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Dona Maria de nada - Por Mário Gurgel

Capa do Livro - Crônicas de Vitória

No dia aprazado, modestamente, humildemente, chegou Dona Maria, com sua malinha de papelão, sua roupa pobre mas decente, seus trocados na bolsa de níqueis que segurava, avaramente, como quem se agarra à própria vida.

Dona Maria veio do interior do Estado, foi localizada por um amigo do patrão. Tinha muitos filhos pequeninos, o marido falecido era lavrador, deixou-lhe essa herança. Meninos bonitos e limpos, que Dona Maria sustentava nos biscates que fazia na cidade pobre, com os ganhos parcos que tinha da lavagem de roupa de falsas burguesas locais, a quem soa mal o fato de se debruçar numa tina ou curvar-se sobre uma bica d'água. Dona Maria corria para lá e prá cá, dando cumprimento ao seu papel de recadeira, passadeira de roupa, fazedeira de compras, babá de meninos teimosos e chorões, filhos de mães tranquilas que não gostavam de perder sua novela de rádio, sua sesta da tarde, seus fuxicos e suas visitas costumeiras.

A verdade é que ela podia ir vivendo, recolhendo — como formiga laboriosa — o pão das suas crianças, o vestido das suas meninas. Ora era uma madame que lhe dava um vestido velho. "Certas madames gostam de dar roupa velha aos pobres." — Tome Maria. Este vestido está um pouco descosido e rasgado aqui. Mas você pode consertar, remendar, fica quase novo". Maria agradecia e recolhia a oferta. Não se humilhava, porque mulher de pobre que trabalha de ganho, se não receber roupa velha para usar, é tomada como soberba e nunca mais ganha um pão. Há senhoras que adoram dar restos de remédio, sapatos sem salto, panelas furadas, cadeiras sem pés. O pobre recebe aquilo e leva para o seu rancho. Casa de pobre é como bazar de D. João Batista, na Ilha do Príncipe. Tem de tudo. Às vezes até alguma coisa chega a servir. Dona Maria mesma diz: "— Televisão de pobre é janela!" e sorri, um sorriso mesclado de agonia e de desesperança.

Ela era uma jovem lavradora. Filha de pais remediados que não tinham fortuna, mas possuíam fartura. Enamorou-se e seguiu um dia, na frente do cortejo numeroso até uma igreja simples e pobre, mas cheia de grandeza cristã e social. Uniu-se ao homem que o destino lhe trouxera, robusto, trabalhador, filho da terra e seu escravo, dedicado ao trabalho, isento de vícios, de medos e de canseiras. Tiveram filhos e, em uma tarde triste e quieta, ele morreu vitimado pela febre maligna que a Medicina não quis esclarecer ou não teve interesse nem motivação para investigar. Dona Maria tentou encontrar uma fórmula de procurar um direito. Afinal de contas o marido morrera no trabalho, vivera honestamente durante toda a vida. Quando chegou à triste conclusão que a vida é assim mesmo, que fome a esperava com seus filhos, que não adiantava ficar aguardando proteção nem amparo de ninguém, tomou a decisão de distribuir os filhos entre famílias que os quisessem guardar por algum tempo, tomou o ônibus e veio em busca de um ganha pão.

Empregada doméstica no Brasil é marginal. Conhecemos uma anciã a quem falta quase totalmente a luz dos olhos; a quem a curvatura da espinha se acentua dia a dia; a quem o reumatismo consumiu quase toda a beleza e desenvoltura. Foi empregada doméstica de meia dúzia de brancos, lavou roupa de ganho na melhor parte de sua mocidade angustiada. Nos seus dedos descarnados estão registrados os sinais irreparáveis do seu sacrifício e na prosperidade dos seus patrões a certeza de que foi enganada vilmente durante todos aqueles anos de dedicação e de renúncia. Não trouxe nada, nada lhe deram depois de trinta anos de servidão. Levantando de madrugada, dormindo altas horas da noite, tolerando os desaforos e os nervosismos dos que a empregavam, comendo as migalhas e preparando o seu leito de indigente na Santa Casa, sempre que adoecia. A classe média e a burguesia precisam fazer uma revisão nos conceitos do trabalho doméstico. O que existe por aí é exploração desumana e cruel. Quando as empregadas domésticas e lavadeiras tentaram dar vida e forma às suas reivindicações, as patroas as amedrontaram dizendo que sindicato é coisa de comunistas. Agora Dona Maria está contando toda a sua história. Coisa sem graça é essa história dessa Maria... Uma Maria qualquer! ... Uma Maria de Nada...

(O Diário de 22/09/65)

  

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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