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Epílogo - Viagens à Capitania do Espírito Santo

Capa do Livro - Viagens à Capitania do Espírito Santo

“Se alguns exemplares dos meus relatos resistirem ao tempo e ao esquecimento, as gerações futuras talvez encontrem neles informações de grande interesse sobre essas vastas províncias, provavelmente transformadas, então, em verdadeiros impérios... ficarão surpreendidas ao verificarem que, nos locais onde se erguerão então cidades prósperas e populosas, havia outrora apenas um ou dois casebres que pouco diferiam das choças dos selvagens; que onde estarão retinindo nos ares os ruídos dos martelos e das máquinas mais complexas ouviam-se apenas, em outros tempos, o coaxar de alguns sapos e o canto dos pássaros; que, em lugar das extensas plantações de milho, de mandioca, de cana-de-açúcar e das árvores frutíferas, o que havia eram terras cobertas por uma vegetação exuberante, mas inútil.” Auguste Saint-Hilaire (prefácio de Viagem à Província de Goiás, 1847).

 

A escrita da História, como dito pelo historiador francês Michel de Certeau, é sempre didática e magisterial, e pertence, inegavelmente, a um determinado lugar de fala(223). No caso da História do estado do Espírito Santo, não foi diferente.

Criada a partir de um determinado lugar social, um lugar de fala, a narrativa de atraso histórico do estado se alastrou por toda a população, criando raízes profundas no imaginário popular, fazendo com que esse discurso se tornasse uma determinada memória coletiva de uma comunidade imaginada.

O que se propõe, a partir da análise das narrativas dos viajantes do século XIX, é que o capixaba “viaje no tempo” a fim de compreender os constructos narrativos de caráter historiográfico e mitográfico que se estabeleceram sobre sua realidade. Compreensão “necessária pelo fato de estarmos aqui diante do problema da natureza mesma de nossa vida política. Trata-se da concepção e da prática da cidadania entre nós, em especial entre o povo”(224).

Tal constructo narrativo, arraigado no imaginário coletivo se espalhou entre os anos iniciais da república, principalmente entre 1890 e 1920, e desenvolveu na elite política e intelectual do país um amplo desejo pelo desenvolvimento estrutural da nação, atrelando, invariavelmente tal avanço às demandas do processo civilizador. A aclamação pela renovação dos ambientes urbanos passou a ser uma pauta predominante nos debates, e termos como progresso, arcaico, futuro, regeneração, saneamento, desenvolvimento e civilizado, passaram a compor o vocabulário daqueles frentes à nação, isso porque “a república era aí vista dentro de uma perspectiva mais ampla que postulava uma futura idade do ouro em que os seres humanos se realizariam plenamente no seio da humanidade mitificada”(225).

Ao fim, a chegada do século XX, com todo seu aparato técnico-científico urbano fez-se presente, e a cidade do Rio de Janeiro foi a primeira a sentir a força do golpe do martelo do progresso. Ruas, praças, avenidas, parques, quarteirões e vilas inteiras foram remexidas e postas abaixo. A cidade virou um imenso canteiro de obras a céu aberto. Por meio das mãos de milhares de trabalhadores a cidade se transformou, e entre os anos de 1903 e 1906 a dinâmica da cidade mudou, fazendo com que aquele Rio de Janeiro colonial passasse a ser chamado de a "Paris brasileira".

O tilintar das picaretas e martelos que "esmagavam", "trituravam" e "transformavam" o passado colonial brasileiro em aterro e pó reverberou pelo Brasil, preenchendo o ar com “progresso” e dominando as mentes republicanas com o sentimento de nova “ordem”, tudo isso porque “a história é feita então em nome do futuro e deve ser escrita do mesmo modo. O movimento futurista [no qual incluo os republicanos positivistas brasileiros] estimulou essa postura ao extremo”(226).

