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Duarte de Lemos – (c. 1485-1558)

Duarte de Lemos, em Trofa - Foto: Abílio Hipólito

Pouco sabemos sobre os primeiros portugueses que chegaram em terras capixabas. Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário, D. Jorge de Menezes, Bernardo Sanches de La Pimenta, Duarte de Lemos, entre outros. Ainda há muito por descobrir, muito para se escrever sobre os primeiros tempos capixabas.

Sobre o donatário da ilha de Santo Antônio, são poucas as referências em solo espírito-santense. Particularmente, considero-o fundador do núcleo populacional que veio a se transformar no que hoje é Vitória, ao erigir a pequena, e ainda hoje existente, capela de Santa Luzia, por volta de 1537, reunindo em seu redor os seus agregados (portanto, a meu modo de ver, Vitória seria pelo menos, 14 anos mais velha do que se considera, atualmente). Para um melhor conhecimento das gentes capixabas, transcrevo, na íntegra (negritos meus), a seguir, a biografia de Duarte de Lemos, excelente trabalho de Manuel Abranches de Soveral, insigne pesquisador português, embasado em extensa bibliografia, em estudo dado à luz via internet, em belíssima página, cujo endereço na sequência segue, sobre a Casa da Trofa. Trata-se de um grande trabalho, onde traça a história do Senhorio da Trofa, suas origens genealógicas, ligadas à família Lemos, os feitos e andanças de seus senhores, e sua descendência.

Tal página da Internet nos brinda, já em seu frontispício, com a imagem de Duarte de Lemos, como estátua orante, em tamanho natural, que marca seu túmulo, na localidade da Trofa, hoje uma freguesia do Concelho de Águeda, no Distrito de Aveiro. Tal exemplar de estatuaria tumular lusitano é considerada “uma das obras mais belas e viris da nossa galeria de retratos plásticos” como afirmou pesquisador português Virgílio da Costa, além de integrar o panteão da família, que é precioso monumento da arte tumular portuguesa, e considerado monumento nacional, como cita Soveral, no tópico “Origens”.

 

Duarte de Lemos

3º Senhor da Trofa (1514)

 

Manuel Abranches de Soveral

(HTTP://pwp.netcabo.pt/0437301501/casadatrofa/default.htm)

 

DUARTE DE LEMOS, 3º senhor da Trofa, Álvaro, Pampilhosa, Jales e Alfarela, por carta de confirmação do rei Dom Manuel de 8.7.1514, ainda seu pai estava vivo, feita a Duarte de Lemos, fidalgo da sua Casa, para que tivesse estes senhorios como tinha seu pai e como se ele tivesse falecido. Neste documento são transcritas sete cartas de D. Afonso V sobre as doações anteriores. Foi fidalgo e do Conselho de Dom Manuel I (r. de 1520) e de Dom João III (22.3.1522), e ainda cavaleiro da Ordem de Cristo (pelo menos desde 1512) e nesta ordem comendador de Castelejo, etc. Nasceu cerca de 1485 e faleceu a 27.6.1558, com 73 anos de idade.

Teria 20 anos de idade quando em 1505 partiu a 1ª vez para a Índia na armada do 1º vice-rei D. Francisco de Almeida. Em 1508 voltou a embarcar para a Índia como capitão de uma das 13 caravelas da armada de que era capitão-mor seu tio materno Jorge de Aguiar, que ia substituir D. Francisco de Almeida como vice-rei.

Com o naufrágio de Jorge de Aguiar, abertas as sucessões determinadas pelo rei, Duarte de Lemos achou-se sucessor do tio como capitão-mor do Mar e da Costa da Etiópia e da Arábia, com “toodallas fortalezas e armadas desde Çofalla até Combaya e por todo o maar de Persya e Arabya”, o cargo mais importante e rendoso a seguir ao de vice-rei, em que se viu sucessor D. Afonso de Albuquerque, com quem Duarte de lemos depressa se incompatibilizou, pois defendia a estratégia comercial de D. Francisco de Almeida e não a visão imperial de Albuquerque. Por pressão deste, depois de ter desempenhado o seu cargo durante três anos, Duarte de Lemos é mandado regressar a Lisboa, como capitão-mor de uma armada, não sem que tenha ficado na Índia com fama de altivez intratável mas também de ser “o mais eficiente colector de impostos que D. Manuel mandou ao Oriente”.

