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Entrevista com Ainer Frasson

Ainer Frasson mostrando o torrão da casa onde nasceu em Alto Paraju

O senhor é de onde?

Eu nasci em 1925 no Alto de Sapucaia, Morro do Suvaco da Cobra, hoje Paraju.

Nasci numa casa de estuque, só com a luz do sol e o clarão da lua. Não tinha mais nada. A iluminação era a querosene. Eu estive lá a semana passada e ainda existe uma mesa feita pelo meu pai, há mais de sessenta anos.

E a propriedade do seu pai?

Eram 40 alqueires de terra, sendo 25 alqueires em mata virgem.

Como era a vida por lá naquela época?

Certa vez chegou um padre alemão lá, papai era muito católico e o padre disse assim: Oh! Frasson, você veio à igreja com uma espingarda na mão! Vai embora daqui! Aí papai respondeu ao padre que era para caçar paca depois da missa.

 

Banho a gente quase não tomava, passava um sabonete mais ou menos, pouco se escovava os dentes e pegava um pedaço de fumo e passava na cuca.

Qual nome dos seus pais?

Ângelo Frasson, Irene Lorenzoni.

E seu pai vendeu as terras de Paraju?

Sim, em 1936 e viemos para Vila Velha, que não tinha nada, nada, a não ser impaludismo e mosquito. Não havia água encanada, Itapoã era uma mata, era quase tudo mata. Passava o bonde devagarzinho por ali e depois voltava.

E como a família foi se estabelecendo em Vila Velha?

Fomos estudando, eu vendia leite nas ruas de Vila Velha, vendia verdura na Praça Oito e na Vila Rubim, para poder estudar rapaz.

Mas onde foi que o pai do senhor se estabeleceu em Vila Velha?

Foi aqui, nesta propriedade em que estamos, numa casa com piso de chão e coberta de zinco.

O lugar aqui já era conhecido por Vila Garrido?

Esse nome Garrido veio da Espanha. Na Revolução de Franco quem não era comunista tinha que sair da Espanha. Leonardo Garrido e seu irmão mais novo vieram para cá nesta época. Garrido quer dizer: lugar de flores, flores bonitas. Lá em cima do Morro do Cabrito, tinha uma casa bonita do Leonardo Garrido que deu o nome ao bairro. Ele e seu irmão Marcelino que era pedreiro.

Onde o senhor estudou ?

Eu fiz o ginásio com Christiano Dias Lopes. Acabou o ginásio e fiz o científico. Estudava até latim e depois fui para o Exército. Naquela época, os empregos eram a Central Elétrica do Brasil e o Banco do Brasil, fora isso ninguém pagava nada. Foi então que um Sargento me disse assim: Ainer, fica aqui que você faz carreira no Exército. O nome do Sargento era Nodgi Wlisses de Oliveira, ele era de Exu em Pernambuco. Ele é tio daquela moça que tem um barzinho perto da Câmara de Vereadores, na Prainha.

E a sua carreira no Exército?

Eu com 6 meses já era Cabo, ganhava 780 mil reais. Era dinheiro pra caramba, aí eu falava: agora vou pra zona ver mulher, né?

Quem era a turma?

Eu, Aldomário Rosa, Nilo Nunes Pereira, Dorval Cardoso e Euder Alcântara, Antário Alexandre Theodoro. Éramos em seis Sargentos e nessa época eu estudava à noite.

E a carreira militar?

Em menos de 1 ano eu já era Sargento. Aí eu ganhava 1580,00 – era dinheiro pra caramba, rapaz. Eu fui estudando mais e depois me casei. Depois construí uma casa no Garrido, Meu irmão saiu promotor, o outro Secretário de Segurança e o outro é petroleiro.

Vocês eram em quantos irmãos?

Nós éramos em 6 irmãos. Duas mulheres e quatro homens: Anélia, Valentina, eu(Ainer), Air, Valdiner e Ângelo.