Sendo vizinho e espectador das mudanças que ocorriam na capital da nação, o capixaba foi deveras acometido pelo seu sentimento de pequinês frente ao novo mundo e a nova era que chegava ao Brasil pelos portos cariocas e que passavam ao largo da realidade imposta a esse estado. Há muito herdeiro de uma chusma de afirmações que lhe incutiram a “verdade histórica” de atrasado, o Espírito Santo pegou carona no carro da história e produziu, como foi comum nesse início de século XX, uma narrativa que buscava legitimar um conjunto de práticas e ações da elite política a fim de produzir um “novo” presente, que ao contrário da herança colonial, levaria o estado a um “futuro esperançoso”, como afirma o próprio hino capixaba.

Segundo José Carlos Reis a construção de narrativas regionais, legitimadoras de um conjunto de práticas políticas e identitárias foi algo relativamente normal na história do Brasil, produzindo passados gloriosos ou trágicos a fim de produzir um sentimento de união e de ideal em uma dada localidade. Na obra Identidade do Brasil 3, (227) Reis elenca algumas das narrativas elaboradas com esse objetivo, dando destaque: à narrativa carioca do “tempo saquarema”; à paulista do “tempo bandeirante”; gaúcha, por ele chamada de “tempo farroupilha” e que Jeferson Teles Martins chamou de “narrativa lusitana”(228); pernambucana do “tempo confederador”; além dos “tempos amazônida-igaraúna”, e “tempo inconfidente”. Se fossemos incluir a capixaba nesse contexto de compreensões de tempo histórico na matriz brasileira, certamente a “narrativa histórica de superação do atraso” seria evidenciada dentro desse conjunto de compreensões dos tempos brasileiros.

Inegavelmente a compreensão da construção da narrativa histórica do atraso perpassa pela análise das narrativas regionais. A descentralização de uma história geral do Brasil para uma história plural do Brasil, como proposta por Reis, desmitifica e desmonta o elemento padronizador do país e proporciona uma leitura que leva em conta a pertinência das especificidades, tornando possível a visualização de múltiplos Brasis contidos em um Brasil. É dentro dessas leituras que se insere o caso capixaba.

Cada narrativa constituída na regionalidade brasileira fundamentou-se em um tipo de horizonte de expectativa para o século que nascia - no caso o XX. No caso capixaba a superação de um atraso histórico do desenvolvimento é o mote central da narrativa. A herança de uma visão de atraso é fruto de expedientes como o emitido pelo governador Inácio de Acioli em 1824, onde afirma que “é preciso enfim que S. M. Imperial esteja cabalmente ciente de que esta Província é a mais miserável do Império: não tem agricultura nem comércio: seus habitantes são pobríssimos”(229) ou pelo presidente de província Pedro Leão Veloso, que em seu relatório redigido às vésperas da visita imperial à província - 1860 - discorre que:

 

tenho gostado da terra em relação ao clima e à gente que não é má, mas acho-a sumamente atrasada em todos os sentidos; vivesse mal porque sobre ser a vida muito cara falham todas as vantagens de um país civilizado(230).

 

A visualização do reflexo desses constructos sociais em uma dada sociedade dá-se por meio de seus mitos, emblemas e sinais, que se encontra alicerçada em um aparato retórico que insiste em construir um modelo historiográfico ancorado na história-memória, retórica essa constituída a partir de uma geração em que “a nação é para eles ao mesmo tempo uma evidência, uma arma política, um esquema cognitivo e um programa histórico”(231).

Essa condição introspectiva de atraso enraizada no imaginário capixaba, e presentificado de maneira permanente, se perpetua discursivamente pelo fato de que os elementos representativos dos mesmos são protegidos ou guardados por um conjunto da sociedade que funciona como uma polícia do discurso, como proposto por Michel Foucault(232), retroalimentando tal perspectiva. É possível encontrar tais mediadores tanto no campo intelectual, por meio de obras, efemérides, biografias e histórias(233); quanto no campo político, por meio de seus slogans e jargões do tipo: “construindo hoje o amanhã”, “Construindo o futuro”, “novamente no caminho certo”, “no caminho do progresso”, entre tantos outros mais; ou até mesmo na população mais desfavorecida, que em sua compreensão, a ausência de serviços fundamentais representa que a república não se promoveu de maneira completa.

