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De bonde com Grijó pela Av. Jerônimo Monteiro - Parte 1

Avenida Jerônimo Monteiro, década de 40

Agora vou circular pela Jerônimo Monteiro a pé, e de início falarei de um prédio que muita gente, principalmente os nascidos depois de 1950, não conheceram. Trata-se do prédio antigo do Banco Hypotecário e Agrícola de Minas Gerais S.A. Ele ficava na esquina da Jerônimo Monteiro com a Praça Costa Pereira e uma viela, apelidada pelo povo como "Beco da Miséria". Pessoas que queriam economizar tempo, ao invés de passar pela esquina, cortavam caminho pelo "beco", mesmo tendo que aturar o mau cheiro de urina e fezes, além de sofrer o assédio dos mendigos. Um detalhe: o referido banco, devido ao seu estilo de construção interna, dava uma impressão de banco do "faroeste" americano, e para completar havia um contador, Sr. Beviláqua, que trabalhava em cima de um livro de contabilidade numa escrivaninha de madeira escura e usava as calças seguras por suspensórios e um quebra-luz (tipo de videiras de hoje). Também as divisões dos caixas eram do tipo "faroeste". O gerente era o Sr. Lyvio de Vicenze. O prédio foi demolido. Onde ficava o beco da miséria, foram construídas lojas, funcionando a Farmácia Neofarm, a loja de armarinhos de dona Odete Seba e a pastelaria até hoje existente. Uma pena que não tenham preservado o prédio que foi construído na década de 20. Logo adiante vinha a Casa Lotérica do Sr. Delfim Nunes, que trabalhava com seu filho Cyro. Também ali o Jonas Brandão, um amigo inseparável do velho Delfim, apontava "jogo de bicho" para o banqueiro Apriginho. Ali era um ponto de referência dos associados da Arquiconfraria da Assumpção e Boa Morte, pois o Sr, Delfim era provedor, e verdadeiras reuniões ali se realizavam. Na outra porta existia o Bar do Menezes, que tinha como sócio o Sr. Vicente. Com eles trabalhava o Cearense, pessoa conhecidíssima em Vitória, pois, após as 17 horas, quase todo mundo que trabalhava na redondeza do comércio fazia uma parada para um aperitivo de limão, maracujá, caju, ou uma purinha, além da famosa passinha. Contam as más línguas que por debaixo do balcão existiam uns baldes onde os restos dos copos eram depositados e depois devolvidos aos seus respectivos litros de revenda. Logo na entrada, existiam três cadeiras de engraxate, cujos donos eram o espanhol Pascoal, Canela e Tião. Eles sabiam de diversos assuntos, dados os comentários dos fregueses, porém o sigilo era total por parte dos profissionais. No interior do bar havia mesas de sinuca e bilhar, onde Lobão, Dr. Modenesi, Ataliba Cabral, Aristides, Arroz Agulha, Sr. Costa Gama, Armando Mauro e os "cobras criadas" Arodil, Murilo, Gaguinho, Hélio Quintaes, Moacyr Bacana e Zé Pimenta costumavam jogar. O bar ficava aberto até às 22 horas. Nele também funcionava uma boa tabacaria. Em frente, ficava a banca de jornais do Sr. Carlos, o Camundongo, vascaíno doente e de um mau humor fora de série e principalmente nos dias de derrota do Vasco. Em frente, o edifício Nicolleti, onde funcionava uma espécie de Centro de Café. Como curiosidade, este edifício foi construído em área de muito lamaçal, pois ali era mar. Para sua construção o Sr. Rufino Azevedo, que era meu avô paterno, usou como base sapatas de cimento, e fez um escoramento inclinado pelo lado de fora. Por volta da década de 60, o Banco Nacional S.A, adquiriu o imóvel, pois ali já funcionava. Mais tarde, contratou a firma CIEC, para erguer um prédio-garagem e a loja para a agência. No entanto a base do prédio era tão sólida que, mesmo usando dinamite nas sapatas para destruí-las e fazer o estaqueamento, elas resistiram e a CIEC resolveu edificar em cima da fundação primitiva. Nessa época, eu trabalhava no Banco Mineiro da Produção, que ficava em frente ao edifício, quando via a luta da engenharia moderna e a luta de um construtor prático, que foi considerado um dos melhores construtores da ilha, tendo implantado o sistema de estaqueamento, sendo a primeira construção o Edifício Pan Americano, já referido anteriormente. Esses fatos eu comentava com meus colegas de banco e me enchia de orgulho, como me orgulho até hoje. Em cima do Bar do Menezes existiam diversas salas e consultórios de médicos e dentistas, dentre estes estavam Dr. Lucilo Borges Sant'Anna, Dr. Costa Gama, Dr. Antônio Batalha Barcellos e outros. O prédio era de propriedade do Sr. Plácido Barcellos. Após a morte do Sr. Plácido, quem passou a gerir seus negócios foi o seu filho Harry de Freitas Barcellos, que era na época major do Exército. Como o prédio apresentava pouca renda dos aluguéis, ele passou a pedir a desocupação das salas. Mas os inquilinos eram muito antigos e a maioria não tinha contrato. Certa noite da década de 60, por volta das onze horas, um incêndio irrompeu, consumindo