eclética, já como referência sempre constante na imprensa, tolda por demais o brilho por si tênue do Maria Ortiz.

Há pouca bulha em torno desta escola. Salvo o dia em que o jornalista Oswaldo Oleari trepou na vetusta castanheira plantada ali no pátio e bradou: "Daqui ninguém me tira". Meados dos anos 70.

O gesto de Oleari foi o primeiro grito ecológico dado no habitat ideal. De cima do galho. Nem me lembro se as árvores foram salvas. Dia desses passo lá para ver. O gesto de Oleari merece selo comemorativo.

Mereceria mais caso o Maria Ortiz. Gosto de sua suave e mais harmônica arquitetura, se a comparo com a da vizinha casa do poder.

Fico pensando que, na verdade, o Maria Ortiz gostaria de ter ao lado o colégio e a igreja de São Tiago, intacta.

Conheço bem os meandros de ambas as casas.

No Maria Ortiz fui feliz como professor.

No Palácio, como assessor.

Ainda, olhando de longe, não sei como conseguia sair do campus de Goiabeiras e dar aulas de manhã. Mas era bem no final, e uma aula só, por dia. Acho que era assim.

E depois ia ladeira abaixo, no meio de um bando de jeunes filles en fleur. Éramos todos felizes e onipotentes e no Helal Magazin sempre o Golias estava tocando o sucesso do momento. O Carlos Chenier era comum estar por aí tomando cafezinho. Em 1970.

Tinha uma contrapartida mais pesada à noite. Para pegar as aulas do Maria Ortiz, era mister arcar com as do Colégio Gomes Cardim. Lá só havia homens. Rapazes e homens. Todos trabalhadores que estavam sempre muito cansados. Como ensinar inglês para eles?

Havia as letras de música. Aí eles gostavam.

As meninas do Maria Ortiz também gostavam das letras de música.

Mas, como dizia, o Colégio Maria Ortiz é o lado feminino do Palácio. Numa convivência harmoniosa, dos dois heróicos personagens da história capixaba, com análogos instrumentos de catequese.

Um aspergia água benta.

Outro, todo mundo sabe o líquido que usou para sapecar a cabeça dos holandeses intrusos.

Não acho que o melhor destino da antiga igreja dos jesuítas seja de ser palácio de governo. O que equivale, às vezes, a funcionar como sucursal do diabo.

E quando esse dia chegar, os dois edifícios formarão um complexo só. Ambos servindo à cultura, como museus e escolas de arte.

Penso cá comigo que Maria Ortiz aguarda esse tempo. Como mulher paciente, tenaz na sua persistência. Talvez por isso me encante mais o Maria Ortiz que o outro edifício, porto transitório do poder fugaz.

Sem salões nobres, sem ambientes luxuosos. Irmã pobre do poder. Ali tão perto, símbolo perene da educação mal servida, mal amada, mal nutrida.

Seria bom que os governadores bandeassem um pouco mais para o lado do Colégio. Não para ver as colegiais ou desconversar sobre posições a tomar, telefone em punho.

Há uma mulher ali do lado, seu doutor. É preciso abordá-la. Com muita educação.

E paciência tem limite. É sempre bom lembrar que as mulheres têm reservas de orgulho a preservar. Como fadas ou bruxas, também manejam bem poções de líquidos.

E costumam ter boa pontaria.

 

Fonte: Coleção Escritos de Vitória, nº 10 Escolas - ano 1995
Autora: José Irmo Gonring
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2015

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