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Consuelo Salgueiro (Parte II)

Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Nº 45 - Ano 1995

Consuelo Salgueiro nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, em 12 de fevereiro de 1906, e como todo cachoeirense era apaixonada por sua terra natal. Sem paixões exageradas ela gostava de alimentar o seu lado místico. E para se ter uma ideia da dimensão desse misticismo, certa vez ela foi a uma cartomante que prenunciou sua morte aos 76 anos, E ela acreditou nisso com tal passividade que o Maurício não entendia nem aceitava. “Mãe, não vai acontecer nada”, e de fato não aconteceu. E quando ela completou 77 anos ele cobrou: -“77, cadê a cartomante?” Consuelo somente faleceu depois de completar 81 anos, em 22 de fevereiro de 1987. Outra ocasião, eu interpelei-a: “querida, por que você fuma tanto, isso é prejudicial a sua saúde, e ainda mais, você tem enfisema”. Ela de pronto replicou: - “Não adianta Yvonne, deixa eu fumar, eu gosto tanto. A cartomante predestinou a minha morte aos 76 anos. Eu estou beirando os 73, não adianta, eu vou morrer mesmo”. O cigarro foi o seu grande companheiro até a morte. Apesar de proibida do vício por ordem médica, ela nunca obedeceu e a todos ela driblava, que era o lado de sua cumplicidade com as coisas. Então, reunidos na sala, na maior conversa, ela olhava para um lado e para o outro, saía de mansinho e ia tirar escondido as suas fumaçadas. Quando mais tarde gravemente enferma, por uma doença irreversível, ela nunca abandonou o inseparável amigo – o cigarro. E nunca respeitou as recomendações médicas. Consuelo queira viver os seus prazeres.

Sanin Cherques, em seu depoimento sobre a incrível personalidade de Consuelo Salgueiro, também se refere especialmente sobre a sua fase mística, uma espécie de refúgio depois a morte de João Vicente em Paris, França, ocorrida em 1981. O golpe foi muito grande e ela jamais se conformou.  E dizia sempre que não valia mais a pena viver. Depois ela foi ao encontro de novos caminhos religiosos e foi nesse momento que o lado místico se revelou mais forte. Consuelo foi uma cristã, apaixonada pela figura de Jesus Cristo, mas pouco assídua aos ofícios religiosos, considerando-se livre pensadora, e por força do sofrimento e da saudade enorme que tinha de João Vicente, ela procurou outros canais, mostrando uma enorme curiosidade, Já bem idosa, ela descobriu que Maurício e Sanin Cherques tinham um amigo comum, o Joaquim de Oliveira, que residia em Uberaba, a terra de Chico Xavier. E insistiu que a levassem a conhecer o famoso médium, por quem nutria uma grande admiração. Diz Maurício que sua mãe era uma apaixonada pelo Além, não importando qual o caminho, acreditava ela, que através de Chico Xavier, pudesse levar a um grande “papo” com o espírito de seu filho. Essa viagem a Uberaba nunca aconteceu, a conselho médico, devido ao seu preocupante estado de debilidade. Ela já estava morrendo, aos poucos, com saudades de João Vicente. Nos últimos anos de vida, dedicou-se aos estudos de Rosa Cruz, o seu último refúgio, sempre insistindo no lado místico em busca de outras verdades, que o seu ceticismo não permitiu. E adotou o preto e branco até a morte.