E na Prainha, o senhor que serviu o Exército, sabe de muita coisa daquela época?

Ali era o seguinte: tudo que você imagina que sabe sobre a Prainha, esqueça, feche os olhos que vou lhe contar: o bonde ia lá em cima até a entrada do quartel. Nós pegávamos tainha onde hoje está a atual entrada do Exército. O mar batia onde hoje está o Fórum e o Museu Homero Massena, Aquela frente era tudo areia.

E no centro de Vila Velha?

Na Praça Duque de Caxias havia somente o Colégio Vasco Coutinho, o restante era praticamente um grande areal. Umas casinhas baixas e mais nada. Em Vila Velha todo mundo se conhecia.

E o que se comia?

Havia abundância de peixe. Era muito peixe mesmo! Em Itapoã, onde hoje ficam os pescadores e tem uma banca de peixe, se pegava até um caminhão de manjuba. Era tanta manjuba que ninguém queria. Hoje não se vê mais.

Como foi a vida o senhor morando no Garrido e servindo o Exército?

Eu fiquei no quartel até 1956. Dali eu fui para Ituitaba em Minas gerais, onde fiquei 10 anos. Em seguida fui para Governador Valadares, depois Colatina, voltei para Vitória e depois fui para a Bahia. Eu me aposentei na Bahia com 35 anos de Exército.

Como o senhor conheceu a sua esposa?

Foi por acaso. Eu dançava no Vasco Coutinho. Eu, Ari Queiroz, Aroldo Varejão, Betinho, José Huper. Todo mundo de paletó e gravata, a gente só andava traquejado. Eu estava no Ponto Chique, ao lado da Igreja do Rosário, onde eu me casei em 1951, foi quando eu falei: Aroldo, vamos lá pro Vasco Coutinho dançar. Aí Marta minha esposa passou, ela e Maria Cajueiro.

Então ela escutou e foi ao seu encontro no Vasco Coutinho?

Sim, fomos eu, Aroldo e Ari Queiroz. Chegando lá, eu tirei ela para dançar, e aí foi o início de tudo. Levei 5 anos para casar, rapaz. Sou casado há 61 anos.

E os filhos?

Eu sou pai de 10 filhos: 6 homens e 4 mulheres: Ainer, Angelo, Marcos, Cesar, Sérgio Augusto, Valério Márcio, Sandra, Raquel, Silvana e Ana Cláudia.

Fale um pouco de sua esposa.

Seu nome completo é Maria Marta Nogueira, ela é de família de Vila Velha. É filha de André Nogueira, que foi fiscal da Prefeitura de Vila Velha e irmã de Olívia Nogueira que foi vereadora. O seu pessoal (do entrevistador)que também é de Vila Velha, os “Aguiar”, conheceu todo mundo da família do meu sogro André Nogueira.

O senhor morou em vários lugares, conta alguma história.

Na época em que eu morava em Brumado, na Bahia. Lá eu conheci um cidadão riquíssimo, Waldick Soriano. Um dia eu estou na delegacia e chegou um ofício de Salvador, era o Exército para que eu fiscalizasse a utilização de artefatos explosivos numa mina. Eu chamei o Miguel, meu secretário, um camarada legal pra caramba e lhe disse: você terá que ir num lugar chamado “Brejinho das Ametistas”. Para chegar em Brejinho você passa por Guanaíra, sobe, sobe e sobre e depois chega lá. Um lugar feio pra caramba rapaz, mas um pessoal muito instruído, rapaz.

Como era esse tipo de fiscalização com explosivos?

O explosivo nunca poderia ficar no mesmo lugar do estopim. E também no transporte eles têm que estar sempre separados um do outro. Estava sempre escrito e bem grandão - “perigo”.

Sim, e o Waldick Soriano?

