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Do campus, minhas lembranças em formol - Poe Anne Mahin

Anne Mahin

Estacionei o carro em frente ao restaurante. À minha espera, um almoço com a turma da faculdade, 30 anos após a formatura. Seria o nosso primeiro encontro. Apenas dezenove tinham confirmado a presença. Desses, eu ainda mantinha contato com muitos. Poucos seguiram carreira que tivesse de fato relação com nosso curso de Biologia. Eu mesmo acabei indo trabalhar numa empresa de mineração.

Entrei no restaurante, e lá já estavam Zé Afonso e André às gargalhadas com Thais. Logo que me viram, acenaram numa euforia exagerada que entregava o teor alcoólico no sangue de cada um. Eu, com o meu jeito tímido, calado, puxei uma cadeira, cumprimentando a todos com o sorriso morno de sempre.

Zé Afonso adiantou-se:

- Sandro, meu irmão, chegou na hora certa! Thais está nos contando da sua ex, aquela doida.

- Ex? De quem vocês estão falando?

- Daquela vampira que você namorou até o quarto período - brincou André.

- Vocês estão falando da Briana?

- Isso - atalhou Thais - Você acredita que ela soube do encontro e disse que virá, se puder.

- E por quê, se ela abandonou o curso? - perguntei.

- Ora, isso tem importância?

Dei de ombros, fingindo não me abalar com a notícia, mas o fato é que falar ou ouvir o nome dela, mesmo após tantos anos, ainda mexia comigo.

- E ela, como está? - indaguei diretamente à Thais.

- Bom, você não vai acreditar. Está muito diferente. É outra pessoa. Depois que ela largou o curso de Biologia, foi fazer Direito...

- Direito? Não tem...

- Nada a ver, né? Pois então... Fez Direito, fez concurso e agora a gótica de outrora é uma juíza, séria e respeitada.

- Quem diria, hein, Sandro? - comentou André.

- E aposto que escolheu ser juíza só por conta da toga. Fiz cara de não entender.

- Ué, a toga não é preta? Briana deve usar aquilo até em casa...

Tentei imaginá-la. Nunca mais a vira desde a aula de Fisiologia em que ela saiu porta afora, para nunca mais voltar.

Numa UFES dos anos 80, Briana realmente chamava a atenção, vestida toda de preto, com batom e esmaltes escuros, cabelos escorridos e a cara sempre muito branca, cor de vela. Ela dizia tomar vinagre para parecer mais pálida. Nunca acreditei nessa história, entretanto era o que ela me afirmava. Tudo dela era tão diferente!

Seus interesses, suas leituras, suas músicas... Lia os autores sul-americanos como Amado Nervo, Mariano Azuela e Horácio Quiroga, contudo era apaixonada mesmo por William Blake e Horace Walpole. Uma vez cismou que eu deveria ler o Castelo de Otranto. Dizia que eu tinha na alma a tristeza de Theodore. De volta, eu lhe sorria morno.

E as músicas que ouvia?!... Enquanto o restante da turma curtia The Police, U2 ou Duran Duran, ela apreciava Joy Divison e The Cure.

- Sandro, você se lembra do dia em que ela atravessou o campus de Goiabeiras, à noite, com um lampião, recitando um poema? - perguntou Zé Afonso.

Se eu me lembrava? Como esquecer, se foi naquele momento em que me apaixonei por Briana. Aos olhos dos meus colegas de faculdade, faltava-lhe higidez mental. Para mim, no entanto, era a mulher que alcançava e tocava meu coração com seus mistérios, com suas poesias de autoria própria ou de poetas desconhecidos, com seus gostos de espanto, mas, principalmente, com seu olhar profundo, de um verde que me esperançava de amor. Até seu nome já era algo que despertava curiosidade. Tão incomum, de origem celta - ela me contou. Nunca mais conheci outra Briana.

E com ela, fiz os passeios mais excêntricos por Vitória e arredores, assisti aos filmes mais estranhos e conheci o lado mais bonito da vida, do sentimento, do mundo. Com seu jeito exótico, ela me mostrou o que os meus olhos nem sabiam que podiam enxergar. E nos tornamos inseparáveis.

Ela era excelente aluna, dominava bem todas as disciplinas, especialmente quando as aulas eram nos laboratórios de Anatomia e Fisiologia, no campus de Maruípe.

- Não era ela quem dizia que ia deixar o corpo para estudo, Sandro? - questionou André.

- Era o que ela dizia.

Na época, um professor comentou que desejava se cadastrar como doador. Isso despertou a vontade de Briana. Sabíamos que alguns dos corpos no laboratório tinham sido doados por outras universidades ou pelo Instituto Médico Legal, que enviava os que não eram reclamados pela família. Mas nunca soube se ela chegou a fazer esse cadastro.

- Era uma maluca mesmo - disse Thais. - Lidava bem com a morte, com as peças de cadáveres, no entanto deu aquele baita piti na aula do Bigode.

