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Ensaio de Bordo – Por Luiz Trevisan

Capa do Livro: Escritos de Vitória - 17 IMPRENSA, 1996

Sobrevoar os Andes é sempre, literalmente, um suspense. A começar pelo impacto da visão dos picos gelados, as escarpas brancas, profundas, e as oscilações costumeiras da aeronave, puxada por forte pressão atmosférica. Um ou outro ponto negro distante revela cabanas isoladas, hotéis e clubes de esqui. Um mundo branco imenso, inquietante. Como certas experiências na vida, impossível esquecer o primeiro vôo na Cordilheira.

A certa altura a aeromoça avisou que seriam paralisados os serviços de bordo — triviais lanches, refrigerantes e bebidas — e que fossem obedecidos os sinais luminosos. O avião cruzaria uma área de maior turbulência, entre picos de seis e sete mil metros. Antes de apertar o cinto, Paulo Torre (PT) rapidamente levantou-se e foi até o carrinho de serviço, no final do corredor, de onde voltou equilibrando um copo de uísque cheio até a boca. Sentou-se longe da janela e justificou a sua sede sem esconder um misto de pavor e irreverência:

— Lembra daquela equipe uruguaia que caiu aqui e os caras sobreviveram mais de dois meses comendo cadáveres? Pode ser que o nosso avião também caia e eu já desço mais preparado...

A cena revela uma faceta pouco conhecida do PT, o seu lado irreverente, às vezes moleque, longe da autoridade com que executava suas funções de redator-chefe de A Gazeta. Cargo que ocupou durante dez anos com um desempenho que merece um ensaio específico por sua representatividade, sobretudo, na modernização da imprensa capixaba. Optei aqui por lembrá-lo, de alguma forma, pelo prisma da descontração registrada naquela viagem a Buenos Aires e Santiago, no inverno de 1992, junto a uma turma de quinze pessoas pilotadas em fantour por Ronaldo Nascimento.

Ainda no aeroporto de Vitória o paletó de PT, ligeira-mente apertado, provocava brincadeiras puxadas por Paulo Bonates, que garantia levá-lo para uma ampla reforma do vestuário nas melhores boutiques argentinas. Já no ar, embalada por alguns uísques e coquetéis servidos na sala VIP da Aerolineas Argentinas, a turma começou a batucar e cantar sambas. PT não perdeu a oportunidade de implicar:

— Brasileiro é jeca mesmo. Mal sai do país e já começa a cantar de saudades do matão, da mulata, do feijão.

Depois, aderiu naturalmente às cantorias nas salas de espera de aeroportos, hotéis e ônibus. Embora, vez ou outra, lembrasse que corríamos o risco de sermos conhecidos e recebidos pelos argentinos como "los macaquitos cantantes". Em Buenos Aires, onde ele havia morado durante a época da Guerra das Malvinas — era correspondente de O Globo —, acabou funcionando para o grupo como um eficaz cicerone.

Levou-nos a bons restaurantes, indicou shoppings para as compras, sugeriu os melhores vinhos — preferia os tintos italianos. Em algumas programações noturnas, trazia uma garrafinha de uísque no bolso do paletó como salvaguarda para os "paraguaios do percurso" e, certamente, nunca se esqueceu da noite em que Alvert Buteri deu um show à parte numa tradicional casa de tangos. Não contendo o entusiasmo diante dos bando-neons e bailarinos no palco, Alvert soltava alguns palavrões — em português e em tom de exaltação —, que PT marotamente traduzia de forma amena para os vizinhos.

Dessa passagem por Buenos Aires surgiu uma das cenas mais engraçadas envolvendo PT. Era a reprodução de sua conversa — feita por Bonates — ao telefone, em castelhano, à procura de antigos amigos. Bonates provocou muitas risadas imitando-o, principalmente ao enfatizar o seu desapontamento e desespero na medida em que era informado de que fulano havia morrido, o outro estava no asilo, o casal tal havia se separado. Em suma, não havia mais ninguém de sua turma disponível.

Igualmente ferino, PT reagia observando que, ao contrário de Bonates, ele sabia falar castelhano. No Chile, PT andou meio zen. Diminuiu as doses de uísque farto trazido dos free shops, principalmente após sentir-se mal. Com tanto bombardeio etílico e gastronômico, era natural que um ou outro do grupo desse baixa de um, dois dias, naquela seqüência de passeios, compras, jantares e todas essas farras e certos exageros que cometem os turistas.

Uma manhã, já refeito, ele voltou ao grupo e seguiu no ônibus para Valparaiso e Viña del Mar. Debruçado sobre o brumoso Oceano Pacífico ou saboreando frutos do mar num varandão, lembrou Pablo Neruda — Isla Negra e suas chuvas —, as diabruras de Mané Garrincha no Mundial de 1962, Pinochet, Allende, a poesia, a ditadura e a guerrilha. E nada de heróis ou bandidos. Afinal, um dos seus livros favoritos era Madame Bovary, de Flaubert, o autor que sempre buscou o modo justo das palavras e cultivava absoluta aversão por adjetivos gratuitos.

Na volta dessa excursão rumo a Santiago, no ônibus, enturmou-se na roda de violão ajudando a cantar sambas, boleros e até tangos. Sempre, é claro, reclamando que a cantoria era ruim mas que, entre amigos, tudo se perdoava. São essas imagens, Paulo Torre descontraído, alegre, irônico e saudável que prefiro registrar neste ensaio de bordo. De resto, no dia do seu enterro, naquele outubro de 1995, Rubinho Gomes deu o tom final, ao lado de sua sepultura no cemitério de Santo Antônio, todos chocados pelo infarto súbito e fatal: "Ficamos sem o melhor texto, the best!"

Outro dia, depois de ver O carteiro e o poeta, lembrei-me dessas histórias e pensei que PT certamente também iria se comover com o filme.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Luiz Trevisan
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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