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Eu, Licantropo - Parque Moscoso

Parque Moscoso, 1981

1 Ela diz que sou, diz que sou e para me distrair inicia conversas sobre assuntos que nem ouso discutir — queria meu interesse dirigido a futebol e chopes, talvez até cinema ou bons livros, mas isso me tornaria um homem dotado de perigosa normalidade. Não me passa pela cabeça a tórrida rotina de um ótimo emprego, nem a ideia da paternidade, mesmo porque meus hormônios se movimentam num outro ritmo, e isso ela compreendeu rapidamente.

Ela diz que sou e repete: então, me acostumo.

Meu círculo de amigos nem chega a círculo: é ela quem me auxilia em meu tortuoso trabalho de sexta-feira, apenas ela, com seus olhos que parecem estar sempre numa órbita que desafia a Física, e são muito verdes em contraste com a cor pálida de seu pequeno corpo. É tão amiga que me leva a passeios durante a tarde — horário que abomino nesta época de calor. Encosto-me num carro estacionado e olhamos, juntos, o que acontece. Nada, nada acontece durante o tempo em que eu sou apenas uma estranha composição de carne, pele, ossos e más atitudes. Mas ela me diz — ah, o consolo — que hoje é sexta-feira, a lua um imenso olho no céu, e que haverá comida.

2 O Parque Moscoso é o porão da cidade, ela diz, enquanto me ajuda na escolha do vestuário: óculos para a noite, terno de azul firme e sapatos de couro grosso, confortáveis. Mostro lhe meu amor ao deixar que me penteie os cabelos ainda ralos, ao permitir que cuide de minhas unhas e meus dentes. Nunca se esquece da gravata, afirmando que um homem como eu deve tê-las sempre limpas e bem passadas. Acendo um cigarro, tragadas fortes, enquanto ela me olha. Sei que no íntimo ela tem pena de mim, mas sabe fingir o contrário. Observo seu rosto, as maçãs muito brancas, o queixo suave que eu beijo, antes de ir à tarefa.

3 Na verdade sou um sentimental que mal sabe organizar o tempo. Há quarenta anos vivo este ar, meio névoa da noite e é sempre assim que acontece: inicio minha caminhada pelas ruas do Parque, observo rostos e corpos, especulo sobre o peso, carnadura e cor. Não quero a cor branca — como a da amiga —, tão triste em contato com o vermelho do sangue ou as manchas, hematomas. Recuso corpos magros e de pouca altura. Também não gosto de crianças: prefiro estruturas plenamente formadas. Antes, há muito tempo, era fácil escolher: as pessoas insistiam em passeios noturnos, sempre às primeiras horas da noite, a satisfação do andar a dois, namorados de mãos dadas, senhores de meia idade, jovens indo à escola. Cortavam as ruas em passos lentos, presas fáceis que eram meu alimento, minha proteína.

Hoje não.

Ando pela Marcos de Azevedo, em direção ao coração do Parque. Gente que volta para casa, apressada, um contido medo nas pernas porque há a raça de ladrões, assaltantes. Ah, diletantismo! Entro na 23 de Maio, acendo outro cigarro e me vem a imagem da amiga: diz que devo evitar o tabaco porque enfraquece meu fôlego e minha disposição. Aglomerado: criaturas na fila do Cine São Luiz. Evito-as, embora tenha certeza de que encontraria ali um tenro cardápio para minha fome, mas haveria correria, gritos e minhas experiências anteriores comprovam que nenhuma vantagem há no desespero. Alterações na química do corpo tornam a carne intragável, sem sabor. Corto à esquerda para encontrar a Cleto Nunes sombria, algumas pessoas sob a proteção de dois soldados que andam calmamente. Só rindo. Ninguém está protegido. Há uma moça à espera de um ônibus que não vem. Estatura média, corpo cujo formato não posso adivinhar porque nada expõe sob o jeans e a camisa que é larga demais. Cor de índia. Os soldados passam por ela, passam por mim. Um outro homem se aproxima, Bíblia na mão, a face magra e os olhos de quem deveria enxergar apenas Jesus e anjos, mas que rutilam ao ver a garota. Pauso minha caminhada, meu estômago ruge, minhas mãos suam, os pêlos querem crescer, mas me contenho porque o ônibus chega e a frustração entra em mim e no escudeiro de Deus. Olho seu corpo — é esquelético e sua palidez me enjoa. Merece a morte.

4 A avenida República, meu primeiro ambiente. Hoje sem o humor de homens e álcool, de poetas, de visionários que admiravam a minha lua. Hoje sem a ebulição festiva do bar Dominó, das belas estudantes de inglês que deixavam o Labuto's e vinham a mim, o brilho dos olhos, pouco medo mas muita surpresa. Aqui poderia ter feito amigos e não vítimas, homens e mulheres que despedacei.

Vem o meu primeiro uivo, que não evito. Dois rapazes ouvem, um deles aponta, mas nada acontece. Haverá outro urro em dois minutos.

Há uma certa tristeza: cada um em seu cárcere — pessoas nos prédios, animais no parque e eu, liberto em noites de sexta e lua cheia, cheio de veneno na alma e faminto.

5 Apresso meu passo até chegar à antiga rodoviária. São nove da noite e fiz o percurso que sempre me trouxe sorte e hoje não será diferente. Vejo ao longe a enorme vítima: um homem alto, moreno, bem vestido, que também apressa o passo, certamente pensa na esposa em cujo corpo se recostará. Vislumbrará o sono dos filhos, na geladeira uma cerveja, um banho generoso. Depois, televisão e planos de acordar no sábado bem cedo, compras no supermercado, encontro com os amigos, lazer para as crianças, beijos na fêmea — tudo aquilo que não tenho e não terei. Minhas presas afiadas, os olhos vermelhos cheios de puro sangue, meus pulsos fortalecidos, a saliva e mais um uivo, que congela o parque. Ele se aproxima de meus dentes, enquanto penso que o Parque Moscoso é mesmo o porão do mundo, como disse a amiga, que me espera em seu sofrimento de sempre, mas que sabe que essa é a única forma de eu poder amar.

 

Fonte: Escritos de Vitória nº 6 - Parque Moscoso, PMV e Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo, 1994
Autor do texto: Francisco Grijó
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2019

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