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Garoto na memória

No século XVIII por conta dos enciclopedistas que eram a internet da época, o estudo das plantas era o que estava na moda, pois era algo que estava mais à mão mesmo na Europa. No século seguinte, a coisa foi caminhando para o estudo dos animais, dos indígenas e para a arqueologia (escavações, etc...). Então no final do século XIX e início do século XX, vários estudiosos vieram para o Brasil, e passaram até pelo Espírito Santo para estudarem os índios que ainda existiam. Na Europa, em Hamburgo na Alemanha, o jovem Henrique Mayerfreund, filho de um pequeno produtor de balas de açúcar de beterraba, soube que havia um francês estudando os indígenas em Pancas no Espírito Santo, ainda uma região pouco explorada e coberta por matas, onde restavam alguns índios botocudos.

Daí o alemão veio para cá, mas acabou pegando um tipo de malária muito grave, e veio parar na Santa Casa de Misericórdia em Vitória. Em Caratoira, que fica no caminho de quem vai para Santo Antônio em Vitória, havia outro alemão, Sr. Mayer que explorava o ramo de torrefação de café, e soube que na Santa Casa havia um parente seu muito doente, e lá foi verificar.

O pessoal estava confundindo Mayerfreund do doente com Mayer do alemão de Caratoira. Da Santa Casa, o jovem Mayerfreund foi levado para a casa do Sr. Mayer para concluir o tratamento, e lá ficou conhecendo uma de suas filhas, com quem acabou casando-se. O genro passou a trabalhar para o sogro vendendo no interior do Estado o café Teotônia que era a marca do mesmo, e isso após o final da Primeira Guerra Mundial, com Hitler subindo no poder na Alemanha o que fascinava muitos. O invólucro do pó de café Teotônia, escrito com letras góticas, mostrando ser um produto tipicamente de descendência germânica, chegou ter uma suástica estilizada, símbolo do nazismo.

Nesse meio tempo, com o falecimento do pai de Henrique, o mesmo foi na Alemanha e trouxe maquinários que herdou, e resolveu montar negócio próprio para fabricar balas açucaradas aqui, utilizando açúcar de cana de açúcar da grande região produtora de Campos.

Iniciou numa casa em Jucutuquara, mas como o maquinário fazia barulho e saia muita fumaça do fogão a lenha que usava, muitas horas por dia, os moradores conseguiram da Prefeitura de Vitória, que o jovem empresário tirasse a indústria nascente de lá, e veio para a Prainha em Vila Velha, para uma casa na esquina da rua Vasco Coutinho com a praça Capitão Octávio Araújo.

Henrique empregava algumas senhoras, que embrulhavam as balas em papel manteiga ou em papel celofane (novidade na época), e saia vendendo de porta em porta, aos comerciantes que já conhecia no interior do Estado do tempo em que já entregava o pó de café do sogro.

Nessa referida casa, morou depois o sr. Astrogildo Setúbal, onde inclusive um de seus filhos, filho de dona Francelina Carneiro Setúbal, o finado José de Anchieta Setúbal, nasceu. Depois ali morou por muito tempo o dentista sr. Ananias, pai do Stélio. Hoje é um ponto comercial muito modificado.

Dali o Henrique levou a fabriqueta para a rua 23 de Maio, numa antiga fábrica de cal, onde existe até hoje o frontispício. Nesse meio tempo Augusto Italiano, o Panizardi Augusto, entra em cena fornecendo lenha para Henrique, puxando a madeira com seu caminhãozinho, que era um sucesso. Henrique passou a embalar as balas em latas, que ele mesmo fabricava, a partir de chapa de flandres. Para as tampas, como sobravam retalhos, fabricava lamparinas que vendia também. A diversificação vinha dando lucros.

De Campos veio o Sr. Inácio Higino que era mestre em saber o ponto das tachadas de bala, para evitar que a massa se queimasse. A seguir ficou sabendo que a desativada "fábrica de artefatos de cimento" que existia na Glória estava a venda, e então se animou e comprou toda a edificação e terrenos. Tudo vinha de vento em popa, Henrique lança a logomarca Garoto, e a coisa ia em frente. Mas em 1° de setembro de 1939, há 70 anos, estourou a segunda Guerra Mundial, e em 1942 o Brasil entra declarando estado de beligerância com a Alemanha.

De Vitória vieram grupos de baderneiros, que só não depredaram a fábrica por terem conseguido a tempo proteção policial. O governo federal nomeou um interventor para administrar a fábrica de balas (não mexiam ainda com chocolates).

A torrefação Teotônia em Caratoíra, do sogro, foi depredada, e muitos alemães foram detidos na Polícia Militar para averiguações pois suspeitavam que fossem informantes da saída de navios do porto de Vitória, para os submarinos alemães terem facilidade nos ataques. Depois da guerra a Fábrica de Balas foi devolvida, e então Henrique teve paz de investir, ampliar os negócios, modernizar a fábrica com maquinários, e incorporar técnicos como o sr. Pastor, um químico espanhol que por aqui atuou.

Então no pós-guerra é que passou a adquirir cacau no norte do Estado e no sul da Bahia, e surgiram então os bombons, as barras de chocolate e demais produtos, bem como as pastilhas de canela e a famosa pastilha forte (de hortelã), sem contar com a continuidade da fabricação de diversos tipos de balas. Nessa época os produtos já vinham sendo embalados um a um com uso de máquinas.

Henrique me lembro tê-lo visto duas vezes, e já residindo na rua Castelo Branco no centro de Vila Velha. Fiquei conhecendo o Helmut, seu filho e a esposa Helena por conta de uns vizinhos germânicos. O Helmut nasceu na rua Godofredo Schnaider, numa casa que não existe mais, em frente do Colégio de mesmo nome na Prainha, quando a rua chamava-se São Bento. Dois dos filhos de Helmut conheci ainda crianças, e chegaram a aparecer em propaganda da Garoto em revistas da Disney (edições brasileiras).

Visitei a fábrica umas três vezes há muito tempo, e uma vez o fascinante Centro de Documentação, onde devo freqüentar para atualizar meus conhecimentos sobre a Garoto. Os aromas que a fábrica solta são inesquecíveis e devem estar dentro das tolerâncias dos órgãos ambientais, e tem que estar... !!!.

Crônica de: Roberto Brochado Abreu. Membro da Casa da Memória de Vila Velha. (19/08/2009)

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