Dentro desses quadros podemos estabelecer como elementos analíticos da perpetuação da narrativa de superação do atraso, entre diversos, os mesmos que François Hartog utilizou para analisar a sobrevivência da memória revolucionária na França e que José Murilo de Carvalho lançou mão ao analisar o estabelecimento da república no Brasil, quais sejam: bandeira, hino, brasões e heróis; ou seja, um conjunto de simbologias que busca a apropriação e utilização de representações coletivas, haja vista que

 

os extravasamentos das várias visões de república para o mundo extra-elite, ou as tentativas de operar tal extravasamento [...] não poderiam ser feito por meio do discurso, inacessível a um público com baixo nível de educação formal. Ele teria de ser feito mediante sinais mais universais, de leitura mais fácil, como as imagens, as alegorias, os símbolos, os mitos. [...] Tratava-se de uma batalha em torno da imagem do novo regime, cuja finalidade era atingir o imaginário popular para recriá-lo dentro dos valores republicanos(234)

 

Certamente a principal representação narrativa mitográfica que podemos elencar como exemplo detentor de um papel fundamental para a legitimação da historiografia do atraso é o herói, que no caso capixaba está alicerçado sob o busto de Domingos José Martins. Segundo José Murilo a exaltação a uma figura mítica, heroica, é pertinente e necessária, pois essas são capazes de “atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos”(235).

No caso da representação mítica a nível nacional, houve todo um esforço em torno da figura de Tiradentes, haja vista que os “criadores” da república não eram identificados como sujeitos do povo, vide Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, entre tantos outros. Todos os elementos ligados a um determinado grupo da elite Imperial, seja militar, seja oligárquica, e para José Murilo, “herói que se preze tem de ter, de algum modo, a cara da nação [..] [pois] na ausência de tal sintonia, o esforço de mitificação de figuras políticas resultará vão”(236).

O fato é que no Espírito Santo foi escolhido um personagem local que possuiu, em algum momento da história, alguma relevância política que atendesse os anseios daqueles que estavam poder e Domingos José Martins caiu-lhes como uma luva. A partir da institucionalização desse personagem como “o” grande cidadão capixaba, toda a simbologia passou a girar em sua órbita.

Domingos Martins representava o anseio de libertação dos grilhões do passado que sufocavam o povo. Sua participação na Revolução Pernambucana de 1817, que possuiu caráter republicano, demonstra a insatisfação do projeto arcaico que se mantinha sobre o país. E acima de tudo, sua bravura demonstrava a fibra do povo capixaba, que declara ao Brasil que “verás que um filho teu não foge a luta”.

Com a elevação de Domingos Martins ao panteão de heróis da nação, a simbologia capixaba passa a ser instrumentalizada. Um busto de bronze é constituído em sua homenagem e instalado na praça lateral à sede do governo estadual. O brasão de armas capixaba conta com a data de sua execução, após a debandada da revolução - 12 de junho de 1817. E o ápice desse elemento afirmativo é a renomeação do município de Santa Isabel como Domingos Martins em 1921.

No entanto, qual é o papel de Domingos Martins nesse conjunto narrativo acerca do atraso? Aparentemente nenhum. No entanto, com um olhar um pouco mais cirúrgico, pode-se enxergar entre as frestas do panteão cívico nacional que esse personagem representa, aos olhos daqueles que o escolheram para tal posição, a tentativa de abandono das “velhas” práticas políticas, pois a monarquia representa o atraso e a república é o bastião da liberdade, e a escolha desse, e não de outro, se dá pelo fato do mesmo se constituir como sujeito do povo.

Entretanto, existem algumas páginas da história que devem ser analisadas mais de perto... Em pesquisa recente, Bruna Breda Bigossi questiona esse passado heróico do suposto capixaba Domingos José Martins. Isso mesmo... Suposto. Segundo análise de Bigossi, Domingos Martins é um constructo imaginário idealizado nos salões do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo(237), um elemento alegórico que contribuiu para a constituição de um determinado lugar de fala com objetivos claros de afirmar a narrativa republicana e que a posteriori foi tomado com fins outros, o de combate e de superação do atraso.

