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Fantasmas no Adro Esquecido – Por Adilson Vilaça

Seta amarela indicando onde ficava localizada a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, onde hoje encontra-se o Hotel Império.

Edificai vossa casa. Em pó ou argila,

Em rocha se preciso

Que a edifiqueis. Ou em espuma ou brisa

Roberto Almada, “Primeira edificação da casa.”

 

 

Primeiro movimento: “Adagio”.

 

O DERRADEIRO OFÍCIO

 

Onde hoje é a Praça Costa Pereira, houve um tempo em que os pescadores ali ancoravam o cansaço do trabalho no mar. A Prainha, como denominavam o local, era uma espécie de angra, um porto para a fadiga das ondas. As águas que lá chegavam vinham de longínqua navegação, após sofrer toda a sorte de maus tratos à mercê dos piratas e do escorbuto. Chegavam no dorso do último estirão do vento; umedeciam a areia e volatilizavam-se em espuma.

Os trabalhadores do mar desejavam uma capela. Necessitavam de uma capela, onde pudessem agradecer e louvar a multiplicação dos peixes. Viviam desse milagre de transformar badejos, dourados, robalos, tainhas e peroás em pão à mesa, nem sempre farta mas plena de fé nos desígnios do Senhor.

Ergueu-se a capela, um cubo arquitetônico num ancouradoro do mar. Era o século XVIII. Ergueu-se sobre alicerces de espuma e vigas de brisa. Lá estava: barroca como a fé dos humildes. Os humildes, os pescadores, os deserdados da terra. E mais não teve do que esse dom. Lá se reuniam as famílias dos pescadores, os devotos da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição da Prainha.

Mas a igrejinha não resistiu. Soçobrou como embarcação sem mastro, remo ou vela, sem marujo nem capitão. A capela, cumprindo ato de desapropriação datado de 1896, para alargamento da praça, foi demolida por não mais de 50 mil trocos de Judas.

Nossa Senhora da Conceição disse que não. Fez ouvidos moucos ao derradeiro ofício e recusou-se ir para a igreja do Rosário dos Homens Pretos. Por duas vezes colocaram-na no andor; e por duas vezes a santa conjurou as nuvens e os ventos perdidos para salvar sua igrejinha. Uma e outra tempestade cancelaram a mudança. Mais eis que Nossa Senhora da Conceição enfastiou-se com a insistência dos pecadores. Deixou-se levar, como barco desatado do cais.

Por uns tempos, dizem, apareceu aos pescadores e com eles ralhou. Estava envelhecida e zangada. Depois, teve compaixão de seus devotos: virou sereia e segredo, guardado nas lendas dos homens do mar.

 

 

Segundo movimento: “Andantino”.

 

O FRÊMITO DAS BAMBOLINAS

 

O Teatro Melpômene trouxe a Companhia Espanhola Julia de Plá. A companhia estreou a opereta A Mascote, seguida pela sinfonia de O Guarani. Os devotos de Melpômene, musa da tragédia, perambulavam no adro da capela demolida. Os pescadores espichavam o olhar para o teatro e cismava sobre os estranhos modos de adoração.

- Você já viu as espanholas? – indagavam os reticentes aos mais ousados.

- As pernas. Meu Deus, as pernas – respondiam os ditos ousados. – Depois de uma espanhola, quem mais quer saber de rabo de sereia?

Em verdade, mais falavam do que viam. Falavam extasiados, rememorando notícias ancestrais, ainda no século XVI. A fama das espanholas advinha da passagem da coroa portuguesa aos espanhóis, em 1580, perdurando até 1640. Nesse período, teria capitania do Espírito Santo, para deleite dos náufragos enviados a essa costa, recebido uma centena de espanholas.

- O meu avô – alardeava um saudosista, reportando-se a remoto ancestral – “conheceu” uma espanhola. Mulher de jeito sem igual.

Mas as espanholas de Júlia de Plá foram embora. Não sobrou castanhola para a posteriedade! O teatro era um fracasso.