Lidava bem? Era mais do que isso. Havia um prazer mórbido. Na nossa primeira aula de Anatomia, o técnico levantou a tampa de um tanque onde havia três corpos (ou três peças). Instantaneamente um cheiro insuportável de formol penetrou nas narinas de todos e impregnou o laboratório. Briana, ao se aproximar, visivelmente extasiada, exclamou: "Ora, parecem bonecos. Bonecos de borracha. São bonitinhos." Bonitinhos? Como? Até porque os corpos eram separados das cabeças, numa tentativa de impressionar menos os alunos, o que não adiantava muito. Ainda naquela aula, assistiríamos a um desmaio de uma colega, e, meses depois, ao desespero de outra que jurava ter sentido o cadáver apertar-lhe a mão.

Briana, por sua vez, estava, sempre que podia, enfurnada nos laboratórios, estudando cada centímetro do corpo humano, em contato direto com aqueles defuntos mergulhados em formol. Parecia até que era uma estudante de Medicina. E assim passava a maior parte do tempo, quando não estava em sala.

Um dia, porém, nosso professor de Fisiologia anunciou que iríamos dissecar um animal e que deveríamos estar na manhã seguinte no laboratório. Fomos todos. Briana era a mais animada.

Bigode apareceu com um cachorro, um vira-lata, que abanava o rabo sem parar e foi se enfiando no meio da turma, trançando entre as nossas pernas, mendigando carinho, alegre por, de repente, encontrar tantos donos.

Briana olhou para mim, incrédula, e perguntou:

- O que é isso?

- Um cachorro - respondi ingênuo.

- Sério? Não tinha percebido. Ora, eu sei que é um cachorro, Sandro. Não está vendo que ele está vivo?

- Está, está, sim.

- Por Deus, o que está acontecendo com você? Parece um idiota.

- Desculpe. Só não estou entendendo, Briana...

- Vamos ter de matar o cachorro para dissecá-lo. Entendeu agora?

- Isso é óbvio, não? Há outra maneira?

- Eu pensei que o animal já estaria morto, que fosse um cachorro, sei lá, atropelado.

- É só um cachorro, um vira-lata...

- Você está falando sério? Que é só um cachorro?

- Acho que você está exagerando, não acha, não?

- Que tipo de pessoa é você que considera um exagero matar um animal à toa?

 - Eu, hein?! Que frescagem é essa agora? Não é você que adora um morto? - respondi com uma irritação desnecessária, que nem combinava comigo.

Briana me encarou perplexa. Vi o seu rosto estampando raiva, indignação. Ela estava pronta para me responder, quando o professor pediu que todos se aproximassem. Ele encharcou um pano com éter para colocar sobre o focinho do cão. O animal procurou desesperadamente se desvencilhar, porém os alunos o seguraram firme. Ganiu. Observamos o pavor tomar conta do seu olhar. Ainda tentou algumas vezes se livrar do pano, ganindo sem parar e contorcendo-se como podia. Em vão.

Briana me agarrou o braço e tensa sussurrou:

- Precisamos fazer alguma coisa.

- Fazer o quê?

- Salvar, salvar esse pobre animal.

Nesse momento, Carolina deu um grito:

- Que nojo! Ele fez xixi em mim.

Outra aluna comentou:

- Pobrezinho, ele está apavorado - e estendeu a mão para um último afago.

- Professor, isso não está certo - finalmente Briana falou, com a voz alterada.

- Não podemos simplesmente matar esse cachorro.

Vimos Bigode olhá-la sério.

- É o quê? Não entendi.

- Professor, não podemos fazer isso. Tirar a vida de um ser por nada. Por favor, eu lhe peço...

- Por nada? Quem lhe disse? Vamos dissecá-lo. Que é pelo bem da ciência, preciso mesmo lhe dizer? O que a senhorita sugere, por acaso? Se não lhe agrada, está no curso errado. E pode sair agora mesmo da minha aula, porque iremos dissecar esse animal, a senhora querendo ou não - falou em tom ríspido, não permitindo réplica.

Briana ainda me olhou, esperando uma reação, que não tive. Por fim, ela olhou para os colegas, que desviaram o olhar, uns; outros a encararam como se fosse uma perturbada, sem noção. Saiu, não sem me dirigir a sua fisionomia em desprezo - inteiro e pétreo desprezo -, seus olhos chispando ódio. Pensei em ir atrás dela. Não fui. Fiquei para assistir à dissecação do cachorro, que, depois de ter os órgãos retirados e analisados, acabou com a carcaça numa caçamba de lixo.

Não soube mais de Briana. Aliás, ela não me deu a chance de saber. Foi assim que aprendi a dissecar meu sentimento. E dei valor ao dela. Tarde demais. Nosso amor morreu de só um golpe, dado por mim. E, morto, se decompôs.

 

Fonte: UFES: 65 anos – Escritos de Vitória, 33 – Secretaria de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019
Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Francisco Aurélio Ribeiro, Elizete Terezinha Caser Rocha, Getúlio Marcos Pereira Neves
Organização e Revisão: Francisco Aurélio Ribeiro
Capa e Editoração: Douglas Ramalho
Impressão: Gráfica e Editora Formar
Foto Capa: David Protti
Foto contracapa: Acervo UFES
Imagens: Arquivos pessoais
Autora: ANNE MAHIN
Graduada em Letras e Pedagogia, com especialização em Literatura, é Analista Judiciária II do Tribunal de Justiça do Espírito Santo.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2020

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