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Depoimento de Homero Massena

ADEUS

Para os que me conheceram como pintor mineiro, de Barbacena, ignoram que filho de capixaba para aqui fui transportado aos seis meses de idade, só saindo aos oito anos para Ouro Preto onde fui estudar.

Era raro o ano em que não passava dois ou três meses em Vila Velha, terra de minha adoção, onde passei quase toda minha infância e que inspirou muitas de minhas telas, expostas não só em outros Estados, como em exposições na Europa. Em uma de minhas estadias em Vitória fui convidado por minha saudosa parenta e grande educadora Ernestina Pessoa (Dona Neném) para lecionar no Liceu Filomático. Dentre os meus alunos destacava-se o menino Jones dos Santos Neves. Dada a sua invulgar tendência artística, procurava-me constantemente trazendo desenhos e pequenos ensaios de quarelas, que eu corrigia, dando-lhe aulas particulares. Dada a docilidade de seu caráter e a muita distinção com que me tratava, afeiçoei-me ao menino Joninho, como o chamava. De certa feita, como me recusasse a aceitar pagamento pelas minhas aulas, trouxe-me de presente um pequeno alfinete de gravata, uma turmalina verde que usei por muitos anos.

Quando Jones dos Santos Neves foi nomeado interventor no Espírito Santo, lembrava-se do Joninho, certo de que teria se esquecido do velho professor. Engano. Muitas vezes saía do Palácio para visitar-me em meu modesto "mocambo" alugado em Vila Velha, onde adquiriu Solidão, o grande quadro hoje colocado so Salão de Despachos do Palácio Anchieta.

Mais tarde, eleito governador do Estado, um de seus primeiros atos foi o de convidar-me para retornar a Vitória com a finalidade de criar e dirigir, como professor e diretor, a Escola de Belas Artes da Universidade do Espírito Santo. E uma das únicas lembranças que existem de Jones, como criador da Universidade, está uma placa de bronze que fiz fundir, colocada hoje no pavilhão da Universidade onde se ministra o ensino das artes e que me deram a honra de batizar como o meu nome.

Sim, não me conformo com o desaparecimento do grande governador!

Adeus, querido Joninho.

 

Autor: Homero Massena
Fonte: Recortes de jornais de época- Acervo: Kleber Galvêas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2011

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