Afirmada a partir de um conjunto simbólico e mítico, a narrativa histórica de superação do atraso se alastrou pelo sentimento capixaba da mesma forma que a ideia de regeneração atingiu o Rio de Janeiro e a paulistanidade traspassou o estado de São Paulo. As tradições mitográficas pululavam a mente dos republicanistas assim como o medo do regresso monarquista. A fundação da república demandou, aos olhos dos mais apaixonados do movimento, a refundação do Brasil. Paixões e mitos herdeiros de uma tradição monárquica foram execrados de seus bastiões e novos heróis foram entronados.

Ao fim e ao cabo, a história do Espírito Santo acabou por alicerçar-se muito mais sobre elementos mitográficos do que historiográficos propriamente ditos. A construção de uma identidade e de um sentimento de pertencimento universal a uma nova nação levou os republicanos capixabas, que se entrincheiraram sob as asas do Instituto Histórico, a reformularem o presente das terras capixabas a fim de apagar um passado monárquico recente.

Com todo o exposto compreende-se que a sobrevivência da narrativa do atraso se dá pelo fato de que a concepção da temporalidade moderna, ou da modernidade, ainda não foi superada por aqueles que policiam os discursos mitográficos no Espírito Santo, e a não superação da própria narrativa é o elemento comprobatório dessa nossa hipótese.

Essa compreensão moderna do tempo “prende” o Espírito Santo em um passado que se torna permanente, ou seja, quando aqueles que estabeleceram os alicerces da república optaram por um “novo tempo” acabaram por inserir o estado em um presente permanente que se sustenta na necessidade perene de superar o atraso que se abate sobre essa terra. É a apropriação prática do passado a fim de estabelecer elementos que caracterizam o atraso com fins de construir um presente que seja artífice de uma nova realidade que pavimente o caminho para o futuro deleitoso. No entanto, essa própria concepção dos usos da história e do passado rendeu ao Espírito Santo um “loop temporal” no qual o lema “trabalha e confia” se tornou o fardo de Sísifo, que é pesado, árduo e com um objetivo inalcançável.

Hoje, se fizéssemos uma comparação com uma antiga propaganda que afirmava que “o tempo passa, o tempo voa”, acertadamente poderíamos afirmar, a partir da compreensão de temporalidade daqueles que perpetuam as narrativas históricas, que nem sempre, afinal a constituição de algumas narrativas históricas contribuem, mesmo que de maneira indireta, para a sobrevivência do passado em nosso presente, passado esse que não passa e que acaba por se estabelecer como “verdade histórica”, e esse é, definitivamente, o caso capixaba. Assim sendo, está o Espírito Santo legado a um eterno atraso?

O que de fato constitui parâmetro de identificação do atraso? Atrasado em comparação a quem ou a o que? De fato o tempo até ‘voa’, como metaforicamente anuncia o comercial, porém passar, pelo que até aqui podemos ver, é uma questão para outra hora...

A nosso ver, para que tal concepção de atraso se dilua no imaginário do capixaba é necessária a construção de uma nova realidade histórica dos sujeitos, que perpassa, indispensavelmente, pela admissão de que o Espírito Santo é, assim como os demais entes da federação, um estado com obstáculos e desafios históricos, e que isso não se constitui como atraso, mas sim como demandas de aperfeiçoamento social.

Para tanto, se compreende que a análise crítica de nosso passado histórico pode vir a contribuir de maneira significativa, e as narrativas dos viajantes constituem parte desse corpus informacional, que a despeito das demandas locais, sempre teve a visão de que o Brasil era atrasado, uma herança nefasta do processo civilizador do século XIX e que o capixaba agarrou com unhas e dentes, e que hoje possui uma dificuldade homérica de abandonar, ou seja, um passado que não se deixa passar e que se sustenta em uma narrativa de superação que hoje já se encontra atrasada.

O fato é que os discursos apoiados nessa primazia de atraso “esquecem” de informar que o Brasil, em sua grande maioria, estava na mesma situação econômica e administrativa. Esse tipo de discurso ocupou lugar não somente no Espírito Santo, mas no Brasil, principalmente após a Proclamação da República, onde aqueles que passaram a ocupar o poder desejavam produzir um esquecimento, o do Brasil Monárquico. Um tipo de produção discursiva que buscava ao fim, segundo Valdei Lopes de Araújo,

 

que a relação com o passado moderno não podia mais estar sustentado por uma familiaridade - falsa - que entendia a história independente do Brasil como formando uma grande narrativa de sua incapacidade para o moderno, o reconhecimento de um abismo crescente entre sua situação atual e a consciência histórica normalizada nas retóricas do atraso(238).

