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De bonde com Grijó - Saindo do Glória

Rua Sete de Setembro e Bonde - 1940

Saindo do Glória, atravessei a rua e vou à praça que teve como primeiro nome Largo da Conceição, isso lá pelos idos de 1822, depois passou a chamar-se Praça da Independência, ou Sete de Setembro, e atualmente Praça Costa Pereira, em homenagem ao conselheiro José Fernandes da Costa Pereira, que, mesmo tendo sido um dos responsáveis pela remodelação do local, não lograva, até recentemente, ter seu busto ali erguido, embora muitos outros tivessem sido edificados no local. Aliás, a praça passou por diversas fases em matéria de visual. Lembro-me dela ainda toda ajardinada e com um coreto no centro. Mais tarde, na década de 40, o Dr. Américo Monjardim construiu uma fonte luminosa, que fez o maior sucesso. Porém havia um grande incômodo: os ventos que sopravam no local acabavam dando banho nos "habituês". Mesmo assim foi até a metade de 50. Na entrada, pelo lado do Café Avenida, existia um "laguinho", com casinholas para os marrecos, patos e gansos. O seu piso era de saibro (uma mistura de argila com areia), que amenizava a poeira. Depois dos bancos de madeira, começaram a surgir os de marmorite, com anúncios de firmas comerciais, confeccionados na marmoraria do Sr Wanick. Outros prefeitos fizeram reformas radicais no local. No entanto, dois deram um aspecto moderno ao ambiente de acordo com o crescimento da Capital: Teixeira da Cruz e Paulo Hartung. Para os que não sabem, aquela escultura moderna que existe pendurada num lago no meio da praça é de autoria do escultor conterrâneo Maurício Salgueiro e foi ali instalada no cestão (não confundir com gestão) do prefeito Teixeira da Cruz. Ela tem como significado o ventre da mulher. Tal homenagem foi feita no dia das mães. Durante muitos anos uma figura tornou-se obrigatória no local e em todos os jardins públicos da cidade, que foi meu tio Odilon Grijó, o Nenem Grijó. Ele amava os parques e jardins como adorava seus parentes. Ai do indivíduo que ele pegasse por cima da grama, depredando algo ou com um pé nos bancos. Ele se aproximava do indivíduo, caso este não fosse habituê do local, e puxava a seguinte conversa: "O sr. conhece um tal de Grijó?" Lógico que a resposta geralmente era negativa. Então ele dizia para o elemento: "Olha, se ele te pegar com o pé em cima do banco, ele vai lhe dar um esp0000rrro daqueles..." Para coibir crianças e adultos por cima da grama, ele confeccionava uma série de toquinhos pintados de verde e enfiava na grama, tornando quase impossível sua agressão por parte da criança. Um componente da turma da praça compôs uma paródia na música que foi trilha de um filme de Disney "Se você quer ser um dia Alguém". E a letra ficou assim: "Seu Grijó, acabe com esse pó, vento sul em terra seca causa dó. Olha a poeira, olha a poeira... Veja bem que, que uma folha seca de palmeira na cabeça de um peru [termo usado para referir o indivíduo que ficava em todas as rodas] não é brincadeira. Olha a poeira, traz a mangueira e depois fila; comida dos patinhos na Avenida. Disse um pato a uma pata descontente Seu Grijó é um pato inteligente". Essa paródia era de autoria de "Chupissa", morador da rua Sete de Setembro, e foi composta por volta de 1945. Outra coisa interessante na praça eram os jogos de forca, após a saída da turma dos colégios. No entanto, o forte da praça era sem dúvida o footing das sextas feiras, sábados e domingos à noite, As moças caprichavam em suas vestes e maquiagem e a partir das 19h30min elas começavam a "desfilar" fazendo o circuito da praça pela calçada, enquanto os homens rodavam em sentido contrário, observando o seu flerte, para um posterior namoro. Eram trocados piscares de olhos ou alguns galanteios (termo da época). Os que se julgavam irresistíveis ficavam fixos encostados geralmente em postes e árvores, Quando dava 21h30min o movimento ia diminuindo, pois na época o horário de mulher estar em casa não ultrapassava das 22 h. Havia também o deslocamento para os bailes e domingueiras dos clubes Álvares Cabral, situado ao lado da praça, Saldanha da Gama e Clube Vitória, vários tipos populares passaram por ele. No entanto, três marcaram época. Oton Braga Barabosa não é uma promessa: "é uma realidade". Vivia de posse de um monte de folhas de papel e cheios de rabisco e dizia que eram poemas dedicados à sua musa, Ana Maria. Foi tema de marcha de carnaval, com uma música composta por Carlos Orlando Vianna e Olegário Wanguestel, o Oleg. A marcha alcançou o primeiro lugar em concurso de músicas carnavalescas. Mudava de torcida dos clubes esportivos como se muda de roupa. Para ele o bom era estar em evidência. Mas sua maior "performance" foi por ocasião dos Jogos Universitários de 1951, em Belo Horizonte, quando ele desfilou como mascote da delegação capixaba, Como se diz hoje: ele deu um "fecha". Caso fosse ficar falando nas coisas do Otto, ocuparia dez páginas. No entanto, peço a Deus que sempre ilumine sua alma.

