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Excentricidades na Paisagem de Vitória - Por Ormando de Moraes

Morro Jesus de Nazareth -Foto tirada do Morro da Ucharia, 2014

Os primeiros navegantes portugueses e de outras origens, que aqui aportaram na fase mais intensa dos descobrimentos, devem ter ficado surpresos com a beleza de nossas paisagens, especialmente em Vitória e imediações.

Certamente elas são muitas e variadas por esse mundo de Deus, mas, aqui, a natureza foi pródiga em oferecer ao homem belezas e mais belezas, que se sucedem de forma surpreendente.

Vigiadas e protegidas, a pouca distância, por ilhotas povoadas de andorinhas, praias de brancas areias, beijadas eternamente pelas ondas, ora se estendem retilíneas por longas distâncias, ora são caprichosamente recortadas e decoradas por formações rochosas que quebram sua monotonia.

Quando menos se espera, uma reentrância revela a existência de tranqüila enseada adequada ao lazer, ao descanso ou esporte, a foz de um rio que vem, com suas águas doces, prestar obediência e dar sua contribuição ao mar grandioso, ou a entrada de uma baía tranqüila, onde os navios vêm lançar suas âncoras e os marinheiros desfrutar de algum contato humano.

Como esta Baía de Vitória, que tem a resguardá-la e a emoldurá-la pelo lado esquerdo de quem entra, o Morro do Moreno, o do Convento da Penha, o Penedo, o Morro da Capuaba e a Pedra do Oratório, e, pelo lado direito, um tanto mais afastados das águas, a Pedra dos Dois Olhos e os Morros da Capixaba, da Televisão, da Fonte Grande, do Moscoso, do Quadro e do Romão, formando uma série de paisagens embelezadas por um resto de Mata Atlântica.

O homem também, com engenho e arte, pode criar paisagens ou facilitar que as já existentes sejam melhor observadas e admiradas. É o caso, por exemplo, da que se descortina do vão central da Terceira Ponte, na direção do interior, principalmente nas manhãs de sol e de água bem tranqüilas: é de rara beleza.

A própria ponte, à noite, com suas luzes, como se fosse um diadema emoldurando a entrada da baía, compõe uma paisagem nova, criada em parte pela mão do homem e por ele mesmo aos poucos escondida, em virtude dos exagerados espigões que ao norte se levantam.

Mas, de minha parte, prefiro as paisagens que a natureza nos oferece e me provocam ternas recordações, ou sugerem idéias e juízos a respeito do comportamento humano.

Quando em trânsito daqui para Guarapari, se descortinam os trechos mais longos das praias entre as duas cidades, logo me vem á mente a figura humilde do santo Padre Anchieta, viajando a pé, incansavelmente, de um lugar a outro.

A cordilheira ao fundo de nossa baía, que se observa muito bem do alto da Terceira Ponte, me faz lembrar das gostosas viagens nos trens da Estrada de Ferro Leopoldina, de Cachoeiro de Vitória, conversando com a namorada, apreciando belas e sucessivas paisagens e comendo pastel de palmito nas estações.

Embora se estendessem de sete da manhã às três da tarde, aquelas viagens me pareciam de uma rapidez insuportável.

Já o morro que se situava a menos de vinte metros dos fundos de meu edifício, constituído de uma rocha compacta, com alguns grotões de terra de pobre vegetação, dá-me a impressão de ser exatamente o mesmo da época em que os portugueses aqui chegaram.

Enfim, mentalmente ou ao vivo, vou percorrendo atento esta bela cidade de Vitória e sua imediações, tão ricas de paisagens admiráveis, hoje um tanto prejudicadas pelos grandes edifícios que, cada vez mais, se juntam e se elevam e formam um bloco triste e feio, mas com capacidade de abrigar mais gente, embora em condições que se deterioram progressiva e rapidamente. Sinto-me preso e deprimido na tessitura envolvente dessas edificações, mas esforço-me, sob certo desalento, a descobrir paisagens e pontos da cidade mais autêntica e histórica.

E eis que descubro duas excentricidades: a casinha ao pé do Penedo, talvez construída quando o morro ainda falava, certamente a mais protegida de nossas moradias, e as janelinhas em arco dando um toque de nobreza nas pobres casas dos morros.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 1995, Paisagens
Autor: Ormando de Moraes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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