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Dona Calu já partiu - Por Mário Gurgel

Cofavi - Companhia Ferro de Aço de Vitória, criada em 1942 - Fonte: Memória Capixaba, Fábio Pirajá

Quando nos mudamos para a Ilha do Príncipe, alguns meses antes da Revolução de 1930, das poucas famílias que então residiam ali, a primeira que estabeleceu contato conosco foi a gente de "seu" Ramos, cujo primeiro nome o tempo apagou de nossa memória.

Era um casal de pessoas simples, originário do Rio Grande do Norte, o chefe pescador, a mulher doméstica e um filho de dez anos de idade que conhecemos na escola pública de D. Colatina Mascarenhas. Raymundo é o nome desse rapaz, hoje pai de alguns filhos, profissional correto e esforçado que empresta agora o seu esforço e a sua colaboração na Companhia Ferro e Aço de Vitória, saído da escola do velho José Amigo, criador de muitos bons profissionais daquele bairro. Ambos do Norte, ambos da mesma idade, nós e "Gaturamo" — como veio a ser apelidado mais tarde o nosso companheiro — fizemos sólida amizade que só a política, segundo informam alguns comentários, veio empanar e diminuir.

Dona Calu, mãe de Raymundo, era uma alma ingênua e leal, franca e humilde, que nos abraçou como filho e como tal deve ter nos considerado até morrer. Sofrendo duramente os azares do vício da embriaguês que assaltou seu companheiro, manteve-se digna e segura até que a morte o arrebatou. Cuidando do filho, mantendo a casa, pequenina e ativa, educou o seu rapaz, fez dele um homem de bem, e ainda orientava e fiscalizava a atividade doméstica de uma sua vizinha e comadre, cujos muitos filhos e a necessidade de trabalhar não permitiam uma assistência mais efetiva.

Quando a guerra estourou, Raymundo, filho único, arrimo exclusivo daquela mulher brava e viúva, foi convocado e partiu para a luta. Temos em mãos muitas das suas cartas, vindas de "certo ponto da Itália". Dona Calu entregou-se a um desespero sem consolo. Aquele era o seu único filho, o seu arrimo, a sua fortaleza, a sua razão de viver. Seu pranto comovia a população solidária. As mulheres, mães e irmãs, filhas e noivas, cujos homens não haviam partido para o morticínio, permaneceram firmes e decididas a seu lado. A sua vizinha e comadre Dona Maria, mãe de Jayme Lopes, tia de José de Freitas, substituíram na ausência invencível o lugar do filho soldado que a guerra chamara para longe da casinha branca e pobre, que se levantava à beira da maré como símbolo da dor e da saudade.

Um dia fomos todos, os moradores e os amigos, buscar o herói que retornava do campo da honra. Dona Calu continuava o seu pranto, as lágrimas corriam pela face coberta de rugas como pedras de luz, e sua figura minúscula agigantava-se na alegria daquela volta, nos distintivos que o filho trazia, nas lembranças da guerra maldita que roubara tantos filhos e tantas mães, tantos meninos e tantas mulheres. "Não, Dona Calu, agora a senhora pode ficar contente. Seu filho voltou". Mas a bondosa criatura chorava, embora tentasse sorrir.

Hoje, vinte anos depois, fomos à sua procura, ao sopé do morro, à beira das águas tresandando a maresia. Descemos a pequena escada de cimento, olhamos o chafariz, velhas lembranças de um passado próximo, feitos pela turma da Prefeitura nos dias ingratos em que estivemos por lá. As pessoas da casa eram conhecidas, fomos chegando e, à vontade, como sempre fizemos, estacamos à porta e chamamos pelo seu nome, no alvoroço da alegria terna que sempre nos ofereceu. Um silêncio terrível respondeu ao nosso chamado. E, no tumulto dos pensamentos que nos sufocavam, a vizinha deu a entender que nosso chamado nunca mais teria resposta. "Mudou?" — lembramos que o filho trabalhava na Ferro e Aço. "Partiu para sempre", foi a resposta. E arrematou em pranto: "Dona Calu já partiu..."

07/06/64

 

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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