 

Então, pensar o “atraso histórico” do Espírito Santo a partir das narrativas dos viajantes estrangeiros nos permite questionar o lugar de fala daqueles que, de maneira indireta, impuseram essa perspectiva. Partindo da premissa de que até o ano de 1808 o Brasil se constituía como uma colônia, e que somente a partir da chegada da família real portuguesa à terras coloniais é que alguns parâmetros sociais e econômicos começaram a se reconstituir, ou até mesmo surgir, é fato que não somente o Espírito Santo, mas a maior parte do território colonial, era sim marcada por um atraso significativo imposto principalmente pelas rédeas do pacto colonial.

Algumas cidades maiores, ou de maior influência, possuíam alguns melhoramentos urbanos frente as demais, a exemplo de Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Vila Rica, as demais estavam envolvidas no processo colonial de produção e extração de produtos primários destinados a abastecer a Metrópole.

Assim como no Espírito Santo, a maior parte do território colonial estava voltada à produção de açúcar, madeira, especiarias, entre outras demandas de Lisboa, e viviam de uma agricultura de subsistência, apoiada na mão de obra escrava predominantemente de origem africana.

 

Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro, diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu(239).

Uma vasta empresa colonial, como afirma Caio Prado Júnior em sua obra Formação do Brasil Contemporâneo (1969). Segundo o autor,

 

no seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos(240).

 

O vazio demográfico também não era uma característica exclusiva do território capixaba. A baixa densidade populacional frustrava as tentativas de ocupar o sertão brasileiro, dado que inúmeros eram os perigos que cercavam esses territórios, privando, corriqueiramente, a vida de vários exploradores, como foi o caso de Manuel Ramalho, o primeiro capixaba a receber autorização do governador geral para empreender uma entrada aos sertões da capitania (1553). Tal situação tornou-se ainda pior a partir da união dos territórios ibéricos e com o Tratado de Madri de 1750, que ratificou a base do atual formato territorial brasileiro.

Para Fernando Cézar de Macedo:

 

O período até a primeira metade do século XIX se apresenta em larga medida como uma afirmação da força das estruturas que dominavam a relação entre os territórios coloniais e Portugal, e que, no caso do Espírito Santo, aparece sob o signo de um crescimento esparso, sem adensamento populacional ou comercial de maior vulto.(241)

 

Discorrido dessa forma o contexto em que estava inserido, podemos olhar mais atentamente para o caso o Espírito Santo colonial.

Em uma análise da distribuição geográfica dos engenhos de açúcar em território espírito-santense, Antônio Carlos S. Gomes afirma que:

 

O manuscrito que retrata o engenho N. S. da Paz (fl. 45), aponta para a presença de técnicos no ofício de mestre d'açúcar, mestre de obras de pedreiro e carpinteiros e até juiz, reforçando a ideia de um Espírito Santo dinâmico e organizado, muito diferente do retratado pela historiografia que insiste em apresentá-lo enquanto decadente, infeliz ou azarado por força de donatários ausentes(242).

Essa vocação para uma longa e larga fronteira agrícola acaba por favorecer, posteriormente, o Espírito Santo com o advento das plantações cafeeiras.

O fato é que se comparada diretamente às demais capitanias e províncias que o cercaram, o Espírito Santo acaba, definitivamente, caindo em uma malha de atrasos. No entanto, analisemos por um breve momento as condições fornecidas às mesmas.

Em primeiro lugar a Bahia. Durante o início do processo colonizador firmou-se como capital, sede do governo geral do Brasil. Durante os séculos XVI a XVIII era o principal centro de representação do poder real. Acentuou ainda mais a sua influência a partir do momento que as lavouras de açúcar rapidamente se alastraram pelo Nordeste, tornando Salvador o principal porto de escoamento desse produto em direção a Europa.