Outro que marcou época ali foi o Américo Rosa, com a canção "Os Peixinhos do Mar" e outras do nosso folclore. Não se omita ainda o nome de Francisco José Pedrosa, o "Meio-fio", que dizia-se tenente da Polícia Militar da Paraíba. Às vezes mostrava alguns documentos, mas nada de real existia. Seu apelido "Meio-fio" era devido a uns cravos existentes na sola do pé, que o obrigavam a pisar com metade do pé para fora do meio-fio, que fazia um alívio. No entanto, se alguém se atrevesse a chamá-lo pelo apelido de "Meio-Fio" podia fechar os ouvidos e rezar para a alma da mãe, porque a pornografia era de arrasar. Também por ali circulavam; Rainha das Flores, Rosa, mulher de Otínho, e os "catedráticos" da pornografia, seu Pedro "Violão sem Cordas", Fabiano, o "Gapuá", e o baiano "Banho Quente", que era um ferroviário aposentado; Rômulo Tagarro, o " Perácio", que está vivo e trabalha na residência do Dr. Adelpho Poli Monjardim, além de Roberto, seu irmão, que gostava de mastigar vidro e gilete, por uma propina.

Assim é que, saindo da Jerônimo Monteiro, fazendo esquina vinha o famoso Café Avenida, que era freqüentado por três tipos de freguesia. Pela manhã até ao meio-dia os estudantes lotavam o bar, sendo que a maioria pedia um cafezinho pingado e um copo com água, sentados à mesa. Ali discutiam de tudo. Depois das quatro da tarde eram pessoas que trabalhavam nas redondezas e faziam lanches. Das 18 horas em diante era o grupo de aperitivos e dali um movimento variado até a meia-noite, quando encerravam-se as atividades do dia. Seus proprietários eram dois portugueses: o Sr, Barreira, que era calvo e sisudo, e Sr. Laurindo, que era mais comunicativo e até "enxovador". Este gostava muito do Otinho. Já o Sr. Barreira tinha horror ao Oto. Isso devido ao seguinte fato: o dia em que Otinho estava atacado da cabeça (como ele costumava dizer: "me deu uma volúpia"), derrubava as cadeiras, cantava alto e dançava a famosa "dança do laço". Perturbava mesmo. Um freguês assíduo era o Angelo Giudicelli, um argentino afinador de pianos e que entendia de futebol, tendo sido técnico do Vitória FC por muitos anos. Ali ele discutia futebol com seus jogadores e também com os adversários. Por esse fato os adversários diziam que o Vitória treinava nas mesas do Café Avenida. Ao lado do Café ficava a casa de moda feminina, a Casa Madame Prado, de Dona Edith Prado, casada com o Sr. Jasson Prado, tendo com ele um casal de filhos, Lucas e Janete. Era uma casa que editava modas em Vitória, tendo costura de estilo próprio e com um atelier onde mais de dez costureiras e bordadeiras se desdobravam para manter as encomendas em dia. Tinha uma seção de bijuterias, vindas dos grandes centros de fora, sapatos, roupas de banho, chapéus (muito usados na época) etc. Além disso foi a primeira loja em Vitória a usar o crediário. Suas vitrines nos finais de semana e dias de feriados eram atrações. Uma de suas funcionárias que trabalhava como balconista tornou-se uma das mulheres mais famosas do Brasil, principalmente na época do carnaval, motivo é que a Lalá, como era conhecida em Vitória, depois de casar-se com um ex-remador do Saldanha da Gama, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde seu marido foi remar pelo Flamengo, Aliás, este ficou famoso e tornou-se