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Fugas, Revoltas e Quilombos - As Lutas Contra a Escravidão

As Lutas Contra a Escravidão

Pretende-se agora destacar que as revoltas dos escravos eram parte do quadro geral da resistência dos negros contra a destruição física e cultural promovida pela escravidão e, acima de tudo, evidenciar os aspectos mais significativos dessa resistência.

Parece que o black power já tinha suas raízes na escravidão, pelo menos em termos da moda de usar os cabelos grandes, afinal “os negros cativos querendo ser forros” usavam cabelos da “altura dos morros”, conforme verso popular anônimo da época (30).

Se, naquele tempo, o uso de cabelo grande era sinal de manifestação contra a escravidão e afirmação de liberdade, nas décadas finais do século XX também o uso de cabelos grandes, tanto do tipo black power, quanto do tipo “rastafári”, têm sido sinônimo de rebeldia, conscientização negra, luta contra as discriminações raciais, afirmação da negritude contra as tentativas de imposição de padrões de beleza e de estética dos brancos e, sintetizando, afirmação do direito de liberdade ideológica, religiosa e política.

Assim, as revoltas dos escravos contra o sistema escravista devem ser vistas não só como revoltas pela liberdade do corpo, mas também, e principalmente, pela liberdade da mente.

Desde o início do processo escravista, na mente dos negros, já estavam presentes a revolta, a resistência e a luta. Inicialmente, a resistência tinha características quase individuais, espontâneas e sem uma organização que garantisse um mínimo de sucesso. Destacam-se as revoltas dentro dos mercados e navios transportadores, nos mercados de revenda e nas fazendas. Neste caso, quase todos os historiadores tem falado das fugas, suicídios e motins.

Na medida em que os séculos de exploração da escravidão decorrem e ampliam-se os contingentes populacionais submetidos a esse regime, muitas transformações também ocorrem nas formas de resistência dos escravizados. Assim, o individualismo, a espontaneidade e a desorganização cedem lugar às manifestações bem estruturadas. As fugas e revoltas passam a ser bem organizadas e buscam a liberdade pela luta armada e de resistência, se necessário, até a morte.

Pode-se dizer que foi graças ao sacrifício de muitos escravos que foi acelerado e aprofundado o desgaste do sistema escravista, de tal forma que muitos brancos puderam perceber seus horrores, tornando-se abolicionistas.

A fuga foi um recurso muito utilizado pelos escravos, em todos os tempos e lugares, para tentar a vida em liberdade. Com esse objetivo buscavam um lugar para morar nas matas, formando os quilombos.

As mais lidas e maiores sessões dos jornais da época eram os anúncios de fugas, compra e venda de escravos. Nos anúncios de fugas, os fugitivos eram descritos com minúcias sobre suas características físicas, intelectuais, comportamentais e de personalidade. Também eram ofertadas recompensas pela sua captura. Em geral, tais anúncios eram acompanhados de uma ilustração caricata de um negro carregando uma trouxa.

Documentos de 1710 já registravam a existência de quilombos por vastas áreas do Espírito Santo, principalmente nas regiões de Itapemirim, Serra, Muribeca, Ponta da Fruta e Guarapari.

No século seguinte, em 1822, os escravos da Serra, Jacaraípe, Iúna, Itapemirim, Queimado e Pontal da Cruz promoveram uma revolta que logo foi abafada, tendo sido presos e castigados muitos negros, entre os quais um chamado Antônio, considerado o chefe da rebelião. Apurou-se que Antônio, tendo sabido que um artigo em defesa do fim da escravidão tinha sido publicado em certo jornal capixaba, convocou os escravos dessas localidades para uma manifestação pela liberdade, na qual todos compareceram armados com facões, enxadas, porretes e armas de fogo.

No ano seguinte, em 1823, os moradores brancos de São Mateus fizeram uma reclamação ao governo alegando que lá existiam muitos quilombos cujos membros estavam atacando-os. A repressão foi organizada, mas nada foi encontrado. Entretanto, em 1827, mais de 90 escravos de um quilombo local ameaçaram, em conjunto com os escravos de uma fazenda, invadir a vila e tomar seu controle. Mais uma vez, eles foram fortemente reprimidos e dispersados pela polícia. Anos mais tarde, em 1836, novamente grande tropa da polícia foi organizada para, a pedido dos moradores brancos, combater vários quilombos que eles diziam existir por toda a extensão de terras entre a Vila da Serra e Benevente, passando pela área do Rio Santa Maria.

Sabendo da aprovação da lei de 7 de novembro de 1831, que dava a liberdade a todos os africanos que, a partir dessa data, chegassem ao Brasil, os escravos da Vila do Itapemirim tentaram organizar uma revolta para também obterem a liberdade, mas os líderes foram presos e castigados, e a revolta não aconteceu.

Os negros organizados em quilombos faziam expedições de ataques às vilas para pegarem armas, ferramentas, pólvora e alimentos. Às vezes, aproveitavam para se vingar dos senhores cruéis, colocando fogo nas plantações, castigando feitores e senhores, raptando mulheres para irem morar nos quilombos e promover a liberdade para todos.