Rapaz, quando eu cheguei lá na lavra do cara, era tudo ametista. A mesa do almoço estava posta, mas eu disse que não queria almoçar. Circulando o local eu vi um forno, tipo um forno de assar bolo que a gente conhece. Que negócio é esse, eu pensei. Ele depois me explicou. A ametista boa é separada e a escória é fervida neste forno. Passava na peneira e as boas iam para Israel e Holanda. Tudo com nota fiscal direitinho. Isso é o Brasil, né? Passados 3 dias eu voltei lá. O paiol estava certo e eu exigi que ele colocasse um vigia permanente.

Que mais outros lugares que o senhor trabalhou pelo Exército?

Eu fui trabalhar certa vez na Chapada Diamantina. Lá eu conheci minas de diamante e de ouro.

Falando novamente de sua propriedade – o senhor mora numa fazenda rodeada de mata atlântica, dentro da cidade – fale sobre a propriedade.

A mata virgem existente aqui é a mesma da época quando meu pai chegou por aqui. (Apontando para o lado e mostrando). Esse outro lado (também apontando),que não pertence a minha família, ele era muito mais bonito, pois uma parte foi cortada a machado e feito lenha que era usada para cozinhar e aquecer água para os hóspedes dos hotéis da época.

Para a gente se situar melhor, me fale sobre esses morros aqui em volta.

Uma parte é a Vila Operária no Bairro Alvorada que dá acesso por São Torquato. Do outro lado é o Hospital Evangélico, Alecrim, Santa Rita e Ataíde. Nós estamos aqui no Garrido divisando com todos esses lugares que falei.

Por que São Torquato?

O Padre Torquato que deu o nome ao bairro.

Eu li no livro do Adelpho Poli Monjardim que esse padre Torquato deixou uma marca na Pedra do Oratório.

Sim, a marca está lá. É um T, de Torquato. E a Pedra do Oratório parece uma concha. Daqui de casa, dá para ver a pedra. A marca está lá até hoje.

Como se deu o crescimento de Garrido?

Rapaz, foi depois da Vale do Rio Doce. A Vale trouxe o progresso. O Colégio Marista é consequência da Vale. Começou a chegar muitas famílias com seus filhos, gerando a necessidade de um bom colégio, aí então surgiu o Marista. Aconteceu também com o Colégio Salesiano. Foi a Vale que impulsionou o crescimento do Estado do Espírito Santo. E se você observar, em Vila Velha tem muitas famílias que vieram do interior para cá. Família Marquesi, Uliana e outras.

Como o senhor é conhecido aqui no bairro?

O pessoal aqui me chama de Tenente. É o Tenente Frasson, cuidado com ele que ele atira (risos). É brincadeira do pessoal.

E o senhor gosta de tomar uma cachacinha?

Gosto! De preferência um conhaque de alcatrão misturado com cortesan (martini). Eu estou com 87 anos rapaz. E você sabia que o conhaque de alcatrão é feito de asfalto?

Já fizeram algum tipo de escavação nesta propriedade em busca de tesouro?

Não aqui onde estamos, mas lá (apontando) para o Hospital Evangélico. Lá existia as ruínas de um Convento de Jesuítas. Aliás, me parece, que somente aconteceu o início dessas construções.  Os jesuítas construíram no Convento, Barra do Jucu, aqui e em Araçatiba. No meio do Hospital tinha uma jaqueira e a escavação (do tesouro) se deu a uns 5 metros pra debaixo da terra. Depois na construção do hospital, a base do Convento que eu conheci, foi retirada.

O que o senhor gosta de fazer?

O que eu gostava muito era montar à cavalo. Ía daqui até Viana e voltava no mesmo dia.

E nesta propriedade já teve gado.

Sim, já teve sim. Aqui era uma mini fazendinha. Tinha café, muita banana e uma horta bonita. Depois eu fui para o Exército e pai falou: Vai que eu cuido disso aqui. Os outros filhos foram saindo também e ficou tudo isso aí preservado. São 5 ½ alqueires de terra. É a única mata preservada que existe aqui nesta região. Nós vendíamos leite aqui na região. Depois quando papai ficou sozinho, mandou o gado para uma fazendinha do meu irmão na Barra do Jucu e aqui ficou isso tudo ao que você está vendo.

