Site: O sr. faz poesias?
Arnaldo: Ali onde é o Colégio Vasco Coutinho era uma quadra enorme. O colégio ficava de um lado e a Prefeitura de outro, tudo aberto, não tinha nada. A primeira coisa que a gente avistava, ao olhar de qualquer ângulo, era o Convento, a mata verdinha. Naquele tempo, de manhã cedo, fosse no verão ou inverno, você via a neblina sobre a mata do Convento, a mata do Morro do Jaburuna, Olaria e o do Moreno. Foi justamente nessa época que começam a aparecer as pessoas que conviviam com aquilo, eu, a Tereza, outros colegas de escola, aprendendo a linguagem, e a gente começa a externar essas coisas, escrevendo alguma coisa, um teatro, e eu como gostava de poesia, fiz a poesia “Vila Velha Minha Terra”. Passou um tempo e eu fiquei envergonhado, achei muito ruim. Depois, à medida que fui mudando minha faixa etária, eu fui achando que aquilo não estava ruim não. Que era aquilo mesmo.
Site: Como era?
Arnaldo: Eu lia muito os autores brasileiros e me lembro muito do Casimiro de Abreu, que fazia aquelas apologias da minha terra: “todos cantam a sua terra, também vou cantar a minha.”. Então eu pensava, quem dera se eu fizesse um negócio assim, como Camões... E como eu conhecia Vila Velha como ninguém, ficava o dia todo na Prainha, Praia da Costa, Morro de Jaburuna, pegava o bonde, os canais do rio Aribiri, a gente rodava isso tudo pescando siri, caranguejo, burdigão para fazer coisas na Semana Santa. Era isso que eu vivia e tentei retratar o lado bom:
Vila Velha minha terra
De lendas tradicionais
Com braços de mar esparsos
Entre as rochas colossais.
Ó Moreno, Ó Penedo
Ó sósias do Corcovado
Maravilhas do presente
Sois relíquias do passado.
E o penhasco do Mosteiro
Real valor de sua história
Abrigo da cristandade
Da baía de Vitória.
Sempre alegre a minha terra
Nas quatro festas de abril
E em 23 de maio
Tradições do meu Brasil.
O Ivan Reis achou uma maravilha, os outros colegas também, João Batista Valadares, Marciano, filho de Tuffy, que era meu colega também, Nanando, que era filho de Dr. Nilton (Luiz Fernando), todos tentaram fazer a sua. Tinha um grêmio do Marista, a gente apresentava aquilo e era um negócio extraordinário. Eu terminei durante um certo período ficando famoso. Veio muita gente me procurando, achando interessante, elogiando, e eu estava achando que estavam era me gozando. Na época eu fiquei envergonhado, depois, revendo em minha mente a Vila Velha antiga, achei que era bonito. É bonito.
Eu tinha o costume de ir para a Prainha, que era uma maravilha, tinha a Praça Otávio de Araújo, a Praça da Bandeira, a Tamandaré. E eu gostava de ficar ali, lia o jornal todo domingo. Eu era novo, mas gostava de ler jornal. E só domingo porque custava caro, hoje a reprodução do jornal é em série, antigamente era quase artesanal, então saía muito caro. Então eu ia para lá ler o jornal, me informar, menos de futebol, porque não gostava muito, e ali era aquela tranqüilidade.
Vila Velha, quando dava aquele vento em determinados horários, a Prainha jogava areia em toda a rua Luciano das Neves e espalhava por tudo quanto era lugar. Às vezes, a antecessora da Escelsa, Companhia Brasileira de Forças Elétricas, que era proprietária do bonde, tinha que pagar e junto com a Prefeitura recolher a areia para não atrapalhar a linha do bonde, de tanta areia que dava, era tudo aberto, não tinham os prédios. Às vezes ventava e fazia frio mesmo. E eu ia ler na praça e começava aquele ventinho e vinha aquele momento de inspiração. Nessa época eu fiz “A Praça de Vila Velha”:
A Praça, as árvores
O vento sereno
O banco
E o gato morto.
Era uma gato que amanheceu morto lá. Então eu guardei e pensei, como a outra: esse troço não é lá muito bom não. Sempre naquela região da pracinha da Bandeira, perto do Convento, me vinha uma inspiração. Até hoje é um lugar que dá muita sombra. Na época era mais arborizado, tinham oitis, cortados em forma de bichinhos, e ficava aquele enfeite em volta da Igreja do Rosário, que era a igreja mais freqüentada de Vila Velha. Só mais tarde, que foi feito o Santuário (que eu participei da construção, levando os tijolos), é que o pessoal começou a despertar mais para outras igrejas que foram surgindo nos bairros.
Site: A Igreja Católica tinha parte ativas nas encenações de Natal?
Arnaldo: Tinha, A iniciativa era popular, mas os padres apoiavam. Eu me lembro que tinham alguns padres que iam lá assistir essas manifestações, com exceção do congo, que eu não me lembro deles participarem da congada do Benedito. Mas da Lapinha e do Reisado sim. A Lapinha era próxima à Igreja ou perto da praça da Igreja.