Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

ÁGUA-COM-AÇÚCAR E ÁGUA SALGADA

Rua General Osório

Que seria da paisagem se a ela não estivessem vinculadas as nossas reminiscências?

Sei de cor esta indagação que li, há anos e noutras palavras, no romance O Amor, de Dino Buzzati, que morreu em Milão em 1972, com 66 anos, numa paráfrase: que valeria o túmulo se não despertasse a lembrança? Um cenotáfio desconhecido é a tumba sem nada; não desperta nem recordação.

A paisagem não mais existe; só me resta a reminiscência: o nome da rua é General Osório, se bem me lembro. Pode ser outro militar. Rua enviesada e torta. Nela há, na época, a sede de A Gazeta, cujas páginas naquele dia dão conta da enchente que quase cobre a ilha. Fala-se em calamidade pública na capital do Espírito Santo.

Subo a escada do Cento-e-Vinte, tão gasta e forte quanto a alma das mulheres que fingem alegria, antes, durante e depois da batalha. Sabem simular o gozo, acompanhado de ofogos e gemidos. São as profissionais do amor. Pretendo escrever um capítulo de Mentira dos Limpos, meu primeiro romance, que se possa em terras capixabas. Faz mais de trinta anos. O livro está na 3ª edição pela editora Mercado Aberto.

Sinto o odor de mofo; tateando o corrimão, vejo as mulheres oferecidas, que se julgam protegidas pelo São Jorge no alto da parede, iluminado por pequena lâmpada, vermelha e sempre acesa, dia e noite; a fumaça dos cigarros me incomoda, ouço o barulho de vozes dos marinheiros e demais fregueses, estes nacionais  e estrangeiros como aqueles. Desço a escada, com falta de ar, para subir a do Cento-e-Trinta, logo adiante, onde tomo água mineral. Não demorou muito. Desguio de novo, ganho a rua.

A chuva cai, fujo das goteiras, piso em poças, procuro marquises.

Compro um exemplar de A Gazeta para proteger minha cabeça; até minhas idéias úmidas e cabeludas. Vitória vai morrer afogada. Vou junto, de cambulhada. Catecúmeno, julgo-me batizado, sem sal na moleira. Na primeira página do jornal dou de cara com o editorial assinado por Mesquita Neto; o título é o mesmo todo dia: Hoje. O doce jornalista comenta um livro de ficção lançado pela Saraiva. A amarga trama se passa no século XVIII.

Mesquita Neto já esta alheio a tudo que se passa ao redor da ilha que se afunda.

Só me lembro disso: a paisagem, apenas água. Água de chuva e água do mar. A água doce quer competir com a água salgada. É minha acre-doce lembrança capixaba.

 

ESCRITOS DE VITÓRIA — Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.

Prefeito Municipal: Paulo Hartung

Secretário Municipal de Cultura e Turismo: Jorge Alencar

Diretor do Departamento de Cultura: Rogerio Borges

Coordenadora do Projeto: Silvia Helena Selvátici

Conselho Editorial: Álvaro José Silva

José Valporto Tatagiba

Maria Helena Hees Alves

Renato Pacheco

Bibliotecárias

Lígia Maria Mello Nagato

Cybelle Maria Moreira Pinheiro

Elizete Terezinha Caser Rocha

Revisão: Reinaldo Santos Neves , Miguel Marvilla

Capa: Pedra dos Olhos, (foto de Carlos Antolini) 

Editoração Eletrônica: Edson Maltez Heringer  

Impressão: Gráfica Ita

Fonte: Escritos de Vitória 12 – Paisagem - Secretaria Municipal de Cultura e Turismo – PMV
Autor do texto: Manoel Lobato
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2014

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Praça João Clímaco (ex-praça Afonso Brás) – Por Elmo Elton

Em 1910, Jerônimo Monteiro, quando o logradouro tinha o terreno inclinado, para aplainá-lo, construiu-se um muro de arrimo, coroado por balaustrada, fronteiro à atual Rua Nestor Gomes

Ver Artigo
Como nasceu a Vitória – Por Areobaldo Lellis

Circundada por montanhas desabitadas, os seus extremos eram ligados, a partir das Pedreiras, hoje Barão Monjardim

Ver Artigo
Rua 13 de Maio (ex-rua do Piolho) – Por Elmo Elton

Esse caminho, sinuoso passou a ser a Rua do Piolho, que, já neste século, trocaria de nome para rua Treze de Maio

Ver Artigo
Rua 23 de Maio

Era considerada, até os anos 40, como ponto nobre da cidade. Teve belas residências, destacando-se sobretudo a Vila Oscarina, palacete de propriedade de Antenor Guimarães

Ver Artigo
Ponta da Fruta – Por Edward Athayde D’Alcântara

Até os anos 40 era pequena e conhecida ainda como vila de pescadores e era considerada área rural do município

Ver Artigo