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Exemplo de Jardineiro - Por Mário Gurgel

Jardim de Antônio Athyade , prefeito (1918-1921) - Praça da Igreja do Rosário, Prainha - Vila Velha

Está ali, curvado sobre a grama verde e rala, o homem de sessenta e cinco anos que, de quinze em quinze dias, vem tratar o projeto de jardim que organizamos mais por vaidade que por necessidade. É um gramado levantado sobre a face de um pedregulho e que, no verão e na primavera, cobre-se de capim amarelo, oferecendo um triste espetáculo de desamparo e abandono. Não é um jardim nem um gramado. Gramado é, por exemplo, o campo da Desportiva, onde a diretoria pôde instalar uma base de concreto, uma camada de argila, um lastro de terra preta adubada e, depois, grama verde e farta, que um sistema de irrigação e secamento mantém protegida contra os raios do sol e contra o rigor dos aguaceiros.

Mas o que se deseja é apresentar a figura do homem avançado em idade disputando o seu pão com a paciência beneditina de um asceta. Pai de muitos filhos homens, que, embora pobres, exercem todos sua atividade na vida, podendo viver sob a sua proteção e sob a sua guarda, Gumercindo Alves, morador do Contestado, pros lados do Aribiri, percorre as residências faustosas e as casas simples, buscando uma ocupação para entreter-se, procurando uma atividade com que exercitar-se.

É um trabalhador humilde e bom, cheio de diligente modéstia, silencioso e atento, embelezando com arte e sabedoria os recantos tranquilos e bonitos que complementam a apresentação dos eleitos da sociedade. Ele se reveza na sua atividade por semanas inteiras, arrancando as ervas daninhas, retirando o mato, podando a grama crescida, disciplinando os canteiros, cuidando da elegância dos troncos, enxertando os caules, preparando a festa das floradas e o roteiro vertical das trepadeiras magníficas. É um homem decidido e lutador.

Exemplo de tenacidade e bravura, Gumercindo constitui uma lição para os fracos e uma advertência para os tímidos. Ao invés de se acomodar às delícias simples de sua idade, exigindo dos filhos uma cota de manutenção e um agasalho para a sua pobreza, lança-se ao campo de luta com a valentia dos abnegados, e recolhe, pelo trabalho e pela combatividade, o pouco do que parece necessitar para manter-se e à velha companheira e esposa, que os anos fizeram mais unida e dedicada às tarefas do lar e da sua guarda.

Vez por outra os filhos e os netos vão chegando, cheios de preocupações e de revoltas pelas ciladas inesperadas que a vida deixa nos seus caminhos. Aparecem na morada humilde e alegre daquele trabalhador diligente, e transmitem, no entusiasmo de suas investidas, as razões justas ou injustas de suas queixas e de seus pesares. O ancião os escuta com a tranquilidade dos que têm experiência dos homens e dos fatos. Observa demoradamente o que se fala e acende vagarosamente o seu cigarro de palha, na preparação mental da solução que busca para os problemas expostos. Quando fala, sua voz é frágil e moderada, como se estivesse desejando apaziguar contendores. Descreve os deveres de uma pessoa, as responsabilidades de um chefe de família, as obrigações de um pai, reflete e pondera, orienta e ensina.

Uma certa parte da mocidade de nossos dias, inutilizada pelas exigências descabidas de sua época, precisava ter em cada grupo familiar um Gumercindo Alves, estabelecendo o seu futuro.

Temos visto os pais abonando a preguiça de alguns de seus descendentes, exigindo colocações que eles não merecem, impondo ao meio político — corrompido pela ambição de muitos eleitores — empregos classificados para gente sem valor, sem mérito, vadios que não quiseram estudar e não desejam trabalhar nem elevar-se pela conquista honesta do seu lugar. Os quebra-galhos dão as vagas reservadas aos que lutaram, deixando-os no desemprego e na humilhação, enquanto os gabinetes e as repartições se enchem de rapazes e moças inadaptados para as funções, cobertos de direitos que não merecem e de responsabilidades a que não fazem jus. Essa parte da mocidade negocia, ainda agora, o seu voto por uma chicana funcional, deturpa, propositadamente, em seu favor, a vitalidade eleitoral, trocando o seu sufrágio por um privilégio, empenhando o destino do povo por uma concessão graciosa em seu benefício.

Essa mocidade precisava fazer um curso de dignidade com o jardineiro que estamos vendo da varanda, debruçado sobre o lençol de grama do jardim de uma casa qualquer.

28/10/1965

 

Notas do Site: Quem sabe se lá pelos idos dos anos de (1918 a 1921) quando, o então prefeito Antônio Athayde projetou os jardins magníficos de Vila Velha, Gumercindo não estaria lá aprendendo essa talentosa profissão de jardineiro?

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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