Já em segundo lugar tem-se o Rio de Janeiro. Com a expansão das fronteiras territoriais o porto do Rio de Janeiro passou a ser um dos principais pontos de parada para abastecimento para aqueles que buscavam atingir a parte mais ao sul da colônia. Com a descoberta do ouro no interior do Brasil a capital é transferida de Salvador para o Rio de Janeiro a fim de estabelecer uma alfândega com o objetivo de melhor administrar o escoamento da riqueza, além de diminuir o contrabando. A presença do ouro de Minas Gerais, além de uma massa burocrática, transformou o Rio de Janeiro em uma grande cidade.

Por fim, Minas Gerais. Devido ao elevado índice de riquezas minerais presentes em seu solo, Minas ganha destaque durante o século XVIII. Os investimentos reais na região são vultosos com o objetivo de defender o rico território. A massa populacional que se desloca das demais capitanias para o interior da colônia, atingindo até mesmo Goiás, é gigantesca, todos atiçados pela febre do ouro(243).

Exposto esse contexto, deve-se resgatar as proposições do historiador capixaba Fernando Achiamé. Sobre essa delicada posição em que se encontrava a capitania do Espírito Santo o autor realiza a seguinte proposição:

 

É lugar-comum na historiografia espírito-santense a afirmação de que, durante o século XVIII, a capitania do Espírito Santo serviu como barreira para evitar os caminhos em direção às minas e, assim, os descaminhos do ouro; e de que essa ação deliberada por parte da Coroa Portuguesa - fortificando Vitória , por exemplo – foi causadora do atraso econômico e isolamento territorial da capitania, com reflexos na vida socioeconômica da província e do estado. Se, em linhas gerais, o posicionamento está correto, os pesquisadores nunca registraram o outro lado da questão. A partir dessas medidas político-administrativas da metrópole, a capitania do Espírito Santo - governada militarmente por capitães-mores em quase todo o referido século - teve garantida sua sobrevivência como unidade política. Não se levam em conta os desaparecimentos das outrora importantes capitanias de Porto Seguro e Ilhéus - incorporadas à Bahia - e de São Tomé, assimilada ao Rio de Janeiro. Assim, na extensa costa entre as cidades de Salvador e do Rio - as duas capitais da colônia brasileira -, somente o Espírito Santo permaneceu como ente político(244).

 

Preso entre duas capitais e uma “imensa mina de ouro”, o Espírito Santo acaba sendo “recolhido a sua pequinês”, no entanto, esse relativo desfavorecimento político-econômico frente aos nossos gigantes vizinhos, não corresponde à realidade se comparada às demais regiões da colônia.

O fato é que as expedições científicas estrangeiras do século XIX, e que posteriormente tiveram uma renovação no início do século XX com cientistas brasileiros, evidenciaram o fato de que os brasileiros não conheciam o Brasil.

A percepção em pleno século XIX de toda uma imensa massa territorial a ser explorada se evidenciava a cada passo, a cada espécie da flora e fauna recolhida, a cada contato com índios ainda em “estado selvagem”.

Os retratos do Brasil, fixados em belíssimas telas de Rugendas, Debret, Thomas Ender, Taunay, entre outros, revelam a dimensão do Brasil e o pouco que ele era ocupado. Pinturas que revelam, apesar de todo o preconceito civilizatório daquele que formulou a imagem, o quanto tínhamos de rural e tropical, e o pouco de industrial e europeu que éramos. As próprias expedições de Roquette Pinto, já na década de 1910, demonstravam que o Brasil ainda não havia chegado a todo Brasil.

Nesse contexto os relatos de Maximiliano de Wied-Neuwied (1816) e Auguste de Saint-Hilaire (1818) são de significativa relevância para a compreensão das mudanças ocorridas no Espírito Santo e em outras áreas do Brasil ao dos os séculos XIX e XX. Se a ocupação territorial era um problema no período das primeiras expedições científicas estrangeiras, dificultando dessa maneira a mobilidade e o acesso a áreas de grande relevância para a pesquisa, hoje, duzentos anos depois, essa realidade já não é presente. Na capital da capitania, onde havia em 1818, segundo Saint-Hilaire, cerca de 4000 habitantes, há, segundo estimativas do IBGE, mais de 363.000 pessoas, o que contribui para uma densidade demográfica estadual de aproximadamente 76 habitantes por km². Áreas anteriormente totalmente desabitadas e dominadas pelos índios, como era o caso do trecho compreendido entre a Fazenda Muribeca e a vila de Itapemirim, hoje abriga os municípios de Presidente Kennedy e Marataízes.