manchete e notícia de jornal ao ser propagada uma briga entre ele e o remador de "skiff" Rapuano, tendo o Aloysio, Carlos Gomes, levado a melhor sobre o "gigante" Rapuano. A Lalá, no Rio, levada por seu marido, passou a frequentar altas rodas nos restaurantes, que eram frequentados por deputados federais e senadores. Entrosada no meio e com sua beleza, conseguiu patrocínios para suas fantasias, para os desfiles nos salões do Municipal, Sírio Libanês, Monte Líbano etc. Aí ela se transformou na famosa Núncia Miranda, capa de todas revistas após a folia de momo. Na época em que o jogo foi reaberto no Estado, a Casa Madame Prado viveu seu grande apogeu. Na década de 60, ela transferiu-se para o Rio de Janeiro e em Copacabana, que era o grande centro da moda, ela abriu uma casa, que funcionou até a década de 80. Logo depois, vinha a bomba de gasolina do Oswaldo Pandolpho, que funcionou muito tempo pelo sistema manual. Ali abastecia-se no "vale", enchia-se o tanque, assinava-se o "vale" e pagava-se no fim do mês. Não existia inflação mesmo. A fábrica de móveis Busato ocupava uma grande área ali e comunicava-se com as ruas Barão de Itapemirim e Jerônimo Monteiro, formando um triângulo. Mais tarde, o Centro de Comércio de Café de Vitória, sob a gestão do Sr. Dante Michelliní, comprou a área e ergueu o edifício onde até hoje funciona o Cartório Castello e tem como curiosidade a primeira galeria comercial de Vitória. O Cartório é do nosso João Dalmásio.

Hoje o Centro do Comércio de Café de Vitória funciona na Enseada do Suá e foi uma obra arrojada para a época, idealizada por Lacine Tápias, com arquitetura do saudoso Carlos Alberto Vivacqua Campos, o Bebeto. Sua inauguração deu-se na gestão de Elias Breda, na década de 70. Mas, voltando à praça Costa Pereira, ao lado do Centro ficava a sede do Álvares Cabral. Um prédio antigo, que assim mesmo oferecia boas festas e domingueiras aos seus associados. No térreo funcionava a Dragão, uma loja de móveis de propriedade de Elvídio de Souza, e o restaurante dos irmãos Nestor e João Camillo. Era a melhor comida da cidade. Moquecas de ostras, camarões, lagosta, peixes e bacalhau, além das carnes, em especial o filé mignon ao ponto com batatas fritas com arroz e farofa, matavam a "cacete", sem falar nas maioneses caseiras, pois não existiam as industrializadas. Seu funcionamento era até meia-noite e às vezes ia até duas horas, conforme o movimento. Beleza pura... Na década de 50, o presidente Manoel Francisco Gonçalves resolveu dar vida nova ao clube e partiu para um plano de ampliação do Álvares Cabral. Demoliu a sede antiga e ergueu um dos prédios mais bonitos de Vitória, onde passou a funcionar a nova sede social, com um imenso salão e provido de galerias. Dessa forma surgia a nova fase do Cruzmaltino, proporcionando ao seu corpo de associados grandes festas abrilhantadas por orquestras famosas, como: Nisticó, Carleto Maestro HO, Mundico e Hélio Mendes. No entanto, o seu ponto forte eram os bailes de carnaval, que se encerravam na Praça Costa Pereira no último dia, indo até às 8h30min da Quarta-feira de Cinzas. Depois de sua construção a parte térrea praticamente não mudou em nada, continuando como atualmente.

Na esquina, ficava o Bar Carlos Gomes, ponto matinal dos políticos.

