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E por falar em saudade

Tenho saudades do torrone, da Garoto, um tablete de docinho recoberto de chocolate e com recheio pastoso de castanha, amêndoa ou amendoim, já não me lembro mais. Só sei que era uma delícia e que guardava todas as minhas pequenas economias para comer um a casa quinze dias. Era a época do leite-mel, da pastilha forte, da groselha, do sorvete de coco verde do Michel, guloseimas, digamos, de uma geração pós-hidrolitol, que vinha a ser uma bebida gaseificada à semelhança de um refrigerante e que fazia sucesso em um bar na Jerônimo Monteiro, próximo ao Copolilo.

Tenho saudades das Lojas Unidas Magazin, enorme, linda e com letreiros luminosos coloridos que enfeitavam a Praça Oito, aos pés da Escadaria Maria Ortiz. E, também, do Bob´s da Rua Sete e o seu misto-quente, da canoinha do Bar Santos, da torrada Petrópolis do Dominó, da pizza de presunto do Britz, e do suco de caju servido ao lado da Sapataria Indígena.

Aos sábados, era obrigatória a compra do JB na Banca do Natal, a passagem no Caldo Lyra para saborear um pastel de queijo, e a busca por novidades nos discos do Golias, Jairo Maia e Empório Capichaba, assim, com “ch” mesmo, como exibiam também as placas da avenida do trecho entre a Capitania dos Portos e a Costa pereira.

A Rua Sete era o “point” da meninada nas manhãs de sábado, assim como, alguns anos antes, era o “footing” da praça Independência, a atual Costa Pereira, o local onde os namoros começavam. A galeria do Edifício Valverde era, para usar a linguagem da garotada de hoje, o maior legal, um mini-shopping classe A de uma cidade onde todos se conheciam.

A Praia da Costa ficava longe, muito longe, e várias famílias lá passavam as férias em casas de veraneio. Como os ônibus eram raros, de lá ao centro de Vila Velha era mais rápido ir a pé. Casas só à esquerda do Guruçá, para quem chegava à praia pela Champagnat. À direita, um areal deserto se estendia até o solar dos Oliveira Santos, em Itaparica.

Tenho saudades do Sailor’s, o piano-bar que se escondia no final do corredor do shopping de Vila Velha, onde se podia ouvir, sem estresse, o doce piano de Gilberto Garcia. Tenho saudades do Terra Viva, em Santa Lúcia, e da Adega do Barão, na Avenida Rio Branco, que nos traziam shows da melhor música brasileira. Sinto muitas saudades também, das noitadas intermináveis do Zanzibar, em Camburi.

Volto ainda mais ao passado para lembrar, e sentir saudades, do cheiro de cera do assoalho da casa, do bonde que nos levava ao Colégio Estadual e à Praia do Barracão, do futebol da Ladeira São Bento, em que, invariavelmente, ganhava o time que atacava para o sentido da descida. Lembro da vistosa japona de um colega, sonho de consumo só possível de ser realizado anos depois, quando, ó dó, japonas já haviam saído de moda.

Essas lembranças, que conservamos pela vida afora, retornaram mais fortes nos últimos dias, motivadas, talvez, pelo cinza dos dias nublados, pela chuva insistente e, certamente, pela proximidade do dia em que brindávamos a vida, ouvindo Grove Washington Jr., tomando um bom vinho e, por falar em saudade, espalhando flores do campo pela casa inteira.

Fonte: José Carlos Corrêa (escreve aos sábados em A Gazeta.)

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