As regiões de Linhares e São Mateus, que antes ficavam há 10 dias da capital, em uma viagem realizada exclusivamente pelo litoral, hoje é feita em aproximadamente duas horas(245) pelas estruturas viárias que cortam o estado de norte a sul.

Em localidades que anteriormente não passavam de meros quartéis hoje florescem verdadeiras cidades, como é o caso de Barra do Riacho e Regência. Regiões ao norte do estado que floresceram, principalmente a partir da década de 1920, com a expansão da fronteira do café e da extração das chamadas madeiras de lei, deixando claro que “no início do século XX essa vasta região estava saindo de um longuíssimo período colonial”(246).

Os processos de urbanização e industrialização que se alastraram pelo Brasil a partir dos anos 1870 e que culminaram com os grandes projetos sanitaristas da década de 1910 também atingiram o Espírito Santo. Reformas das áreas urbanas da capital levaram a inserção de bondes, linhas férreas, parques, grandes jardins, alargamento de vias e sistemas de esgotamento sanitário.

Também fomos cenário fulgurante dos chamados “Milagres econômicos” das décadas de 1930, com a inserção da Companhia Vale do Rio Doce; da década de 1960 com os projetos de expansão da malha viária e modernização do porto; e por fim da década de 1970, com a implantação de grandes empreendimentos industriais, tais como CST, Aracruz Celulose e Samarco(247).

Enfim, aquela capitania que figurava como “abandonada”, quase como que desabitada no período das expedições científicas, despontou com o crescimento social, econômico e político, e apesar de todas as dificuldades, hoje, não somente aos novos viajantes, mas também àqueles que essas terras habitam, o discurso de atraso deve ser deixado de lado, buscando compreender as diversas etapas de desenvolvimento de uma sociedade, seu tempo e o contexto que ela está inserida.

Apesar dos pré-conceitos que cada um possui, e dos discursos incutidos no imaginário social, uma coisa é certa! O passado nos permite até certo ponto questionar as construções no presente. Assim, àqueles que desejam empreender novas expedições ao Espírito Santo e escrever novas visões dessas terras frente a esse panorama. Boa viagem!

 

NOTAS

(223) Cf. CERTEAU, Michel de. A escrita da história. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

(224) CARVALHO, José Murilo. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 10.

(225) Idem. A formação das almas: o imaginário da república do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 9.

(226) HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2014, p. 141.

(227) Cf. REIS, José Carlos. Identidades do Brasil 3: de Carvalho a Ribeiro: história plural do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2017.

(228) Cf. MARTINS, Jeferson Teles. A questão da identidade regional: historiografia e a definição do “campo” historiográfico rio-grandense. In.: Anais X Encontro Estadual de História ANPUHRS, Santa Maria, RS, 2010.

(229) OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 3 ed. Vitória: APEES/ SECULT, 2008, col. Canaã v. 8, p. 329.

(230) ROCHA, Levy. Viagem de Pedro II ao Espírito Santo. 3 ed. Vitória: APEES/ SECULT, 2008, col. Canaã v. 7, p. 46, grifo nosso.

(231) HARTOG, François. Regimes de historicidade... Op. cit., p. 170, grifo nosso.

(232) Cf. FOCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Còllege de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 24 ed. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 2014, Coleção leituras filosóficas.

(233) Para ver como o campo intelectual retroalimenta as narrativas históricas e fomenta a presentificação de um passado há muito descolado da atual realidade capixaba ver: NASCIMENTO, Rafael Cerqueira do. A narrativa histórica da superação do atraso... Op. cit. Nesse trabalho Rafael Cerqueira demonstra como as obras de José Teixeira de Oliveira, Neida Lúcia, Maria Stella de Novais e Gabriel Bittencourt colaboram para corroboração de tal construção.

