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De bonde com Grijó - De Jucutuquara para o Centro

Penedo e Saldanha

Deixo Jucutuquara e Fradinhos para trás e sigo o itinerário do bonde rumo ao centro de Vitória. Ao meu lado esquerdo, o Grupo Escolar Padre Anchieta; do lado direito, a fábrica de sacos de juta Manufatura de Tecidos e só mangue no lado oposto à subida do Forte São João. A avenida não se chamava Vitória, nome atual que assim denomina o trecho que vai desde o Colégio Estadual até a avenida César Hilal. Chamavam-na Reta do Romão. Daí para frente até a Praça do Trabalho em frente à antiga Capitania dos Portos, passava a ser a rua Barão de Monjardim, que dessa forma abriga o Clube de Regatas Saldanha da Gama, fundado em 1902, por um grupo de dissidentes do clube de natação e Regatas Álvares Cabral. Dentre os fundadores do Saldanha, estão o meu avô paterno Rufino Antônio de Azevedo, Nicolau Von Schilgen, César Pinto, Walfredo Paiva e mais uns dez, cujos nomes me fogem à memória. De início o seu funcionamento foi num barracão nas proximidades da descida da rua Henrique de Novais, dando fundos para o Ed. Março, na Princesa Isabel. Na década de 20 os associados resolveram comprar do Sr. Geremias Sandoval o Trianon, onde funcionava um cassino e, antes de ser cassino e o Saldanha da Gama se instalar, era o Forte São João, que fora edificado no século XVII, para proteger a ilha de invasores. Suas instalações constavam de oito canhões grandes, existentes até hoje em suas trincheiras além de outros menores auxiliares. Uma das formas de proteção à ilha era a utilização de correntes, que os portugueses esticavam do Penedo até ao Forte, impedindo a entrada para a baía. Suas paredes ainda hoje existem, algumas chegam a ter mais de dois metros de espessura. Existem ainda a passagem para o paiol e a entrada de um túnel que se comunicava com a base do morro, Hoje, o Saldanha da Gama barganhou com o Estado sua área da Barão Monjardim com outra na Enseada do Suá, próximo à Cruz do Papa, onde edificará sua nova sede social esportiva. Essa permuta deve-se a dois fatos: gastos da manutenção e estacionamento. Ali em frente ao Saldanha da Gama havia um ponto de parada para os bondes, que passavam rente às pedras do morro, motivando às vezes acidentes com passageiros que viajavam nos estribos dos coletivos. Dessa forma é que o Dr. Américo Monjardim, prefeito à época, iniciou parte do desmonte da barreira do Forte de São João. De início o procedimento de desmonte era na base da picareta, pá e alavancas, e as carroças carregavam o saíbro para depositarem na área em que o mar batia, ali onde hoje estão a piscina, o ginásio e a garagem de remo do clube. Anos mais tarde, por volta de 1946, resolveram fazer o desmonte na base hidráulica, para tal, através de uma caldeira movida a lenha, acionava-se um motor, e este retirava, através de mangueiras, a água do mar, que com boa pressão "jateavam" o saibro, que corria em bicas enormes saídas da barreira, atravessando a rua submersa e desembocando em frente à rampa de remo do Saldanha da Gama. No entanto, esse processo durou pouco. As rochas foram aparecendo e tiveram que encerrar, pois não mostravam mais eficiência, e ficou como se encontra até os dias de hoje. Como a rua era estrangulada entre a ribanceira e o despenhadeiro, o único modo foi chegar a linha do bonde para a área que foi devassada e alargar a via de carros, que já começava a crescer. No entanto, a engenharia da Prefeitura Municipal de Vitória não se sabe onde foi tirar o declive das curvas que circundam o local e todas elas pedem para o lado contrário à curva. Mas um dia algum prefeito vai corrigir... Em frente ao clube está o penedo, mas, se alguém passar e olhar bem, vai notar que no meio da pedra existe uma diferença de cor. Esta diferença é devida ao efeito da cal virgem, que desceu procedente de um anúncio das Casas Pernambucanas que dizia: "Fazendas só nas Casas Pernambucanas". Eram letras com até quatro metros de altura e o seu autor foi o Sr, Dionísio Abaurre, casado com dona Lourdes Benezath, pais de Marcos, Márcia, Marcelo, Gláucia e Valéria.

Mas outro fato ocorreu com o Penedo, e seus protagonistas foram o autor e Manoel Silva Nunes, "Mané Diabo". Por volta de 1947, iniciávamos a prática do remo. Um dia, após chegarmos do treino, resolvemos atravessar a baía a nado e subirmos o Penedo. Naquela época eu tinha a mania de fumar, (Não existia sacos plásticos; então, para protegermos o cigarro e o fósforo da água, nós os colocávamos dentro de pedaços de câmara de ar de bicicleta e amarrávamos as pontas.) Iniciada a subida pelo lado da prainha, depois de 15 minutos já estávamos no pico da pedra. Depois de passarmos alguns minutos lá por cima, o Mané, que tinha mania de "cientista", resolveu fazer "pesquisas". Queria descer. Argumentei com o "Mané" que a maré já estava enchendo e nós íamos comer um dobrado para chegar até a rampa. Como ele não atendeu, resolvi descer sozinho. Ao passar por umas moitas de capim seco ateei fogo. Porém o vento soprava forte do nordeste e acabou alastrando o fogo por quase toda a região da pedra, deixando o "Mané" em situação difícil, tendo que descer pelo lado do rio Aribiri e passar pela mata da pedra ao lado, causando-lhe diversos arranhões de mato com espinho. Mas o pior é que o Sr. Delfim, ao saber que aquela queima no Penedo havia sido provocada por mim e seu filho, ainda lhe deu diversas reguadas e castigo até o dia em que o Penedo deixou de pegar fogo, em seus gravatás, que foram quase todos destruídos. Caso isto acontecesse na atualidade eu estaria em maus lençóis com o IBAMA.

O Penedo queimou durante uns vinte dias. A pedra é uma referência da baía de Vitória. Há uns anos quando eram prefeitos de Vila Velha e Vitória Vasco Alves e Ferdinand Berredo de Menezes, respectivamente, formaram uma polêmica, cada um reivindicando a posse da pedra para seu município. Até hoje não sei com quem ficou a posse da pedra. No entanto o Sr. Berredo de Menezes a iluminou, dando-lhe o bonito visual noturno. Mais tarde o Dr. Victor Buaiz conseguiu junto à ESCELSA a retirada dos postes que sustentavam a passagem dos fios que forneciam energia, antigamente vinda da Usina de Jucu. Mas o Penedo ainda é um motivo de atração para os que passam junto a ele de navio, sendo de conhecimento internacional. Este motivo é devido a um vácuo formado entre o casco do navio e a pedra. Ao se arremessar um objeto do navio para o Penedo, devido à ausência de ar, cai dentro d'água, jamais atingindo a perda.

 

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 - 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2019



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A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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