Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

De como Anchieta aprendeu a língua do Brasil

Anchieta e catequese

No meio destas ocupações e outras muitas em que o Pe. Nóbrega se aproveitava de sua indústria, diligência e conselho, aprendeu a língua da terra, pondo de sua parte, além da muita facilidade que Deus para isso lhe tinha dado, muita diligência e aplicação, com grande desejo que tinha de ajudar as almas dos naturais que por falta de obreiros padeciam muitas necessidades espirituais. E tanto de raiz [a sério] apreendeu que não somente chegou a entendê-la e falá-la com toda perfeição e compor nela e transladar as coisas necessária para a doutrina e catecismos: mas também, veio a reduzi-la a certas regras e preceitos e compor arte dela, com que se ajudam muitos os Nossos que apreendem a língua.

Foi coisa maravilhosa o fruto grande que com esta sua língua fez em proveito das almas, porque além de exemplo que deu aos demais e fervor que causava neles para apreenderem com diligência, além da muita doutrina e práticas espirituais, assim pública como particulares. Além das muitas confissões que fez, sendo intérprete. Além dos muitos que aparelhou [preparou] para o batismo e para bem morrer, — que por seu meio, quanto se pode crer, estão na glória —, ajudou a compor ou foi o principal autor dos Diálogos das  coisas da fé, Confessário, Instrução dos que hão de ser batizados, e para ajudar os que estão para morrer, de que os Nossos que não são tão boas línguas, em extremo [em fim de vida] se têm ajudados e ajudam.

E, porque não lhe ficasse coisa com que pudesse aproveitar, compôs também Cantigas devotas na língua, para que os moços cantassem, porque para tudo tinha habilidade. Uma vez a este propósito desejando Pe. Nobrega impedir alguns abusos que se faziam em autos [representações sagradas] na igreja, lhe mandou que para a Noite de Natal fizesse um modo de representação devota em português e na língua dos índios, com que todos se aproveitassem em devoção e alegria espiritual. Esta se fez em muitas partes da costa, com muitos frutos dos ouvintes que com esta ocasião se confessavam e comungavam. E para N. Senhor mostrar que esta obra lhe era aceita sucedeu o seguinte. Havia-se de se representar em São Vicente - tendo-se já representado em Piratininga - e como com o português, tinha muitas coisas na língua, ajuntou-se toda a capitania, na véspera da [da festa da] Circuncisão. E estando toda a gente junta sobreveio uma grande tempestade, e sobre o teatro se pôs uma nuvem negra e temerosa, que começou a lançar de si algumas gotas de água grossa. Com isso começou a gente a se inquietar e levantar. Acudiu o Irmão José dizendo que se aquietassem que não era nada. Fez-se a obra [representação] que durou três horas, com muita quietação, devoção e lágrimas, e depois da gente recolhida em suas casas, descarregou a nuvem com tão grande tormenta de vento e água que a todos fez espantar e louvar o Senhor.

Este zelo, que por via da língua aproveitar [ajudava] aos índios, não se diminuiu nele com a velhice e pesadas enfermidades, que com ela lhe sobrevieram. Porque tendo trazido ao mar por via dos Nossos, uns Índios chamados Marunimis, - que é uma nação mui estendida pelo sertão -, já que por outro modo não tinha força para os ajudar, determinou-se de reduzir a certas regras sua língua, e fazer dela arte para com ela os Nossos com mais facilidade pudessem apreender sua língua. Ajudou-se para isso, dalguns dos Nossos como dos Índios, que sabiam sua língua e a da costa. E, saiu com seu intento e abriu caminho para ajudar uma nação tão grande e que tem algumas coisas que facilitam sua conversão: scilicet [a saber], não comer carne humana, não ter, pelo comum, mais que uma mulher e serem muito amigos dos Portugueses e muito mais dos Padres que tem cuidado deles.

 

Fonte: Anchieta: um santo desconhecido? – 2014
Organização: Padre Illário Govoni
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2020
Onde comprar o livro: Santuário de Anchieta, Anchieta/ES ou Marques Editora, Belém-PA

Religiosos do ES

De como Anchieta esteve cativo entre os Tamóios

De como Anchieta esteve cativo entre os Tamóios

Pasmavam os carnais Tamoios de ver um mancebo rodeado de um fogo babilônico e estar nele sem se chamuscar um cabelo

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

A Ermida das Palmeiras – Por Areobaldo Lellis Horta

Vila Velha, onde aportaram os primeiros colonizadores do nosso território, foi por certo tempo a nossa capital, mais tarde transferida para Vitória, quando ainda Vilas, ambas as localidades

Ver Artigo
O Nosso Pai, - extrema-unção – Por Areobaldo Lellis Horta

A Igreja Católica possui um número determinado de sacramentos, dos quais o primeiro é o batismo e o último, a extrema-unção

Ver Artigo
De como Anchieta foi ao sertão em busca de uns homens alevantados (revoltados)

Andou este índio muito tempo debaixo da água, e não o achando se veio para cima a tomar fôlego e a descansar

Ver Artigo
De como Anchieta foi feito Provincial

Padre Geral Everardo Mercuriano nomeou-o Provincial 

Ver Artigo
De como o Padre Anchieta continuou a conversão dos índios

Era muito amado pelos Índios pela sua brandura com que procurava o bem de suas almas

Ver Artigo