Na parte de cima ficava o salão Bronswick, de sinuca, onde cobras criadas, como José Pimenta, hoje juiz de direito aposentado, Murilo Dário, o Murilíssimo, Zé Galinha, Hélio Ouintaes Cerqueira, Arodil, Moacir Bicana e outros menos votados, entravam pela madrugada em disputas sensacionais. Sobre o Carlos Gomes (teatro) já comentei em outro trecho. Logo depois, onde se encontra o prédio do INSS, existia a cancha de Basquete, que também já foi citada. Ao seu lado vinha o prédio da firma J. A. Ribeiro, uma boa casa de ferragens e material para construção. Onde está atualmente o Supermercado Shwambac funcionou o primeiro self-service do Espírito Santo. Era o restaurante do SAPS — Serviço de Assistência Previdência Social, criado pelo presidente Getúlio Dorneles Vargas, por volta de 1943. Seu serviço era em bandejões e constava de arroz, feijão, salada, carne, peixe, galinha, linguiça, um copo de leite ou suco de frutas, um pão, sobremesa e cafezinho. Tudo isso por cinquenta centavos, e seu funcionamento era das 11h às 13h30min e das 17h30min às 19h30min. Para os avulsos o custo era de vinte centavos a mais. Muita gente "boa" se alimentou ali, mas sentindo-se avexado. No entanto, a fome falava mais alto. O SAPS servia comida melhor do que muito restaurante da ilha. Seu funcionamento durou mais de quinze anos e depois foi sucedido pelos SESC e SENAC, que existem até os dias de hoje.

Na outra esquina, o Hotel Império e Bar Estrela, sendo seus proprietários: Vicente Silva, dono do hotel, pai de Walter, Evanildo, Ewandro e Marilita. O hotel era de padrão popular, possuía cerca de trinta quartos nos dois andares, além de salão, refeitório e sala de estar. Já o Bar Estrela tinha como proprietário Manoel Pinto, pai de Edson Pinto e Nelita. Esta formou-se em advocacia, e Edson foi por muito tempo diretor da revista Contigo. O bar e restaurante tinha como detalhe divisórias de madeira envernizadas nas portas, que lhe davam privacidade, e sua entrada era através de uma porta vai-e-vem, como as dos filmes de bang-bang. Noutra parte do bar existia outro salão de sinuca e bilhar francês, que ia até alta madruga. Aliás, o Estrela era um refúgio de notívagos e boêmios, que encerravam suas noitadas ali, Hoje funcionam ali farmácias, caldo-de-cana etc.; na outra esquina com a rua Sete de Setembro, a Casa Bancária de Asdrúbal Peixoto. Já na esquina da Treze de Maio vinha a tinturaria de China Yong Lee e o caldo-de-cana de Vicente Balbi, pai de Diopreti, Ferrarinho, Vicente, Zeca, Tutei, Nicolina, Giovani, Aurélia, a Tuta, o ponto preferido pela turma do Fluminensinho FC, aliás o nome do caldo era esse.

Na ladeira São Diogo, que dá acesso à Catedral de Vitória e Cidade Alta, o Edifício Guimarães. O proprietário era pai do nosso Carlinhos Guimarães, que se assemelhava muito ao ator de cinema Mickey Roney.

