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E Vitória mudou ...

Viaduto da Caramuru - Vitória era assim...

Quando Vitória era uma cidadezinha pequenina, tudo nela era diferente, muito diferente mesmo.

E parecia que aqui a vida era mais simples, sem essas complicações de nossos dias, sem essa agitação constante, enfim sem essas caras sempre amarradas, sempre preocupadas, com as quais a gente esbarra na rua.

Caras de pobres criaturas, que dão a impressão que só estão vivendo porque não têm coragem de fazer uma loucura, porque não tem outro jeito. Enfim, sente-se que essas pobres criaturas não gostam da vida, não a estimam e estão louquinhas para que um caminhão carregado de café lhes dê cabo do canastro.

A Vitória de outros tempos era diferente, bem diferente mesmo. As pessoas andavam pelas ruas sem esse ar preocupado, e sempre satisfeitas, sempre risonhas, sempre alegres.

Todas se queriam como se fossem da mesma família, embora às vezes tivessem lá as suas encrencas políticas e por causa delas trocassem, de quando em quando, uns tirozinhos.

Mas, coitado do forasteiro que aqui chegasse e se metesse a falar mal de alguém da terra, de alguém da cidade. Era logo enfrentado e, no duro. Porque o da terra podia não gostar do outro, mas não queria que ninguém falasse dele. Era mesmo que negócio de família.

Os tempos novos foram chegando, foram vindo, foram vindo e, com eles, veio a civilização, vieram os costumes novos.

O povinho calmo, vagaroso, andando na rua com paciência, mudou, ficou apressado, ficou com medo que o tempo se acabasse. E daí as complicações subseqüentes.

 Com essas complicações chegou o nervosismo, chegaram as ambições, as rivalidades. De longe em longe é que os amigos se encontram, e quando o fazem é para se dizerem rapidamente:

- Ei, você está sumido, não aparece mais.

- Não posso, rapaz, a vida está dura, duríssima e eu não tenho tempo nem de me coçar.

- Bem até logo, depois conversaremos mais.

- Até logo, responde o outro.

E acham os dois amigos que conversaram muito, com essas frases inexpressivas, monossilábicas, essas frases sem nexo.

Realmente, os dois amigos têm razão. O tempo, as preocupações, as dificuldades da vida, e a insegurança que anda no ar, não permitem uma conversinha mais demorada, mais amiga, mais íntima.

É essa conversa rápida, de afogadilho, que só serve para aumentar as preocupações, pois as frases ditas não foram mais que veladas preocupações, mal disfarçados aborrecimentos.

A Vitória antiga, pequenininha, das cadeiras nas calçadas para a conversa noturna dos vizinhos, dos parentes e dos amigos, se acabou. Hoje é a Vitória moderna, a Vitória da pressa, do corre, que a morte vem aí.

 

Fonte: Torta Capixaba, 1962
Autor: Nelson Abel de Almeida
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro de 2013

Literatura e Crônicas

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A cidade mudou em quase tudo, e as pessoas também. Vitória, a minha Ilha do Mel, merecia um livro que falasse de suas coisas e pessoas, como depoimentos de Milton Murad, Renato Pacheco, Edgard dos Anjos, Cacau Monjardim, Marien Calixte e Marcelo Abaurre, conhecedores profundos de nossa história, Pena que faltariam os casos pitorescos dos queridos Ademar Martins e José Costa que partiram para outras galáxias

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