A 30.9.1508 escreveu uma carta a D. Manuel I, onde relata o estado de Moçambique e das obras da mesma terra. Tendo voltado a Portugal em 1510, pois a 19.10.1510 Afonso de Albuquerque escreve a D. Manuel I dando-lhe conta de algumas peças que lhe remetia, juntamente com o aljôfar do tributo de Ormuz, por intermédio de Duarte de Lemos.

Pouco depois de regressar a Lisboa e aí ter casado, morre-lhe o pai e é confirmado como o 3º senhor da Trofa. Em 1516 recebia ao todo 82.000 reais de tenças, sendo 30.000 da Ordem de Cristo, e 12.000 mais 30.000 do foro. Manteve-se na administração dos seus vastos senhorios e em 1520 já era do Conselho de Dom Manuel, cargo que mantém com o novo rei Dom João III, que o nomeia para o seu Conselho e o faz capitão-mor de uma rica armada que, da Espanha, deveria acompanhar a Roma o novo papa Adriano, mas que este recusou por querer ir por terra.

A 9.3.1518 o conde de Faro D. Sancho de Noronha, senhor de Aveiro, deu-lhe as ilhas da Maia, dos Ovos, da Gaga, das Mós do Velho, de Beirós, das Pedras e de Cabanas, bem como as marinhas de Vilarinho e do Esteiro Covo, tudo em Aveiro. Contestou esta doação o mosteiro de Lorvão, argumentando que aquelas terras lhe pertenciam, mas Duarte de Lemos “sendo pessoa poderosa forçara e esbulhara as ditas ilhas, indo a ellas tomando posse”, como se diz na sentença de Dom Manuel de 1.2.1520, contra Duarte de Lemos, fidalgo da nossa Casa e do nosso Conselho, morador na Trofa, e sua mulher, e a favor da abadessa de Lorvão, que tomou posse das ditas ilhas e marinhas a 18.2.1520.

Voltou, entretanto, à carreira da Índia, pois de 15.10.1519 existe um mandato de Duarte de Lemos, capitão-mor da fortalezas e armadas de Sofala, para Gomes de Figueiredo, feitor e recebedor do dinheiro da armada, dar 700 reais aos mouros que trouxessem água aos navios.

Pelo menos entre 1523 e 1528 deve ter permanecido no seu senhorio da Trofa, pois recebe as suas tenças no almoxarifado de Aveiro. Mas é bastante depois, em 1534, que manda fazer o grandioso panteão dos Lemos junto à sua casa na vila da Trofa, no termo de Águeda, onde jaz em túmulo armoriado (Lemos em pleno) com a sua estátua orante em tamanho natural, que evidencia bem o facto de ser considerado o homem mais alto que nesse tempo havia em Portugal. Reza assim o seu epitáfio: “Aqui jaz Duarte de Lemos filho que foi de Joam Gomes de Lemos e neto de Gomez Miz o qual por serviço de Ds por onra de sua linhagem mãdou fazer esta capela pera seu pai e avoos e pera si pera sua molher e foi feita esta capela na era de mil e 534 anos o qual faleceu ao vinte sete dias de junho ano de 1558”. Mandou aí também sepultar sua mulher, e para aí trasladar os restos mortais de seus pais e avós paternos.

Vira-se então para o Brasil, donde a 5.5.1535 envia uma procuração para D. Diogo da Silveira jurar em seu nome o príncipe D. João. A 15.7.1537, Vasco Fernandes Coutinho, donatário da capitania do Espírito Santo, dia “ao Senhor Duarte de Lemos a ilha grande que está da barra para dentro, que se chama de Stº António, completamente livre  e isenta para si e seus descendentes, por o muito que lhe devo e por me vir ajudar a suster a terra que sem a sua ajuda o não fizera”, doação esta que é confirmada pelo rei a 8.1.1549, quando do seu regresso a Lisboa, donde partiu de novo, de imediato, como capitão de uma das três naus da armada que levou ao Brasil o 1º governador Tomé de Souza, que lá o dez capitão-mor da capitania de Porto Seguro (1550).

A 14.4.1550 escreve a D. João III, dando-lhe parte que o governador Tomé de Sousa o fizera capitão da capitania que fora de Pedro de Campos e que ficara servindo. Conta que na dita terra havia ouro e que, para o buscar, tinha 20 homens por conta do dito governador, pedindo ao rei que mandasse algumas pessoas que conhecessem a terra onde o havia. Acrescenta que o gentio estava em paz e muito nosso amigo pela notícia que tinha de Sua Alteza os favorecer e os mandar tornar às suas terras.