Sanin Cherques, quando se refere ao grande carinho e admiração por Consuelo Salgueiro, faz um retrocesso no tempo, para falar da casa do Cosme Velho, um pequeno apartamento com varanda, onde residiam Consuelo e os filhos. – “Era uma casa acolhedora, onde um grupo de jovens, saindo da adolescência, se reunia para estudar com João Vicente e Maurício. As reuniões eram noturnas, com muito debate, discussões, muito cigarro. A gente atravessava a noite, tomando remedinho para não dormir, cafezinho, de vez em quando rolava um vinho ou uma caninha. E Dona Consuelo chegava, dava uma olhada, uma vagueada e saía. Sempre discreta e sem fazer nenhum tipo de censura. Eu tive a felicidade e o privilégio de participar dessa fase de fim de ginásio e científico, convivendo com várias tendências, aqueles que seriam médicos, advogados ou jornalistas, outros que seriam engenheiros ou artistas, tudo com muita receptividade. Fora os “pingentes” que eram da família e sempre estavam por lá, como Guilherme e Sandra Diekens, Nara Saleto e Raul Guy, que devorava toda a comida sem da “colher de chá” para ninguém. A Dona Consuelo fazia um comentário –“ele é muito voraz”, mas nisso não ia nenhuma crítica, tudo era dito com generosidade e uma surpresa alegre. Ela sempre soube dialogar com os jovens e os adolescentes e eu me recordo que era assim uma conversa muito viva e saudável. Com o passar do tempo, não para mim que sou conservador, mas para os outros ela virou Consuelo e dona foi inteiramente abolido. Para o Albino Pinheiro e o meu irmão Sérgio, quando nos encontrávamos na rua, era a mesma pergunta: “E a Consuelo, como vai?” Com ela a ampulheta não funcionou, parou na metade do caminho, quer dizer nós envelhecemos, mas ela não perdeu, assim, o vigor daquela mãe que adotou a todos como filhos, uma pessoa que sempre foi, mas com energia e bom humor. Naquela época, Dona Consuelo gostava muito de rir de uma boa piada, adorava uma mesinha de jogo e jogar buraco. No jogo dos feijõezinhos, ninguém conseguia ganhar dela. Depois vieram os tempos de universidade e o grupo foi seguir novos caminhos, mas eu nunca mais me afastei deles, com um relacionamento mais diário, inclusive, fui hóspede de Dona Consuelo durante algum tempo. Eu ficava lá com todas as minhas extravagâncias, às vezes acordado às 5 horas, outras chegando à meia-noite ou 1 hora e ela, sempre, com aquela cortesia que talvez a minha mãe não tivesse. Nessa época eu estava começando a fazer cinema, chegava lá para as dez ou onze da noite, muitas vezes levando o ator principal. Na verdade, eu estava deslumbrado com o cinema e não tinha desconfiômetro para entender certas coisas. Muitas vezes a Dona Consuelo já estava recolhida, mas assim que eu chegava ela vinha para a sala com aquela gentileza que lhe era peculiar, com elogios para o ator e sem dizer nada que pudesse ser constrangedor ou decepcionante. Esses episódios marcam a sua personalidade com lances fascinantes, como a expedição científica que João Vicente, Maurício e Sérgio Rolim resolveram realizar em Gurupi, no interior do Maranhão. Tudo registrado no Conselho Nacional de Pesquisas. Eles levaram anos economizando, compraram armas e munições e uma câmera de filmar, interessados em cinema, pensavam em produzir um documentário desta viagem em busca de ouro, sem Charles Chaplin. E Dona Consuelo acompanhando aquela movimentação no “fale baixo”, para o Dr. Ivo, que sempre estava por perto, não descobrir. No dia do embarque, Dona Consuelo, dando a maior força ao rádio-telegrafista do navio, seu velho amigo de infância e capixaba. Mas o Dr. Ivo acabou descobrindo tudo e ficou enraivecido. “É uma loucura, dizia, esses meninos vão contrair malária ou outras doenças,” ameaçando interditar a viagem. “Vou denunciar que essa expedição vai ser integrada por caçadores clandestinos e mercenários”, enfim, ele estava disposto a impedir a viagem, usando qualquer artifício. Na verdade, eles levavam munição que daria para matar todos os Yanomamis da Selva Amazônica. A viagem, no início, era de um grupo numeroso, que foi desistindo com o passar do tempo, um a um, ficando reduzido a João Vicente, Maurício e o Sérgio Rolim. Eles não entendiam de selva e o máximo que conheciam eram as matas nos arredores de Cachoeiro de Itapemirim, E o que fez Dona Consuelo? Ela se fez cúmplice dessa expedição, dando o maior apoio a essa aventura desvairada. E embarcou o Maurício e o Sérgio Rolim no tal navio, com muitas recomendações ao amigo capixaba, enquanto o João iria de avião para embarque no porto de Vitória. Era um desses navios tipo Ita ou galé que vão parando no caminho marítimo em vários portos. – “Vão vocês, ela dizia, sem o João Vicente, para ao Ivo não desconfiar. E se a polícia bater por lá não vai poder apreender a munição”. Ela, com João Vicente, se mandaram para o Santos Dumont e tomaram um avião de carreira Rio-Vitória, carregando sessenta quilos de balas numa valise que ficou pesada como chumbo. E o João que não dispunha de dinheiro para o excesso de bagagem, ficou revezando a valise com Dona Consuelo, com todo cuidado para não levantar suspeitas, pois ali, em termos de peso, viajava um outro passageiro. Naturalmente que ela entendia que os filhos estavam na idade das experiências e não bloqueou esse sonho, essa fantasia. Eles embarcaram nessa aventura, incentivados por Martim Napoleão, hóspede da casa, que chegou par ao Maurício e João Vicente, desenrolou uma planta e disse: “Eu tenho aqui um mapa, uma planta que dá todas as dicas para localizar uma mina de ouro, lá em Gurupi, no Maranhão”. E eles, eufóricos, começaram a juntar tostões, numa verdadeira economia de guerra. Ela, então depois que embarcou os filhos desabafou apreensiva: -“O Martim Napoleão é um irresponsável. Como é que ele bota na cabeça desses dois uma aventura dessas?” Decorridos muitos dias, deixaram de chegar notícias. Foi aí que ela se apavorou e só se tranquilizou, apesar das desgraças no texto do telegrama que dava conta da malária de João Vicente, dos vinte quilos de peso a menos de Maurício que a bagagem tinha desaparecido e que a câmera de filmar fora levada pela correnteza do rio; enfim, pensou, eles estavam vivos e respirou aliviada. Providenciou, então, as passagens, porque eles estavam completamente sem dinheiro até para comer e, por milagre, conseguiram convencer ao telegrafista de passar o telegrama fiado. Esta foi a Dona Consuelo que conheci e sempre admirei, que não gostava de cercear os filhos, os amigos e as pessoas. Fui ainda seu aluno de pintura e apesar de minha falta de talento, ela sempre me incentivou.”

