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Comunidade de Araçatiba

Igreja Nossa Senhora da Ajuda é a padroeira da comunidade - Foto: Revista Zênite, Edição 24

A atmosfera pacata da pequena Araçatiba repousa, na verdade, sobre um turbilhão de história. História de um povo que vive ali no sentido mais literal da palavra comunidade, se me permitem um ‘desmembramento’ um tanto simplório, em comum unidade. Não há como ter outra sensação que não esta quando se ouvem histórias contadas por quem mora no lugar, como Janne Coutinho. Ela tem tudo na ponta da língua, mas, com as devidas desculpas, aqui ela é coadjuvante, pois a personagem principal da matéria é Araçatiba.

Localizada na zona rural do Município de Viana, seis quilômetros adentro da BR 101, Araçatiba é um lugar simples, compartilhado por seus moradores, que de alguma forma possuem um laço de parentesco. É um povo miscigenado, com descendência indígena, portuguesa, mas principalmente negra. Atualmente vivem no local cerca de 200 famílias, que somam aproximadamente 800 pessoas.

As boas vindas no portal de entrada são bastante convidativas e pedem uma parada para a primeira foto. O que se vê não é bem o que se chamaria de uma comunidade rural, mas uma pequena vila. A princípio, o que parece estar fadado ao marasmo e ao esquecimento torna-se um lugar repleto de contos e narrativas encantadoras, que remetem à própria história da construção do nosso país.

 

História

 

Conta-se que os índios tupiniquins, que habitavam a região, foram os responsáveis por batizar o local. Segundo a narrativa oral, ou seja, aquela contada de geração a geração, na região era abundante uma espécie de goiaba nativa chamada araçá, um frutinho pequeno, que dá em arbustos encontrados em todo o Brasil, também conhecido como goiabinha. Já o “Tiba” seria uma homenagem à filha de um cacique respeitado da tribo, que tinha esse nome e faleceu ainda menina.

Foi no ano de 1665 que novos moradores apareceram, dando origem, então, à comunidade de Araçatiba. Eram jesuítas espanhóis, que tinham como objetivo catequizar os indígenas, como é de praxe na história do Brasil. Com o trabalho dos índios, uma das primeiras ações da missão jesuítica foi construir a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, padroeira da comunidade.

O monumento-símbolo de Araçatiba era bem simples no início, diferente da arquitetura que existe hoje. Ao seu lado estão as ruínas de um antigo casarão, onde viviam os padres. De acordo com os mais antigos, na parte de baixo do casarão havia um tear, onde os escravos, que chegaram séculos mais tarde, fabricavam tecidos.

Em 1760, os jesuítas foram expulsos e “Araçatiba foi a leilão e as terras foram vendidas a preço de banana”, conta Janne. O comprador foi o coronel português Ordenança Bernardino Falcão de Gouveia Vieira Machado, que transformou a antiga missão jesuítica na maior fazenda agrícola da região.

 

Quilombos

 

A vinda dos negros se deu a partir de 1849, quando o filho do coronel Ordenança Bernardino, coronel Sebastião Vieira Machado, assumiu as terras. Ele levou 800 escravos negros para trabalharem no cultivo da cana-de-açúcar, além de cereais como o milho, o arroz e a mandioca. Os produtos eram escoados por meio de canoas pelos Rios Jacarandá, Jucu e Marinho, para abastecimento de Vitória e seu entorno.

No ano em que passou a tomar conta das terras, o Coronel Sebastião ordenou a reforma da igreja, desta vez com traços da arquitetura portuguesa. Foi então que Araçatiba foi presenteada por Portugal com a imagem de Nossa Senhora da Ajuda, tornando-se a padroeira do local. “Naquela época, os negros tinham acesso à igreja e eram até batizados lá”, conta Janne, mostrando o livro original de registro dos negros, que data de 1859 a 1870. Todos só com o primeiro nome, “porque escravo não tinha sobrenome, né!”, lembra Janne.

Segundo os relatos dos mais antigos, o tratamento com os negros era a grande diferença entre Araçatiba e as demais fazendas que utilizavam a mão-de-obra escrava. Ali não havia tronco e quando não encontravam senhorio bom, os escravos conseguiam liberdade e viviam em quilombos ou morros. Por esta razão, o local se tornou refúgio de muitos negros de regiões vizinhas, como as que pertencem hoje aos município de Cachoeiro de Itapemirim, Guarapari e Serra, inclusive vindos de Queimados (município da Serra).

Conforme as narrativas orais, o Coronel Sebastião, que era branco, vivia amigado com uma negra e com ela tinha uma filha, conhecida como “a grande herdeira”. Mas, fora do relacionamento oficial, ele tinha muitos filhos espalhados. Com a morte do pai e a herança de tanta terra, a filha legítima doou um lote de terra para cada um de seus meio-irmãos. “Aqui ninguém é dono das terras, todos são posseiros”, explica Janne.

Com o fim da escravidão, esta população formada por ex-escravos e quilombolas permaneceu na região, ao redor da igreja, dando origem à comunidade de Araçatiba, fortemente marcada pela cultura ao congo, que existia desde o período de escravidão e permanece até hoje. A Banda de Congo Mãe Petronilha – em homenagem a uma parteira da região, que também foi rainha de congo – é a mais antiga da região, com mais de 80 anos.

 

Costurart: o resgate da identidade

 

Janne é coordenadora do Ateliê das Mulheres Quilombolas de Araçatiba, o Costurart. Composto por 12 mulheres, foi fundado em 2006, a partir da organização das moradoras, com o apoio do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Coep e Furnas Centrais Elétricas.

A ideia surgiu pela necessidade de promover o resgate da identidade daquele povo, que estava se perdendo desde a década de 1940, quando Araçatiba passou por um período de decadência. Janne conta que, antes disso, a região era bem desenvolvida, “havia comércio, festas tradicionais, valorização da cultura”.

Mas, com a vinda de grandes fazendas no entorno, que transformaram boa parte das terras em pasto, o enfraquecimento da agricultura gerou muito desemprego. As pessoas, principalmente os homens, precisaram se deslocar para os centros urbanos ou fazendas longínquas e o local foi perdendo suas características, as manifestações culturais tradicionais foram se enfraquecendo.

Daí surgiu a vontade de fazer um resgate cultural, que começou a ser buscado na memória dos mais antigos. O fortalecimento da comunidade só foi possível pelo envolvimento e o apoio coletivo. Aqui, nós voltamos ao conceito de comunidade, do latim “communitas” (“comunidade”, “companheirismo”), que vem gerando trabalhos e resultados fascinantes naquele lugarzinho pacato, mas cheio de vida!

Hoje, o Costurart é um espaço de produção coletiva e solidária, que dá mais qualidade de vida às mulheres quilombolas de Araçatiba e promove o desenvolvimento de toda a comunidade, por meio da confecção de roupas e diversas peças artesanais, trabalhos manuais, penteado afro e culinária típica, além de realizar oficinas e diversos projetos que visam à valorização da cultura e da identidade quilombola.

 

Fonte: Revista Zênite. Edição 24. Outubro/ novembro de 2011
Por: Natália Gadiolli
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2012 

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