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Festa da Penha – Por Maria da Glória de Freitas Duarte

Chegada de romeiros ao cais da Penha na Prainha em Vila Velha - Acervo: Edward Athayde DAlcântara

A mais antiga festa tradicional de Vila Velha é a festa dedicada a Nossa Senhora da Penha cujo quarto centenário estamos comemorando este ano de 1970.

A primeira Festa da Penha foi realizada por Pedro Palácios, logo após o término da construção da Ermida das Palmeiras, capelinha edificada entre as duas palmeiras a que nos referimos anteriormente.

"Segundo registrou Frei Agostinho de Santa Maria, no "Santuário Mariano", Palácios mandou buscar em Portugal, para esta festa, a cabeça e os braços da imagem de Nossa Senhora, e o Menino Jesus, e ele mesmo, Palácios, com toda dedicação, entalhou o corpo da santa, em madeira tirada da mata que circunda o monte."

Existem várias lendas a respeito do aparecimento dessa imagem. A que vamos contar diverge um pouco das mais conhecidas. Esta, porém, foi contada por nossa mãe que por sua vez, a ouvira da nossa avó.

Palácios encomendara a um amigo que residia em Portugal e viajaria para cá, uma imagem da Virgem, fornecendo-lhe todos os dados necessários. O amigo, esquecendo-se da encomenda, tranquilamente toma o navio e, já em alto mar, verifica seu esquecimento e se torna presa de grande aflição... Ao meio dia, porém, um pequeno barco branco, remado por dois jovens também de branco, aproxima-se do navio com admiração geral, pois, como ficou dito, já se encontravam em alto mar. Um dos jovens aborda o navio e faz entrega de um volume justamente dirigido ao amigo de Pedro Palácios. Abrindo o invólucro ficou surpreso ao encontrar a imagem com todas as características da encomenda. Correu à amurada do navio porém o barco já havia desaparecido.

Com a celebração da primeira festa, em 1570, a devoção a Nossa Senhora da Penha foi rapidamente divulgando-se e começaram, então, a acorrer os primeiros romeiros, vindos de toda a parte do Estado e, também, de outros Estados que, pressurosos, se dirigiam à Ermida das Palmeiras, para depositar aos pés da Virgem suas orações e seus pedidos.

A 2 de maio de 1570, logo após a realização da festa, que tão carinhosamente organizara, Palácios foi encontrado morto na capela de São Francisco, no Campinho (há poucos anos restaurada), ajoelhado, de mãos postas sobre o altar, como a pedir proteção a Deus, talvez para que sua obra não parasse ali. Os restos mortais deste santo anacoreta, até 1924, se encontravam no antigo Convento de São Francisco, em Vitória. Daí para cá, infelizmente, não se sabe de seu paradeiro.

Até hoje o povo conserva esta devoção, e as festas da Penha, a cada ano que se passa, são mais concorridas. Vila Velha engalana suas ruas numa homenagem à Santíssima Virgem e para receber seus inúmeros visitantes que, cheios de gratidão, cada vez mais divulgam os favores recebidos.

A Ermida das Palmeiras deu lugar ao majestoso monumento que se ergue no cimo do monte, e que tem sido tão decantado por poetas ou prosadores — o Convento da Penha — orgulho dos capixabas, mormente dos canelas-verdes.

A Festa da Penha é realizada todos os anos na segunda-feira da Pascoela. Até há alguns anos atrás, nos nove dias que antecediam à Festa, rezava-se no Convento a ladainha de Nossa Senhora, preparando os devotos para o grande dia dos festejos. Era rezada à noite, com grande afluência de fiéis que, desprezando as dificuldades, faziam a pé sua peregrinação à Penha, para cantarem louvores à Virgem Santa.

O Coro da Penha, na década de 1910, era dirigido pela Srta. Bebé Veloso e tinha como cantoras as Sras. e Srtas: Pivante, Minininha, Zezé Veloso, Mercíria, Mariquinhas Sacramento, Floriu e Tintium.

Dentre os belos hinos que cantavam à Virgem, destacamos estes singelos versos (música no 1):

Senhora da Penha

livrai-nos do mal, assim como fostes livre        Bis

do pecado original.

Muitas são as graças alcançadas por intermédio de Nossa  Senhora, e como testemunho de gratidão, podemos ainda ver na sala dos milagres a quantidade de ex-votos ali conservados.

Além das barraquinhas, bandeirolas, fogos de artifício, embarcações embandeiradas e cheias de romeiros, muito contribuíram para o embelezamento da Festa as duas bandas de música locais — “Filofênica da Penha" e "Aliança Progressiva" — que, infelizmente, há muito deixaram de existir. Enquanto uma tocava no terraço do Convento, a outra funcionava em baixo, na cidade, alegrando os que chegavam e os que não tinham a felicidade de poder subir ao outeiro sagrado.

O povo daqueles tempos, devoto e cheio de lirismo, dedicava, costumeiramente, lindos versos à Senhora da Penha:

"Nossa Senhora da Penha,

Sua igrejinha cheira,

cheira a cravo, cheira a rosa,

cheira a flor de laranjeira. "

Contava nossa mãe que, quando ela era ainda criança, uma família de Campos viera visitar Nossa Senhora. Desta família, uma mocinha doente não podia empreender a caminhada pela íngreme e pedregosa ladeira que dá acesso ao Convento. Ficara na casa do nosso avô a espera de seus pais. Muito triste por não ter ido, inspirou-se no seu sofrimento e produziu esta quadra:

"Todos subiram à Penha,

eu cá embaixo fiquei.

Dai-me a mão Nossa Senhora,

que também eu subirei."

Enquanto isto, outros, felizes por verem a Mãe querida, declamavam:

"Fui ao Convento da Penha,

visitar a Mãe querida.

Agora posso dizer

que já fui ao céu em vida."

E cada um, à sua maneira, louvava e continua louvando a Mãe de Jesus, que é também nossa Mãe.

 

Fonte: Vila Velha de Outrora
Autora: Maria da Glória de Freitas Duarte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2015

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