As reuniões na casa do Cosme Velho continuaram ainda por muitos anos, sempre movimentadas por diferentes grupos, tendências, manifestações artísticas. Quando os filhos ficaram homens, começou a fase dos namoricos e novos amigos ali se reuniam, como Vilma Guimarães Rosa, Zany Roxo, Agnes Guimarães Rosa e outros que foram se agregando.

Depois, alguns se casaram, outros se separaram e nessa sucessão de gente que entrava e saía, havia sempre renovação de valores e tudo muito envolvido com as artes. Depois, foi a vez de um grupo de poetas e declamadores portugueses que ali se integrou, com noites maravilhosas de tertúlias que reuniam Villaret, Martinho Severo, Rabelo de Almeida e muitos outros. Martinho Severo, declamador, professor de canto e impostação de voz, era um fidalgo português que sabia como ninguém a arte de dizer poesia. Nessas famosas tertúlias declamavam os poemas de mais de cinquenta autores da poesia contemporânea portuguesa, destacando-se Fernando Pessoa, Sá Carneiro, Miguel Torga, Florbela Espanca e José Rêgo, o célebre autor do poema “Cântico Negro”, presença obrigatória em casa Sarau. Os assuntos abordados sempre colocavam em pauta as fases da poesia, da literatura, renovação do clássico para o moderno e as artes em geral, com pessoas que ocupavam cadeiras cativas, outros na arquibancada ou na geral, que se renovavam. E sempre pintava na área uma presença nova. Nessa época, o Vivaldo Costa Lima passou a ser assíduo nesses encontros de cultura. Ele foi, na Bahia, o responsável pela conscientização da importância do Pelourinho e sua restauração e dirigia, na época, o Museu de Artes Africanas em Salvador.

Consuelo Salgueiro teve uma efetiva convivência com os críticos e artistas plásticos, no Rio de Janeiro. Era um grupo de notáveis integrado por Calmon Barreto que pintou o seu retrato, Bandeira de Mello, Mario Lauritz, Júlio Vieira, Angelo Proença Rosa, Carlos Cavalcanti e muitos outros. O seu conhecimento com o professor Carlos Cavalcanti deu-se no Museu Nacional de Belas Artes, onde ele dava um curso muito amplo sobre História da Arte a que ela compareceu com muita assiduidade. Maurício, recém-saído e da Escola Nacional de Belas Artes, era assistente de ensino e estava iniciando a sua carreira com as primeiras exposições. E duas dessas exposições, uma na Galeria Vila Rica e outra no Museu de Arte Moderna, tiveram o texto e a apresentação pelo professor Carlos Cavalcanti. João Vicente, recém-chegado da Espanha, onde se especializou em Direito Internacional e História da Arte, preparava-se para ingressar na área da crítica e ensino da História da Arte. Posteriormente, ele casou-se com Francisca Briggs Ribeiro e foi nomeado professor de História da Arte nas Universidades do Espírito Santo, Estado do Rio e no Centro de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Em função desse relacionamento com as artes, Consuelo e os filhos passaram a uma convivência muito fraterna com Carlos Cavalcanti, comparecendo com assiduidade às reuniões de sextas-feiras da família, e eles, por sua vez, passaram a frequentar as reuniões no Cosme Velho. Além disso, surgiu uma grande afinidade profissional entre Consuelo e Carlos Cavalcanti e no final de 72, ela já estava trabalhando como sua assessora na coordenação e edição do Dicionário de Artes Plásticas, publicado pelo Instituto Nacional do Livro.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 45. 1995
Autora: Yvonne Amorim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2013 

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