Casou com D. Joana de Mello, falecida a 12.10.1529 – que jaz no Panteão da Trofa, em belo túmulo com suas armas (lisonja partida de Lemos e Mello), com a seguinte isncrição: “Aqui jaz dona Joana de Melo molher que foi de Duarte de lemos a qual faleceu ao doze dias do mês doutubro ano de mil 529”.

D. Joana de Mello era filha sucessora de Álvaro Nogueira, certamente o que tem poemas no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende e o Álvaro Nogueira, fidalgo da Casa Real, que a 6.6.1469 obtém do rei para seu aio Pedro Álvares o cargo de requeredor da sisa do trigo da cidade de Lisboa, e de sua mulher D. Isabel Pacheco; e neta paterna de Mem de Brito, morgado de Stº Estêvão de Beja e de S. Lourenço de Lisboa, rico-homem, do Conselho , vassalo e fidalgo da Casa Real, etc., e de sua mulher D. Grimaneza de Mello; e neta materna de John Collin, inglês que as genealogias dizem que foi amo de Dom João II, e é certamente o João Collim, inglês, mercador,  a quem Dom Afonso V dá a 4.12.1450 carta de privilégio para que possa trazer armas de dia e de noite por todo o reino. A 22.6.1461 Dom Afonso V nomeia Mem de Brito, fidalgo da sua Casa e do seu Conselho, como administrador da capela de D. Pedro Pires, em Beja, para si e todos os seus descendentes legítimos. A 29.7.1469, Dom Afonso V doa a Mem de Brito, certos bens de raiz e herança que pertenceram ao arcebispo da cidade de Lisboa D. Afonso Nogueira (seu tio), que os perdeu por os ter comprado sem licença régia. Aquela D. Grimaneza de Mello era tia materna do 3º governador da Índia Lopo Soares de Albergaria e filha de Estêvão Soares de Mello, 5º senhor de Melo e Gouveia e 3º do Couto da Ribeira de Melo (11.7.1417), etc., e de sua mulher D. Tereza de Andrade, que jaz no convento de S. Francisco de Órgens, em Viseu, e casou pela 2ª vez com o senhor de Belmonte e Azurara (Mangualde), sendo mãe do celebrado Pedro Álvares Cabral. Estêvão Soares de Mello foi ainda senhor de Seia, Linhares, Celorico e Penedono, esteve na tomada de Ceuta (1415), sendo comandante da galé em que seguia o infante Dom Henrique, que armou à sua custa. Foi então nomeado capitão-general de Ceuta mas adoeceu e veio a falecer na volta, ao chegar ao Algarve, indo sepultar a Mello. O Infante ficou como tutor de seus filhos, ainda pequenos, tendo, para “os tirar de ódios e malquerenças, despesas e danos”, defendido os ditos órfãos numa composição aceite pela restante da família.

 

Filhos do 3º Senhor da Trofa:

 

1.  João Gomes de Lemos, que o sucede no Senhorio da Casa da Trofa.

2.  Gomes Martins de Lemos, que serviu na Índia, onde foi morto “às frechadas”, junto com D. Fernando de Lima e Artur de Castro, na exploração da foz do rio Bracelor, no tempo do governador D. Henrique de Menezes. Deve ser o Gomes Martins de Lemos que a 9.2.1541 tem alvará real para ir na Armada da Índia desse ano, vencendo soldo e moradia. Mas não pode ser o Gomes Martins de Lemos a quem a 22.9.1522 D. Luiz de Meneses, capitão da armada da Índia, manda pagar quarenta pardaus de seu soldo, assinando o próprio Gomes Martins de Lemos esse recebimento. Fal. Solteiro, s.g.

3.  Álvaro de Lemos, que também morreu na Índia, solteiro, s.g. Só encontrei um Álvaro de Lemos, cavaleiro da Casa d’el rei, que a 6.9.1515 teve mercê do ofício de contador das tenças do bispado de Évora, mas não pode cronologicamente ser este.

4.  Fernão Gomes de Lemos, de cuja existência Alão duvida, dizendo que só um nobiliário o nomeia. De facto não deve ter existido, pois não encontrei sobre ele documentação, sendo provavelmente confusão com o irmão homônimo de Duarte de Lemos.

5.  D. Grimaneza de Mello, abadessa de Arouca.

6.  D. Filipa e outras, freiras em Stª Clara de Coimbra.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 61, 2007
Autor: Paulo Stuck Moraes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2012 

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