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Delação de Duarte de Lemos e outras cartas

Duarte de Lemos

Tem-se notícia dessa viagem pela denúncia levada ao soberano em carta daquela data, escrita por Duarte de Lemos(31). A justiça não tem por que tremer condenando o antigo colaborador de Coutinho pelas mesquinharias contidas no negregado documento. Sua tessitura revela irrefragável e incontida preocupação de intrigar o donatário com o monarca. Ressumbra de suas frases um espírito sádico, antegozando a desgraça que atrairia para a vítima do seu ódio. No meio do esterquilínio das delações, alguns esclarecimentos, porém. O primeiro, a informação de que Vasco Fernandes se propunha ir ao Reino. Presume-se que tenha estado na Europa entre 1550 e 1555.(32) Em abril de 1551, Pero de Góis, de volta do sul, escrevia ao rei, informando: “Fui ter ao Espirito Santo terra de Vasco Fernandez Coutinho [...] estive aqui synquo ou seis dias por a terra estar quase perdida com descordias e desvarios dos omens por nom estar Vasco Fernandez nelIa e ser ido nom sei se lla se omde, sayo o ouvidor fora comsertou tudo”.(33)

Não havia, pois, notícia sobre o paradeiro do donatário e as discórdias dividiam a população. Dois anos depois, finda a inspeção que realizara pela costa, Tomé de Sousa dava conta a Sua Majestade do que vira e fizera durante a viagem. Referindo-se ao senhorio de Vasco Coutinho, assim se expressou:

“O Espirito Santo he a melhor capitania e mais abastada que ha nesta costa mas está tam perdida como o capitão della qué Vasco Fernandez Coutinho eu o provy o melhor que pude mas V. A. deve mandar capitão ou Vasquo Fernandez que se venha pera ella e ysto com brevidade”.(34)

Muito descera o valoroso soldado de Afonso de Albuquerque para ser apontado como perdido...

Aquele “que se venha pera ella” dá quase a certeza de que Tomé de Sousa sabia Vasco Coutinho achar-se em Portugal. Parece um recado ao administrador negligente, maliciosamente encaminhado por intermédio do rei.

 

NOTAS

(31) - Carta de DUARTE DE LEMOS escrita de Porto-Seguro a D. João III (catorze de julho de 1550):

“Senhor, V. A. saberá como Vasco Fernandes Coutinho veyo ter a este Porto Seguro e ffoy sorgir junto da nao a Santa Cruz ffazenda do Duque dAveiro que he desta Villa duas llegoas omde estava a nao de V. A. á carega de brazill dizemdo que se queria yr nella ao reyno e estarya hy oyto dias eu ho ffuy ver e lhe pedi e requery da parte de V. A. que não llevase huns omiziados que ho ouvidor gerall prendeo nos Ilheus que ffogirão da cadeia os quaies estavão prezos porllançarem x ou xb ou xx allmas nos pitiguares em terra e as darem a comer aos Imdios e despois se allevamtaram com ho navyo e lhe trazerem suas ffazemdas roubadas e elles mortos e assy hum ffranses per nome Formão que veyo narmada de V. A. degradado pera sempre por ladrão do mar cosairo como Francisco do Camto que vay por capitão desa nao mais largamente dirá a V. A. e como elle lleva mao preposito segundo emforrnações que eu tenho não deu por nada mas antes os llevou todos e mais se mais achara e os que leva comsiguo são lladrões e desorelhados e degradados pera esta terra por onde creo que não lleva bom preposito como hum Antonio Vaz que esta no Ryo dos Ilheos na ffazenda de Fernam dAlvares da Casa da India mais llargamente sabe e asy hum Roque Martins que qua está na sua capitania e outro que era mestre de hum navio em que elle vay por serem cometidos e o mestre se deixou ffiquar em terra nesta capitania por não segir a Rota que Vasco Fernandes lleva que he yr se a França a se restaurar se de seus gastos que tem ffeitos na sua capitania, dizendo que asy ho ade fazer pois lhe V. A. quebra suas doações e a sua capitania deixou e entregou ao ouvidor gerall ho que dá mais com a ser verdade seu caminho e mao preposito.

It. Eu mandey este aviso a Tome de Sousa porque Vasco Fernandes se vay a Pernambuqo a ver com Duarte Coelho e dahy segir sua rota per onde lhe bem parecer e como elle já nam tem que perder e está no Reino muito endividado ... nenhûa duvyda á ho ffazer portanto ho ffaço a [saber] a vosa allteza e crea V. Allteza que ja quando partyo do Reyno pera este Brazill da primeira vez veio com este preposito e será boa testemunha Fernam Vylles [Vélez] e elle a mim me cometeo e eu lhe dixe que nunqua Deus quisese que fose tredo a V. A. e porque os tempos lhe não socederão nem Deus quis que elle tall deserviço lhe fizesse ho nom ffez não por que não fosse boa a sua vontade” (Corpo Cronológico, parte I, maço 84, n.º 99 [documento lacerado], apud MALHEIRO, Regimen Feudal [Apêndice], 267).

(32) - CAPISTRANO, Prolegômenos, 79.

(33) - Carta de Pero de Góis (vinte e nove de abril de 1551, in Corpo Cronológico, Parte I, maço 92, n.º 113, apud OLIVEIRA LIMA, Nova Lusitânia (Apêndice), 322-3.

(34) - Carta de Tomé de Sousa (primeiro de junho de 1553). – Documento pertencente ao Arquivo da Torre do Tombo (gaveta 18, m. 8, n.º 8). Cópia de P. DE AZEVEDO, in Instituição (Apêndice), 365.

 

Fonte: História do Estado do Espírito Santo, 3ª edição, Vitória (APEES) - Arquivo Público do Estado do Espírito Santo – Secretaria de Cultura, 2008
Autor: José Teixeira de Oliveira
Compilação: Walter Aguiar Filho, maio/2017

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