Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Epílogo da invasão de Thomas Cavendish (8ª e última Parte)

Thomas Cavendish

Como decorrência da apreciação analítica da passagem de Cavendish pelo Brasil quinhentista, dirimir-se-ão algumas dúvidas; velhas certezas poderão ser questionadas:

A)  Estimando-se em sessenta dias o tempo de permanência da frota de Cavendish na Capitania de São Vicente (Cartas Jesuíticas 3 – Anchieta) e notas de Varnhagen (História Geral do Brasil – Vl. I – Tomo segundo, pgs. 83 e 84) e seu rápido retorno ao Estreito de Magalhães; conclui-se que as quatro embarcações citadas por Cavendish (“Victor”, “Roebuck”, “Desire” e “Davis”), participaram do assalto de 25 de dezembro de 1591, à vila de Santos.

 

Do ataque a uma fazenda, nas imediações de São Vicente, em fevereiro de 1592, participou apenas a “Victor” pois, das outras três, duas (a “Desire” e a “Davis”) desgarraram-se durante uma tempestade no Estreito de Magalhães e a “Roebuck” estava desaparecida após uma tormenta, ocorrida no litoral sul do Brasil.

A “Roebuck” reapareceu após sete dias, avariada e despida de velas e mastros.

Ambas participaram do ataque à baía de Vitória (Barra do Espírito Santo), em 08 de fevereiro de 1592.

 

B) Das narrativas subsidiárias à documentação de época, constata-se que o historiador Misael Pena citou, corretamente, a escuna “Roebuck”, como participante da refrega, na baía de Vitória, porém, apontou o capitão Morgan, como seu comandante. Morgan comandava, apenas, as tropas destacadas para o desembarque e o combate em terra. As narrativas de Misael Pena e de Bazílio Daemon coincidem em diversos trechos, com os termos empregados por Cavendish, em sua carta-depoimento e fazem supor tenham tido, pelo menos em parte, conhecimento do conteúdo da aludida missiva.

C) O piloto português que serviu de guia para a frota de Cavendish, até a barra do Espírito Santo contrariamente às afirmativas dos autores de língua portuguesa, não sofreu o tão propalado enforcamento nas mãos dos ingleses. Segundo as palavras do comandante inglês, o piloto luso nem sequer enfrentou outros padecimentos diferentes de uma imerecida surra de chibata (“que lhe arrancou muita pele e sangue”) em satisfação ao descontentamento dos marujos, ante as falhas na execução da sondagem do canal de tráfego marítimo até o porto de Vitória, realizada por alguns desavisados companheiros.

D)  A anunciada morte de Thomas Cavendish em pleno mar, nas costas de Pernambuco, a exemplo do ”enforcamento” do piloto luso, também constituiu unanimidade entre os historiadores de língua portuguesa. Sua origem parece dever-se a encadeamento lógico de estranhas constatações, cujo elo inicial situa-se na baía de Vitória, imediatamente após o combate de 08 de fevereiro de1592. A carta de Cavendish propicia a formulação do seguinte raciocínio: na contabilização dos ingleses tombados na baía de Vitória, o capitão Morgan encabeça a lista, seguido, quem sabe, de outros oficiais, pois os marujos lançaram ao mar tudo o que pudesse estorvar-lhes a retirada, sem poupar sem mesmo os cadáveres dos próprios companheiros. Após essa frustrada tentativa de desembarque, apenas a escuna de Cavendish – a “Victor” – alcançou a Ilha Grande e disso os portugueses tiveram conhecimento, porém, não puderam constatar a presença do comandante.

Ao aportar na Ilha da Madeira – território português – o comando da “Victor” já havia mudado de mãos e Cavendish permanecia trancafiado no porão, incomunicável, ocupando o compartimento reservado ao transporte de eqüinos.

Durante o temo de permanência em território português, somente o capitão Jonathan Harris e alguns subordinados entraram em contato com os negociantes judeus, tentando adquirir novas velas e outros apetrechos náuticos.

Thomas Cavendish (nascido na Inglaterra, no Condado de Suffolk, em 1555), era, aos trinta e seis anos, um “velho-lobo-do-mar”, bastante conhecido através dos seus feitos náuticos, entre os quais se incluía a terceira viagem de circunavegação ao globo terrestre, realizada entre 1586/1588. Sua ausência, aos olhos dos portugueses, deverá, por certo, ter fundamentado a presunção de sua morte. Como não puderam dispor de dados objetivos para comprová-la materialmente, pelo encontro do seu corpo inerte, presumiram que tivesse morrido no mar (ralado pelos remorsos, segundo o Visconde de Porto Seguro, ou ralado de desgostos, de acordo com Misael Pena)

A vigência do estado de guerra e o fracasso da missão corsária de Cavendish acumpliciaram-se, a fim de eternizarem uma simples falha de observação, dotada, no entanto, de suficiente fôlego, capaz de fazê-la atravessar os séculos e inserir-se, como verdade, na história do Brasil.

 

 

Autor:Zoel Correia da Fonseca
Fonte: Textos de História Militar do Espírito Santo – Coleção João Bonino Moreira – vol. 3
Compilação por: Getúlio Marcos Pereira Neves. Vitória, 2008.

História do ES

Capitanias ou Feudos?

Capitanias ou Feudos?

Cada vez que procuramos compreender os primórdios da nossa civilização tentamos colocar-nos no ambiente brasileiro da metade do século XVI.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Palavras que vieram da África

A influência do negro na nossa cultura foi bastante expressiva. Os hábitos e costumes africanos penetraram no nosso cotidiano

Ver Artigo
Epidemias e Ameaças - Por Serafim Derenzi

Os franceses, que ameaçaram a costa em 1551, voltaram em 1558 ao Porto de Vitória, onde dormiram 

Ver Artigo
A febre amarela no Espírito Santo em 1850

A Providência Divina vela certamente sobre a população desta Província que, sem o seu auxílio, estaria hoje extinta por falta de recursos da medicina

Ver Artigo
Varíola, cólera, fome em meados do Século XIX no ES

Já em fevereiro de 1855, um ofício do barão de Itapemirim falava em mais de mil vítimas 

Ver Artigo
Porto de Cachoeiro foi marco de crescimento

“Mas o transporte fluvial era tão importante, que a sede da colônia veio para o porto das embarcações, o Porto de Cachoeiro, que hoje é Santa Leopoldina”

Ver Artigo