Mas o que marca a existência do prédio é o fato de ter sido o primeiro edifício com seis andares e foi chamado por muito tempo de "Arranha-céu" da Praça Costa Pereira". E foi também o primeiro a ter um elevador com portas de madeira e atender por chamado eletrônico. Aliás, este elevador funcionou até certo tempo e ultimamente apresentava defeitos sérios, até que há seis anos matou um morador conhecido por "João Bolinha". Sua construção é da década de 40 e seu construtor e arquiteto foi o Dr. Norberto Madeira da Silva. Em sua loja funcionava a barbearia de seu Cláudio Passos e Conselso. Era a melhor de Vitória. Também funcionava a casa comercial de Jayme Guimarães, pai de Luiz Carlos "Faxada", Carlos Alberto, o Bebeto, e Popó; o Hotel Fluminense, da família Botti, cujo prédio velhíssimo ainda existe, fazendo esquina com a rua Dionísio Rozendo; o prédio da antiga CCBFE - Companhia Central Brasileira de Força Elétrica. Este é, sem dúvida, o prédio mais importante da praça Costa Pereira. A Central Brasileira foi por muito tempo o estabelecimento comercial de maior importância por abrigar em seu prédio todas as atividades gerenciais e diretoriais da companhia, pois ele explorava, além dos serviços de força elétrica, o transporte de bonde, o serviço de barcas ligando Vitória a Vila Velha, através das lanchas Santa Cecília e Princesa Elisabeth, e tinha o serviço de cobrança de contas de luz, bem como a venda de passes escolares. Seu diretor geral era o Mister Browm e seu engenheiro, Dr. Burian. Com o desenvolvimento de Vitória, esses homens foram criticados pela imprensa e pelo Partido Comunista, que viviam protestando, e com muita razão, contra os desmandos da empresa; era um prato feito para um jornal de nome "Folha do Povo". Ainda guardo na mente os nomes de alguns funcionários. Gilberto Nascimento, o Paixão, craque do Rio Branco e da Seleção Capixaba de Futebol, era contador. Sua esposa, Dona Olympia, e seus filhos, Gília, Carmenvanda, Rubens Frigeri Nascimento, Fracisco Escarioti, Tesoureiro, Marinha Grijó, Átila Malta. Este último era caixa e um dos grandes remadores que o Estado produziu. Remava pelo Náutico Brasil, tendo sido campeão brasileiro de remo, juntamente com Canossa, Jayme Reis e Raimundo Ângelo. Ainda é vivo. Por volta de 1950, a energia sofria grandes cortes, ou seja, picos. Pressionada, como citei, a empresa foi obrigada a empreender mais no fornecimento da força e luz. Dessa forma importou dos Estados Unidos dois potentes geradores, movidos a diesel, que passaram a ajudar os que existiam e funcionavam através da barragem do Rio Jucu. A remoção dos dois transformadores causou verdadeiro sufoco, desde sua retirada do navio Del Sul, da Delta Line, até a Convertidora da Central, que ficava localizada entre as ruas Sete de Setembro e Coronel Monjardim. Foram uns sete dias de trabalho com duração de vinte e quatro horas por dia. Para tal transporte a empresa teve que armar uma linha de trilhos sobre dormentes das proximidades onde está localizado o prédio Fábio Ruschi, até ao início da Costa Pereira, nas proximidades do antigo Café Avenida. Era um percurso de mais de 500 metros a partir do cais. Sua retirada do Del Sul foi feita pela cábrea Salvadora, do Porto de Vitória, que os depositava em uma grande chapa, assentando-os depois nos trilhos. O reboque era feito através de talhas e as alavancas movimentadas por operários. A sua adaptação no interior da Convertidora levou mais de seis meses. Mas depois de tudo foi compensador, pois a população passou a ter melhor fornecimento de luz. Outro setor que a Central comandava, como disse anteriormente, era a ligação de Vitória a Vila Velha, pelas lanchas Santa Cecília e Princesa Elizabeth, sendo a primeira com capacidade para 150 passageiros e a segunda, 80. Em horários de pico as duas entravam em ação e ambas ocasionavam um sério risco aos passageiros por serem movidas a gasolina. Estas lanchas entravam em funcionamento às 5 horas da manhã e iam até às 24 horas. Os que mais se serviam desse transporte eram os soldados, que prestavam serviço militar para tirar a carteira de reservista no antigo 33º Batalhão de Caçadores, sediado no Forte de São Francisco Xavier da Barra, em Piratininga, Vila Velha, hoje, 38 BI — Batalhão de Infantaria — Batalhão Tibúrcio. Mas nem só de homens viviam as lanchas. No horário de 6h até 7h30min o bando de meninas do Colégio do Carmo, Escola Normal Pedro II e Colégio Estadual dava outro visual à cidade, tanto no colorido como no visual provocado pelos belos corpos, rostos e olhares daquelas jovens criaturas, hoje mamães e vovós. Para mim e outros da época e que praticávamos o remo na baía de Vitória, ficávamos à espera das lanchas do horário para nos deleitarmos. Além das lanchas, cerca de 25 barcos de catragem faziam também o transporte. Sua tarifa era vinte centavos de cruzeiros mais barata do que a das lanchas. Lembro-me de pessoas atravessando nos botes, como Heraldo e Haroldo Brasil, Lauro Maranhão e Antar, nos barcos de seu Chiquinho; Marcimino, Wilson Boca, Edgard, do barco Tango, que orgulhava-se de ter brincado com o Dr. Jones do Santos Neves em sua infância lá por São Mateus; o barco de seu Júlio e este com o seu inseparável charuto no canto da boca, e que fazia a maior parte das viagens para a família do Sr, Romeu Neto, que morava na fazenda localizada em Capuaba, onde está o porto de mesmo nome.