Por sinal, a vida nos quilombos era muito difícil, pois havia sempre a ameaça de os negros serem atacados pela polícia. Dessa forma, eles estavam sempre em estado de alerta para as batalhas constantes e as mudanças rápidas de locais. Assim, quase não havia condições de serem desenvolvidas atividades agrícolas mais duradouras, motivo pelo qual muitos quilombos faziam expedições de ataque às fazendas e matavam algum gado para a alimentação. Em geral, o boi era morto e desmembrado no próprio pasto, mas todo ele era aproveitado: a carne que sobrava era secada ao sol ou salgada; ossos, chifres e couro eram utilizados para a confecção de objetos diversos para uso no dia a dia, como pentes, talheres, canecas, calçados, adornos, recipientes de transporte de líquidos e sementes. Com o sebo fazia-se sabão.

Houve, inclusive, um quilombo, na localidade de Capivari, Vila do Rio Pardo, cujos membros, com a ajuda de uma escrava conhecida por Preta Mariana, faziam até o comércio na vila, vendendo o que produziam e comprando o que necessitavam, mas também atacavam fazendas para pegar roupas e armas.

É interessante notar que houve casos em que pessoas brancas protegiam escravos fugidos e até faziam comércio com membros de quilombos, sem denunciá-los. José de Almeida, por exemplo, foi acusado, em 1835, de dar proteção para quatro escravos fugitivos da Serra. Também o juiz José dos Santos Porto, dois anos antes, já tinha sido acusado de dar guarida, na sua fazenda, a escravos fugitivos, além de facilitar a fuga de membros de um quilombo que tinham sido aprisionados em São Mateus.

Sem entrar em detalhes sobre as muitas revoltas de escravos acontecidas no Brasil, é importante destacar um episódio ocorrido na Bahia. Em dezembro de 1826, alguns senhores de escravos, armados, decidiram partir à procura de negros fugidos que tinham formado um quilombo entre a estrada de Cabula e o Baixo Urubu. O encontro resultou em luta sangrenta, com a prisão de um negro que afirmou que os escravos tinham projetado uma revolta geral na Bahia para a véspera do Natal. O que se quer destacar é que o centro do quilombo e o lugar de inspiração da revolta era um barracão de candomblé (31). Sabe-se que as comunidades de candomblé foram centro de preservação dos valores culturais, não só religiosos, mas de vários aspectos da cultura africana.

No caso do Espírito Santo, esse relato assume faceta mais intrigante ainda se for considerada que uma importante manifestação religiosa negra na região norte, de grande influência dos negros da Bahia e de onde ocorreram os mais numerosos casos de quilombos e revoltas negras, tem o nome de Cabula e foi sempre, ao longo da história, envolvida por grande mistério, como será visto mais à frente.

De qualquer forma, no Espírito Santo, como já observado, a primeira metade do século XIX foi fértil em fugas, rebeliões e formação de quilombos. Na medida em que decorria o tempo, novas fugas e rebeliões aconteciam, bem como outros quilombos surgiam e desapareciam, muitas vezes sem deixar vestígios e notícias superficiais. Nesses casos, incluem-se, por exemplo, documentos que abordam a organização de tropas, em 1840, para combater quilombos pelo interior da Província e também sobre a destruição de um quilombo, com 18 casas, de pretos bem armados, em 1843. Também havia informações sobre a destruição de quilombos no interior, em 1847, e a existência de mais outros, em1850, em Cachoeiro de Itapemirim (32).

Em 1848, muitos senhores de escravos, em documento escrito, consideraram o índio muito superior ao negro no trabalho e na inteligência.

Porém, isso não passava de uma tentativa de desvalorizar o homem negro frente às lutas que ele empreendia para ser um trabalhador livre.

Na realidade, a preocupação maior dos senhores era, e continuaria sendo por bastante tempo, a fuga de escravos e a formação dos quilombos, como ficou bem evidenciado em um ofício de 30 de agosto de 1848, dirigido a um conselheiro do ministro do Império, no qual o presidente da Província do Espírito Santo referia-se ao grande número de quilombos existentes e alardeava a inquietação que eles causavam aos capixabas. Também falando perante a Assembleia Provincial, em 11 de março de 1849, o presidente alertava para os “quilombos que formigam na Província e tanto concorrem para o definhamento da agricultura e desmoralização da escravatura”(33).

Soma-se a tudo isso o fato de que, principalmente após 1850, tornaram-se inumeráveis os pedidos das autoridades e pessoas importantes da Província para que fosse feita a captura de escravos fugitivos, assim como também foram crescentes as revoltas dos negros, que fugiam para juntarem-se a outros, em quilombos, decididos a lutar contra seus senhores.

Dessa forma, pode-se perceber com clareza o contexto no qual aconteceu a Insurreição dos Escravos do Queimado, a mais importante manifestação, devidamente documentada, dos negros contra a escravidão no Espírito Santo.

 

NOTAS

(30) Novaes, 1963, p. 65.

(31) Bastide, 1971, V. 2, p. 149.

(32) NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória. Fundo Editorial do Espírito Santo. Sem data. p. 197.

Muitos dados, ainda inéditos, sobre revolta de escravos, poderão ser pesquisados na documentação referenciada na publicação Fonte para a história da escravidão negra do Espírito Santo. Vitória. Arquivo público Estadual. 1988.

(33) Novaes, sem data, p. 198.

 

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Fonte: Negros no Espírito Santo / Cleber Maciel; organização por Osvaldo Martins de Oliveira. –  2ª ed. – Vitória, (ES): Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2016.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

 

 

 

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