A musa da tragédia foi salva por Ubaldo Rodrigues, que escreveu a peça Ontem e hoje, rememorando a rivalidade entre as irmandades dos “caramurus” e dos “peroás”. O Melpômene lotou! Os pescadores eram novamente devotos de um templo na Prainha. De um lado os adeptos dos “caramurus”; do outro, os “peroás”. Depois, o Melpômene pegou fogo.

Dizem os mais velhos que foi coisa de uma espanhola abandonada na ilha. Linda como sereia e implacável como santa que perdeu o templo!

 

 

Terceiro movimento: “Troppo ma non molto”.

 

DOS LOUCOS E DAS ANDORINHAS

 

Ana, Ana, Ana Bu

Quem sai és tu

Filha do tatu

Que comeu angu

Na panela do

U-RU-BU!

 

Os pais e as mães corujando as crianças. As parlendas ritmavam os folguedos na Praça Costa Pereira. Somente perdiam-se no burburinho da acústica quando as bandas iniciavam as retretas. Flon-plom-plum!

Houve um tempo em que a praça era a época da inocência.

Agora é dos loucos e das andorinhas.

 

 

Último movimento: “Allegro”.

 

INSÓLITO COM BRIO

 

- É doido! – diz o vendedor de quebra-queixo.

- Pirado! – rotula o passante.

- Eu, hein?! – indaga exclamativa a moça no telefone público.

Fumegando um turíbulo a esmo, o “Bispo” enlouquece o crepúsculo da Praça Costa Pereira. Como acólitos, uma turba de meninos de rua canta em seus calcanhares.

 

É o bispo, é o bispo

Vou te devorar

Canibal eu sou!

 

Parodiam a letra de uma música baiana, relembrando, com a paródia, o naufrágio e o martírio do bispo Pero Fernandes Sardinha. Axé “music” e cola de sapateiro. O “Bispo” tenta enxotá-los com o turíbulo fumegante.

- “Perpetuo vincit qui utitur clementia” – apregoa com seu latinório.

Mas nem toda a clemência do mundo aplacaria o deboche de seus devotos. A clemência e a piedade não são o melhor albergue para os abandonados. Até os loucos conhecem tal verdade!

O “Bispo” deixa a praça. Cansou-se de investir contra os pequenos e atrevidos toureiros. Fim da pantomima, decreta o “Bispo”. E perde-se no costado do teatro Carlos Gomes, construído sobre o incêndio do Melpôemene. Os meninos o seguem. Lá vai o elenco da anônima opereta!

Uns dizem que o louco encarna a alma pensada do padre que celebrou o derradeiro ofício na igreja de Nossa Senhora da Conceição da Prainha. Outros dizem que ele é um sacristão que roubava utensílios sacros, vendendo-os a colecionadores. A loucura, dizem, foi castigo de Deus.

As andorinhas desdenham todos esses acontecimentos. Empoleiram-se nas árvores da praça e cagam nos passantes.

- Nojo! – diz a mulher muita gorda, alvejada pelo chilreio.

As andorinhas dormem seu sono migrante, tão sem ninho como migrante é a reordenação do espaço e do mito pelo homem.

E Nossa Senhora da Conceição tudo vê. E perdoa.

 

Escritos de Vitória – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996
Prefeito Municipal: Paulo Hartung
Secretária Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar
Conselho Editorial: Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Assessoria Técnica: Biblioteca Municipal de Vitória
Revisão: Reinaldo Santos Neves, Enyldo Caravalinho Filho
Capa: Paulo Bonino
Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer
Impressão: Gráfica Ita

 

Fonte: Escritos de Vitória, nº 9 Igrejas, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV, 1995
Texto: Adilson Vilaça
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2018

 

Adilson Vilaça,

Nascido em Conselheiro Pena (MG).

Jornalista e escritor.

Autor de A possível fuga de Ana dos Arcos, Espiridião e outras criaturas, Purpurina, Trapos e Albergue dos Querubins.

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