Já que estou me reportando à baía de Vitória, aproveito para narrar alguns fatos curiosos, fatídicos e pitorescos. Como o caso de um catraieiro que costumava carregar seu violão sob o banco em que sentava e gostava de se apresentar, principalmente para os estudantes, fazendo diversas perguntas sobre conhecimentos gerais e dentre uma delas aparecia sempre esta: "O que são animais "quebráveis" e "inquebráveis"?" Então ele respondia: "Quebráveis são: borboletas, baratas, minhoca etc. Já os inquebráveis são: elefante, cachorro, gatos etc." Ele queria se referir aos animais Vertebrados e Invertebrados. Mas o pior acontecia, principalmente, pela noite e especialmente em noite de lua, quando em pleno meio da baía ele retirava o violão de baixo do banco e dedilhava-o e cantava uma canção, com sua voz trêmula retirada do fundo da garganta. O cara era uma piada em matéria de bom humor.

Outro fato que marcou época na baía eram os cardumes de botos, que entravam no canal e, em número de 30 e até mais, principalmente quando a maré era de vazante, na parte da tarde subiam até a baía de Santo Antônio em busca das tainhas. Hoje a poluição os afugentou. Durante uns três anos outro espetáculo era oferecido aos moradores de Vitória. Refiro-me a dinamitação de parte do Morro do Atalaia, popularmente conhecido por "Pela. macaco". Essa dinamitação dava-se para abrir um buraco na pedra para que ali fosse construído um silo para depósito do minério de ferro que seria exportado pelo cais batizado como Engenheiro Eumenes Guimarães. Suas explosões, um verdadeiro show, duravam vinte minutos e eram efetuadas a partir das 17 horas. A orla do cais ficava lotada de pessoas que desejavam ver o espetáculo: as pedras, lançadas ao ar, chegavam a quase atingir o outro lado da baía, pois a explosão era livre. A empresa que construiu o complexo de Atalaia chama-se Groenbilfen. Antes da construção do cais o embarque era feito manualmente, com depósito no cais de Vitória e ficava em frente ao Palácio Anchieta. Eram empregadas caçambas com capacidade para uma tonelada. O minério era depositado nas caçambas por meio de garfos tridentes. Depois as caçambas o carregavam até os porões dos navios da Frota Libertad, com capacidade para 18 mil toneladas. O carregamento durava cerca de 25 a 30 dias, isso dependendo das condições meteorológicas. Com a construção do Cais Eumenes Guimarães, o embarque passou a durar de seis a oito horas, dependendo do abastecimento dos comboios e constância nos silos, vindos de Itabira. Saíam em média, durante 30 horas, três navios, devido a manobras de atracação e desatracação, Tudo isso correu entre as décadas de 40 e 50. Mesmo depois da inauguração do Porto de Tubarão o Eumenes Guimarães continuou em operação e hoje serve como silo de grãos. Interessante é que, logo que o "Pela-macaco" entrou em operação, o barulho provocado pela queda das pedras de ferro, que atingiam grande parte da ilha, principalmente quando o vento soprava do sul, era ouvido até as proximidades de Jucutuquara. Eu, que morava na Henrique de Novais, adaptei-me tão bem ao barulho, que, quando não havia navio carregando, sentia sua falta ao dormir. O nome de "Pela-macaco" foi dado devido ao calor que a pedra exalava durante o dia, sentido principalmente pelos operários. Em 1961 eu noivava em Aribiri e por pouco não fui vítima de um dos acidentes mais espetaculares de nossa baía, motivado pelo navio petroleiro "Aratu", que descarregava para o terminal da Esso e Petrobras no terminal de Argolas. Eu havia saído do Banco Mineiro da Produção, onde trabalhava, e tinha atravessado para Paul, onde pegaria o bonde com destino à casa de minha noiva. O bonde atrasou e fez com que eu, mais outros que ali encontravam-se e bem como boa parte da população de Vitória, assistíssemos a um espetáculo, acho que até hoje inédito no mundo, pelo menos até hoje não vi nada semelhante e nem ouvi falar. Ao começarem a operação de fornecimento do petróleo para os depósitos em terra, uma válvula ficou com um pequeno vazamento e passou a contaminar a baía com gasolina, que foi observada por diversas pessoas, mas não deram a devida atenção, já que seu cheiro não era tão estranho na baía. A maré que entrava no reponto (quando ela chega ao final do limite de vazante ou enchente) durava 30 minutos. A gasolina, que já era em boa quantidade no mar, estagnou. Um catraieiro atravessava um "gringo" para um navio atracado no cais de minério. Supõe-se que o catraieiro ou o "gringo" tenha acendido um cigarro e jogado o palito n'água ainda aceso, provocando a explosão. Daí, altas labaredas clareavam toda a baía e sua orla, enquanto a lancha Princesa Elizabeth, que saíra do cais de Vitória com poucos passageiros, corria à frente das chamas, sendo socorrida pelas mangueiras da Draga Sther, que fazia a dragagem do porto. Este "espetáculo" durou uns vinte minutos. No dia seguinte veio o triste balanço: o catraieiro encontrado morto no seu barco e o "gringo", depois de buscas, foi achado na orla da baía. Uma outra lancha, pertencente à administração do Porto de Vitória, de fibra de vidro, incendiou-se em plena travessia devido à explosão de seu motor movido a gasolina. Houve vítimas queimadas. Esse acidente aconteceu na gestão do Dr. Dorian Castello, Mais tarde, uma outra lancha — Mestre Domício — fazia a travessia. Havia excesso de lotação, e quando ela encostou no atracadouro de Vitória, os maus educados passageiros, no anseio de desembarcar, correram para um lado só. A lancha então emborcou e seis passageiros pereceram afogados. Mas nem só tragédia aconteceu na nossa baía, Quando os navios ficavam ao largo (isso por volta da década de 40) os catraieiros é que transportavam os passageiros para terra. No entanto, eles só rumavam para terra após a lotação completa do bote, que chegava a até 12 passageiros. Certo dia aportou em Vitória o navio Almirante Jasseguay, vindo do Norte do país. A vez de ficar na escadinha do navio como catraieiro era de Marcemino. O pessoal começou a desembarcar. Faltava apenas um para completar a lotação e um indivíduo relutava aos apelos dos colegas que o instavam a descer. Ele alegava que tinha um defeito físico localizado nos dedos da mão e aqui em Vitória gostavam muito de colocar apelidos. O Marcemino, que já tinha perdido a paciência com o "baixinho", olhou para cima e disse: "O mão-de-gengibre, vais descer o não vai?" Aí não deu outra: o "baixinho" desceu e voltou depois das cinco da tarde no maior porre...