grande parte das salas. A parte térrea nada sofreu e assim o velho prédio deu adeus à cidade. Depois de feita a perícia, o Corpo de Bombeiros encontrou diversos galões de líquidos inflamáveis. Sinceramente, não sei se houve indenizações, mas que a turma mudou-se do local, mudou. Ao seu lado ficava o Edifício Loydd Brasileiro. Já do outro lado da rua, os trapiches dos Guimarães e que mais tarde, por volta da metade da década de 50, foram demolidos, dando lugar aos prédios ali existentes. Nesses prédios funcionaram diversos tipos de comércio. A pioneira foi a Casa Ramos, de propriedade do Sr. José Jorge Ramos, gente de primeira linha e que muito se orgulha de seus seis filhos, todos formados em diferentes profissões. Ao lado, a barbearia do Canela; o Bar OK; a loja de Orlando Guimarães & Cia, onde trabalhavam Alaor Barreto Duarte, o nosso “Enô", Mirabeau Pimentel, Buíca, Zeca Balbi, Roberto Nascimento, Itamar Guimarães e Roberto Saleto. Ao seu lado, outra firma dos Guimarães, Antenor Guimarães & Cia. Firma que era do ramo de navegação e capatazia. Lembro de ter visto trabalhando ali Almir Barreto Duarte, o Mizinho, José Itobal e o Alfredo Neves, o popular Gebegebe, que era contador da firma e, após o serviço, transformava-se num dos maiores boêmios da ilha. Na esquina, a Western Telegrafic. Mais tarde, com o fechamento da Casa Ramos e do Bar OK, foram construídas lojas pequenas, que deram início às firmas do Antar e Maranhão (Mister e Master). Os dois eram antigos funcionários da camisaria Braizer, de Antero Braído. A vontade de vencer dos dois era tão grande que eles abordavam as pessoas na rua para oferecer produtos que eles traziam do Rio de Janeiro. (As camisarias de Vitória produziam em série.) Dessa forma eles foram progredindo na vida. As salas da parte superior de suas lojas eram ocupadas por diversas firmas, dentre essas, a do Mazzei, que tinha o seu estúdio fotográfico. E por falar em fotógrafo, citarei alguns deles, como Jamil Merfane, que também tinha seu atelier na Jerônimo Monteiro, o Sr. Joaquim Sá, cabralista de quatro costados, Pedro Fonseca, campeoníssimo de exposições pelo mundo, um dos fundadores do Foto Clube do Espírito Santo, juntamente com Magid Saad, Milton 1400, Isauro Rodrigues, Waldemar Reblim, Hugo Musso e Aurino Quintais, Paulo Bonino, um dos maiores fotógrafos de colibris, premiado em diversas partes do mundo, o Dr. José Rebouças e o Quintais. A loja "A Paulista" pertencia ao Sr. Nabib Jorge Risk, pai de José Carlos e Apolo, e sua loja era especializada em tecido no varejo e atacado. A Colegial pertencia a Manoel Francisco Gonçalves, de quem já falei anteriormente. A Riachuelo era outra loja forte em têxteis. Na parte superior, o consultório do Dr. Luís Castelar da Silva e o do Dr. Carlos Pandolpho. Citem-se a tipografia e papelaria de Gentil Mascarenhas, pai de Gilton e Gentil, as Lojas Reunidas, formadas por pessoas das famílias Helal e Bichara. Ali localizavam-se ainda o Banco do Brasil e ao seu lado a Baby Capixaba; a mais antiga sapataria de Vitória, "A Principal", de Antônio Moyses, que teve seu nome escolhido em concurso que foi vencido por minha tia Odete, que ainda hoje é viva e está com 97 anos. Outro detalhe com relação à família Moyses é que dona Isabel, esposa de Antônio Moyses, ambos grandes devotos de Santo Antônio, há cerca de 56 anos acompanha as procissões do santo. Nesta procissão ela conduzia pelas mãos, quando não carregava no colo, uma criança de dois a três anos, vestida com roupas idênticas às do santo. Esta criança continuou a participar de tais procissões, vestida de Santo Antônio, até tornar-se um garoto de doze anos de idade, quando passou a acompanhar as procissões sem a vestimenta típica. Trata-se do Dr. Schariff Moyses, um dos maiores médicos cardiologistas de nossa cidade, que é pioneiro em operações do coração. Até hoje ele acompanha as procissões de Santo Antônio. Nesta rua situam-se ainda a Farmácia Santa Terezinha, de propriedade de Chico Elias; em cima, o Hotel Europa, da família Vello Silvares; a fruteira, especializada também em queijos e frios importados, do Sr. Elias, pai de Ali Silva, Arnor, o Bilu, Gegê e Rachid; o beco que dá acesso à Catedral Metropolitana. Nesta havia escrito em cal virgem o nome Vitória medindo cada letra uns 10 metros, o que identificava a cidade para os que chegavam pelo porto. No beco existia a boate da Eron, muito frequentada por estrangeiros; o Bar de Jonas e Nenéu Braz. Mais tarde, com a construção do Supermercado Boa Praça e o fechamento da Boate Eron, o caldo-de-cana do Lyra transferiu-se para o local. Outra casa especializada em caldo-de-cana instalou-se em frente.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2019

A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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