Na época do colégio dos seus filhos, como era?

Na época tudo dependia do bonde, tanto para Vitória quanto para o centro de Vila Velha. No Colégio Marista, onde eles estudaram, o transporte que meus filhos usavam era o bonde.

Eu soube que tem um morro por aqui conhecido como Pão Doce.

Pois é, eu conheço como Morro do Oratório, mas certa vez fui a Prefeitura de Vila Velha para pagar os impostos e Dona Eufélia Vieira, que trabalhava lá no cadastro me disse: Frasson lá é o Morro do Pão Doce.

Conta uma história inusitada.

Uma vez na Praia de Itapoã apareceu na areia um cachalote com uns 8 a 10 m. As pessoas cortavam a sua carne, na praia mesmo, e levavam para casa grandes pedaços do peixe. Deu carne pra todo mundo! Essa história ficou famosa em Vila Velha. Depois colocaram o peixe num caminhão, levaram para ao Bairro Divino Espírito Santo. 

O senhor serviu o Exército com José Alcântara o Dedeu?

O Dedeu, casado com Doquinha. Ele mora no centro de Vila Velha, próximo ao Santuário. Depois quando eu fui embora para a Bahia, ele ficou na Seção Mobilizadora do Exército – é a seção que convoca e licencia o pessoal, depois veio uma transferência para ela da Instância... uma cidade de Sergipe. Ele não foi para tomar conta da mãe. Pediu para entrar para a reserva para cuidar da mãe.

Fale de outras pessoas daquela época

Seu pai (se referindo a Walter de Aguiar pai do entrevistador) conheceu Floriano Guerra, Petronildo Jaguer. O lazer era passear de bonde. Indo para Vitória ou Vila Velha, ou então pescar.

E os cinemas?

Cinema só em Vitória, no Cine Glória ou no Carlos Gomes, Em Vila Velha não tinha cinema.

Qual a mensagem que o senhor gostaria de deixar par aos mais novos?

Eu sou homem de rezar toda noite ajoelhado. Eu estou com 87 anos. Meus filhos são maravilhosos. Procurar casar com moça de família. Há um ditado em latim que diz: “a família é a célula mãe da sociedade”. A família é a mãe da sociedade, tudo nasce da família. O meu professor de latim era o avô do meu genro Bruno, ele se chamava Pedro Moraes. Era muito gostoso, não havia droga, a gente brincava muito, que tempo bom!

O senhor pode dar uma referência melhor deste local?

Sítio Frasson, entre a Vila Operária, Vila Garrido e Bairro Alvorada. O Sítio está entre os dois loteamentos – Alvorada e Vila Operária. Referência: Hospital Evangélico. O nome da rua é Três Irmãos.

Mais uma mensagem de vida, o senhor pode deixar?

Que tenha uma religião, case com moça de família, não maltratar as pessoas que tem vício. Tratá-los bem, pois todo mundo precisa de ajuda. Graças a Deus aqui em casa não tem esse problema, graças a Deus! A vida é isso aí.

Como o senhor imagina o futuro dessa propriedade?

Vai ficar como está, eu e os meus dois irmãos pretendemos preservá-la.

Seu sonho seria que seus filhos dessem continuidade ao seu sonho que é preservar?

Vão preservar, eles foram educados para isso.

 

Entrevistado por Walter de Aguiar Filho, agosto/2012



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Educação e Cultura - Mediador: Luiz Carlos de Almeida Lima

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Agostino Lazzaro é diretor do Arquivo Público Estadual, cientista social e, também ator, contista e poeta. Sonia Barreto é escritora, historiadora e professora universitária, membro da Academia Feminina de letras do ES

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