Outro fato interessante foi durante a atracação de um navio de bandeira americana. Um catraieiro apanhava a corda do navio amarrada em retinida (uma corda fina com uma bola feita de corda na ponta, que conduz o cabo que irá ser preso ao cabeço do cais). E gritava para o "gringo" lá de cima do navio: "Joga o cabo". O gringo nada entendia. "Duyu spíkinglish". Aí o "gringo" respondeu "Yes". Aí o catraieiro, lançando PQP, respondeu: "Porque não joga esta corda..." Fazendo esta mesma operação de atracação, um outro catraieiro, este mais fácil de identificação, pois todo dia sua imagem era apresentada na abertura das programações da TV Gazeta, um dia estava para recolher a famosa retinida. Esta pela parte da proa. De repente uma das âncoras, com peso de cinco mil quilos, desprendeu-se do guincho e caiu sobre a popa da pequena embarcação arremessando-o para dentro d'água. Grande foi o susto, tanto para ele como para quem assistia da terra. Passado porém o fato, ele ganhou um barco novo da firma armadora do navio. Feito este passeio pela baía de Vitória, estou de frente para a Praça Costa Pereira e aproveito para citar o Hotel Canaã, que ficava localizado no atual prédio do INSS. Ocupava seis andares, e no primeiro andar funcionavam o salão de festas e o refeitório. Um dos hóspedes mais ilustres que ali se hospedaram foi o então candidato à presidência da República Jânio da Silva Quadros. A Central Brasileira ainda era responsável pela telefonia do Estado. Era um serviço deficiente, não pelos recursos da época, quando o telefone funcionava através do uso de magnetos e baterias, além de fios desencapados, sujeitos à interferência de água da chuva e dos ventos. Os telefones foram se aperfeiçoando. Mas até 1950 eram acionados para uma central de telefone, através de uma manivela. A telefonista atendia e pedia o número da pessoa que queria telefonar e o número de quem iria receber o telefonema. Caso estivesse livre ela completava a ligação. A telefonista atendia pelo número seis e aos domingos e feriados, assim como após certa hora da noite, o atendimento era feito por apenas uma telefonista. Se hoje o telefone não oferece garantia de privacidade, que dirá na época em que a escuta era livre. As telefonistas sabiam de tudo na ilha. Ao lado da central ficava o Bar Moderno, também conhecido por Bar do Condutores, devido ao fato de os condutores e fiscais ali aguardarem as suas escalas de serviço. Era também conhecido por Zé Sujeira, pois tinha um mictório insuportável. Até 1997, ele ainda existia, e estava sob o comando dos netos do José. Na parte superior do bar funcionava a Escola de Dactilografia Olympia, que, por pertencer a um senhor de identidade alemã, foi destruída pelo quebra-quebra do dia 17-08-1942, quando o navio Baependy, que levava tropas do Exército Brasileiro para Pernambuco e tinha como passageiro o professor de Educação Física, Adão Benezath, que era capixaba e pertencia a família tradicional da ilha, foi torpedeado por submarinos alemães, juntamente com mais o Anibal Benevolo, o Araraquara, o Itagiba e Aras, todos em um só dia, O povo, inflamado por agitadores simpatizantes do Partido Comunista, dentre eles Celso Bonfim, Benjamim Campos, Sílvio, Manoel Sant'ana e Darcir Xavier, o DX, depois de um ligeiro comício, partiu do relógio da praça Oito de Setembro, em direção aos estabelecimentos pertencentes aos italianos e alemães. Os baderneiros receberam o apoio dos incautos estudantes e estivadores, fazendo de Vitória o maior palco de selvageria de toda sua história. Assim é que as famílias descendente de alemães e italianos tiveram seus bens e imóveis, conseguidos com o suor de seus anos de trabalho e que ofereciam mão-de-obra e trabalho para os brasileiros, destruídos pelas ações dos vândalos. (Mais adiante abordarei melhor o assunto.)

