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Entrevista do ex Interventor General João Punaro Bley (1930-1943) – Parte Final VI

João Punaro Bley

REVISTA: General, fale-nos um pouco sobre os partidos políticos do Espírito Santo no período em que o senhor lá esteve.

BLEY: Até 1937, existiam no Espírito Santo dois partidos políticos. O PSD que era do governo, e o Partido da Lavoura.

REVISTA: Segundo consta, o PSD do Espírito Santo foi um dos primeiros a ser criado no país.

BLEY: Um dos primeiros. No meu tempo, não havia PSD nacional. Cada governo tinha o seu PSD regional. Só mais tarde, graças ao general Magalhães, foi criado o PSD nacional.

REVISTA: No Espírito Santo, quem criou o PSD estadual?

BLEY: Eu, Carlos Lindenberg, Francisco Otávio, Asdrubal Soares, Oswaldo Guimarães... A Comissão Executiva era composta de umas 30 pessoas.

REVISTA: E o partido da Lavoura?

BLEY: Foi uma iniciativa de um grupo que tentava empolgar os agricultores. Mas esse partido foi imediatamente absorvido pelos políticos do Espírito Santo. Tanto assim que o presidente do partido foi derrotado nas eleições realizadas para a constituinte do Espírito Santo. Nesta eleição foram eleitos 3 deputados do PSD. Pelo Partido da Lavoura foi eleito apenas o Jerônimo Monteiro. Mas no dia do reconhecimento, ele faleceu repentinamente.

REVISTA: Em 1937 esses partidos foram extintos...

BLEY: Foram extintos. E no período em que governei o Espírito Santo como interventor, de 1937 até 1942, a política foi abolida. Ninguém mais falava em política. Logo, depois do golpe de 1937, o Partido da Lavoura desapareceu e surgiu em seu lugar a UDN. Apareceu também o PTB.

REVISTA: O PTB era forte?

BLEY: O PTB no Espírito Santo não tinha nenhuma importância. Ele não tinha nenhum deputado federal.  

REVISTA: E os integralistas?

BLEY: O integralismo nenhuma expressão política teve, a não ser nos Municípios de Domingos Martins e Santa Tereza, porque ele só empolgou notavelmente as colonizações estrangeiras, ou seja, a italiana e a alemã. O chefe do Partido Integralista do Espírito Santo era Arnaldo Magalhães, aliás sogro do Jones dos Santos Neves. O secretário era o Padre Ponciano, que era, ao mesmo tempo, secretário do bispo do Espírito Santo, D. Luiz Escortegagne. O integralismo nunca me deu trabalho e nunca representou força política no Espírito Santo.

REVISTA: E o Partido Comunista era forte?

BLEY: Era ainda mais inexpressivo, pois se limitava a um pequeno grupo de Vitória e outro de Cachoeiro de Itapemirim. Entre os chefes comunistas de Vitória, destacava-se um espanhol de nome Hugo Viola, que era fichado na polícia. Era um comunista interessante, pois era dono de uma série de pequenas propriedades, explorava o operariado e era dono de um cortiço enorme em Santo Antônio. E ele era o comunista "número um" de Vitória. Conclusão: a oposição no Espírito Santo nunca me deu trabalho. De modo que não posso reclamar da oposição no Espírito Santo.

REVISTA: E como foi sua eleição para governador?

BLEY: Foi em 1935. O governador era escolhido de forma indireta, pelos deputados estaduais. Na reunião da comissão executiva do PSD para a escolha da chapa, deixei claro que não desejava ser governador. Mas como não houvesse acordo entre os grupos, fui forçado a aceitar a candidatura. Nós tínhamos 16 deputados e a oposição tinha 9. Portanto minha vitória era tranqüila. Algum tempo depois o Asdrubal Soares foi conversar comigo dizendo que desejava ser governador. Eu lhe disse: "Olha, Dr. Asdrubal, por que você não se apresentou na ocasião em que eu disse que não queria ser governador?" Ele respondeu-me: "naquela ocasião eu não tinha maioria: agora tenho, de maneira que vim pedir ao senhor para abrir mão de sua candidatura em meu favor". Eu repliquei: "Não posso fazer isto, porque a candidatura não é minha, é do partido. E eu não vou trair o partido". Ele passou para a oposição, arrastando consigo 6 deputados estaduais. Então ficamos com 15 deputados e eles ficaram com 16. Depois de consultar o Presidente da República, fiz um acordo com o Jerônimo Monteiro (que tinha 3 deputados e estava apoiando o Asdrubal) para que ele ficasse no meu lugar. Ele aceitou. Ficamos então com 13 votos contra 12. Mas quando chegou na ocasião da eleição, o Deputado Carlos Medeiros discordou da candidatura do Jerônimo Monteiro. Fizemos então um pacto de honra no meu gabinete: o Jerônimo seria eleito no primeiro escrutínio e o Carlos Medeiros votaria nele próprio. Assim foi o resultado do 1° escrutínio: Jerônimo Monteiro: 12 votos; Asdrubal Soares: 12 votos; Carlos Medeiros: 1 voto. Não houve, pois maioria. No 2° turno fui eleito por um voto. Em conseqüência do acordo feito como Senador Jerônimo Monteiro Filho, tive que substituir vários de seus secretários que comigo trabalharam na 1ª interventoria por outros da corrente jeromista.