(234) CARVALHO, José Murilo. A formação das almas... Op. cit., p. 10.

(235) Ibidem, p. 55.

(236) Ibidem.

(237) Cf. BIGOSSI, Bruna Breda. Domingos José Martins: a Invenção de um herói para os capixabas no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-graduação em História Social das Relações Políticas, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2018.

(238) ARAÚJO, Valdei Lopes. História dos conceitos e história da historiografia: um percurso brasileiro. In.: BENTIVOGLIO, Julio; NASCIMENTO, Bruno César (org.). Escrever História: Historiadores e Historiografia Brasileira nos Séculos XIX e XX. Serra: Editora Milfontes, 2017, p. 46.

(239) PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. 9. ed. São Pulo: Editora Brasiliense, 1969, p. 31-32.

(240) Ibidem, p. 31, grifo do autor.

(241) MACEDO, Fernando Cézar de. História econômica e organização espacial: o caso capixaba. Vitória: Gráfica e Editora América/ IHGES, 2013, p. 17.

(242) GOMES, Antônio Carlos Sant Ana; REIS, Fábio Paiva. Cartografia histórica, estudos capixabas. Vitória: IHGES, 2013, p. 42-43, grifo nosso.

(243) Talvez o único movimento migratório idêntico, e que seja comparável com aquele ocorrido no Brasil no século XVIII, seja a marcha para o oeste nos EUA durante o século XIX, onde a corrida pelo ouro tornou-se uma febre em grandes cidades do leste estadunidenses.

(244) ACHIAMÉ, Fernando A. M. O Espírito Santo na era Vargas (1930-1937). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 50-51, grifo nosso.

(245) No caso de Linhares. São Mateus um pouco mais ao norte demanda cerca de três horas.

(246) ACHIAMÉ, Fernando A. M. O Espírito Santo na era Vargas (1930-1937)... Op. cit. p. 53.

(247) para maiores informações a respeito dos projetos econômicos desenvolvidos no Espírito Santo ver: RIBEIRO, Luiz Cláudio M.; QUINTÃO, Leandro do Carmo; FOLLADOR, Kellen Jacobsen; FERREIRA, Gilton Luis. Modernidade e modernização no Espírito Santo. Vitória; Edufes, 2015; BITTENCOURT, Gabriel. Indústria: a modernização do Espírito Santo. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 2011; MACEDO, Fernando Cézar de. História econômica e organização espacial: o caso capixaba. Vitória: Gráfica e Editora América/ IHGES, 2013.

 

PRODUÇÃO

 

PAULO CESAR HARTUNG GOMES

Governador do Estado do Espírito Santo

 

CÉSAR ROBERTO COLNAGO

Vice-governador do Estado do Espírito Santo

 

JOÃO GUALBERTO MOREIRA VASCONCELLOS

Secretário de Estado da Cultura

 

RICARDO SAVACINI PANDOLFI

Subsecretário de Gestão Administrativa

 

CILMAR CESCONETTO FRANCESCHETTO

Diretor Geral do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo

 

AUGUSTO CÉSAR GOBBI FRAGA

Diretor Técnico Administrativo

 

Conselho Editorial

Cilmar Franceschetto

João Gualberto Vasconcellos

José Antônio Martinuzzo

Michel Caldeira de Souza

Rita de Cássia Maia e Silva Costa

Sergio Oliveira Dias

 

Coordenação Editorial

Cilmar Franceschetto

 

Coordenação de Arte

Sergio Oliveira Dias

 

Revisão Ortográfica

Jória Scolforo

 

Projeto Gráfico e Capa

Alexandre Alves Matias

 

Agradecimentos

Grupo de Trabalho Paisagem Capixaba

 

Impressão e Acabamento

Gráfica Dossi

 

Fonte: Viagens à Capitania do Espírito Santo: 200 anos das expedições científicas de Maximiliano de Wied-Neuwied e Auguste SaintHilaire/ 2. ed. rev. amp. Vitória, Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2018
Autor: Bruno César Nascimento
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2020

 

 

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