Ao lado do prédio da Olympia ficava um pequeno bar dos irmãos João e Antônio Balbi; na parte de cima, o salão de beleza de Madame Suzzano, que era mãe de Never e Nelmo. Ao lado dos Balbi vinha a sorveteria Mickey Mauser, de propriedade do Sr. Bernardo Bunges, pai de Milada, a mulher mais alta da cidade, e tinha Wlademir, que também era de boa estatura, Ao lado vinha o caldo-de-cana do seu Severino, paraibano. Servia um caldo-de-cana com pastéis de bacalhau, camarão e carne que marcaram época, Na esquina vinha a farmácia Neofarme, onde se deu fato marcante com a estudante Tilda Menezes, Ela recebera de presente do Dr. José de Carvalho uma cobra-coral, cujo veneno, dizia ela, tinha sido extraído. Eu e o meu amigo José Luiz Mendonça tentamos matá-la, na hora em que ela fugia de uma sacola de papel. Diante do seu apelo, que não fizesse aquilo, alegando que ela já não tinha veneno. Outras pessoas conseguiram colocá-la na escola. Porém por um descuido da estudante, esta levou uma picada e poucas horas depois veio a falecer. Este fato consternou Vitória, por tratar-se de pessoa da sociedade e uma jovem nova e linda.

O Banco Hypotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais ficava praticamente numa pequena área independente; isso devido a formação de um beco (O beco da Miséria). Na década de 60 foi demolido. E em seu lugar fica uma pequena "ilha" com uma obra de arquitetura moderna, doada pelo Country Clube ao município. Assim dessa forma contornei a Praça Costa Pereira.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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