REVISTA: Em 1943 Getúlio nomeou novo interventor pata o Espírito Santo — o Jones dos Santos Neves. De 1943, a 1947 passaram pelo estado 5 interventores. Por que razão Getúlio substituiu os interventores?

BLEY: Não houve motivo especial e sim uma oportunidade. Quando foi criada a Companhia Vale do Rio Doce, o Ministro Souza Costa me convidou para Diretor Comercial da Vale. Então eu deixei o governo do Espírito Santo.

REVISTA: Em 1947 foi eleito governador Carlos  Monteiro Lindenberg, também pelo, PSD, permanecendo no cargo até 1951. O senhor acha que o Carlos Lindenberg foi um continuador do jeronismo no Espírito Santo?

BLEY: Sim. E eu sempre o apoiei. Acho que o Carlos Lindenberg seria meu substituto se não tivesse havido o golpe de 1937.

REVISTA: Entre 1951 e 1954 foi interventor do Espírito Santo o Jones dos Santos Neves (aliás ele fora interventor também entre 1943 e 1945).

BLEY: Na época que governei o Espírito Santo, o Jones dos Santos Neves prestou bons serviços como membro do Departamento Administrativo do Estado e do Banco do Espírito Santo. Quando eu ia deixar o governo, Getúlio me disse: "Você foi para mim um homem de uma lealdade a toda a prova. Eu quero recompensar você dando-lhe oportunidade de indicar para o seu lugar quem você quiser". Eu indiquei o Jones.

REVISTA: Ele foi um dos primeiros a planejar o governo aqui no Espírito Santo... O senhor poderia nos falar sobre o Jones como político e administrador?

BLEY: Aconteceu comigo o que acontece com todo o mundo: a criatura revolta-se contra o criador. Quatro meses depois de ele ser escolhido, ele começou a se retrair em relação a mim e eu acabei rompendo com ele. Quanto à sua atuação como governador, parece-me que fez um bom governo, mas eu não posso dar nenhum dado pois não acompanhei, visto que saí do Espírito Santo.

REVISTA: Ele se afastou um pouco, em determinada época, do Carlos Lindenberg, não?

BLEY: Ele se afastou de muita gente. Ele quis fazer um governo sozinho. Achou que devia renovar o Espírito Santo e se afastou de todos os antigos amigos dele.

REVISTA: Ele era do PSD?

BLEY: Ele nunca foi do PSD.

REVISTA: Ele perdeu uma eleição para governador.

BLEY: Perdeu por dois mil e tantos votos,

REVISTA: Dizem que a eleição foi fraudulenta.

BLEY: Dizem, mas não posso garantir.

REVISTA: Para terminar, gostaríamos de saber sua opinião sobre a tendência do Espírito Santo para os próximos anos.

BLEY: Numa carta que escrevi ao Deputado Gerson Camata, eu disse a ele que só aqueles que não viveram nos períodos difíceis da vida do Espírito Santo, não acreditavam no seu progresso. O Espírito Santo viveu sempre em crise e sempre venceu essas crises. Eu acredito no Espírito Santo. Acredito que ele será um grande estado. Principalmente quando funcionar a Usina Siderúrgica de Tubarão. Quando a primeira composição da Vitória-Minas chegou no Espírito Santo, trazendo minério de Itabira, eu disse que ninguém poderia impedir a vocação siderúrgica do Espírito Santo, e que, mais cedo ou mais tarde, Vitória seria o grande centro industrial. A siderurgia no Brasil será colocada em um ponto do litoral onde encontrar o minério de ferro abundante e encontrar com o carvão, que é escasso. E qual é este ponto no litoral brasileiro? Vitória.

 

Fonte: Espírito Santo: História, realização: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES), ano 2016
Coleção Renato Pacheco nº 4
Autor: João Eurípedes Franklin Leal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2017

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