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Há sete mil anos os índios já habitavam o Espírito Santo

Cerâmica tupi-guarani de 1.200 anos (Piúma) - Foto: Celso Perota

Foi o que constaram pesquisas feitas nos objetos encontrados nos locais onde moraram os índios, os chamados sítios arqueológicos, na divisa dos municípios de Santa Maria do Jetibá e Santa Leopoldina.

Esses índios eram caçadores, com armas adequadas para matar animais de grande e médio porte, que estavam em vias de extinção. Nessas antigas habitações foram encontrados utensílios (artefatos) como pontas de projétil (flecha/lança), em pedra lascada. Estavam junto às inúmeras lascas que serviram como facas, raspadores, perfuradores, etc.

Essas pesquisas revelaram que, no período que vai de 7.000 a 6.000 anos antes da data presente (de 5.000 a 4.000 antes de Cristo), outras partes do Espírito Santo também eram habitadas por populações pré-históricas. Uma delas vivia na região dos rios formadores do Rio Jucu, no Município de Domingos Martins, e outra no vale do rio Fruteiras, nos municípios de Cachoeiro do Itapemirim e Vargem Alta. Antes de 5.100 anos atrás, o litoral tinha outro contorno. A partir dessa data, ele começa a ter a atual feição. As águas do mar sobem, proporcionando a formação das atuais baías, como a de Vitória, Guarapari e Nova Almeida.

Nas outras regiões litorâneas, as praias foram formadas com sedimentos arenosos que vieram dos rios Doce, Itapemirim e Itabapoana. Quando os contornos litorâneos se definiram, com a formação dos mangues e das restingas e, conseqüentemente, com um aumento considerável de recursos alimentares, essa região atraiu um grande contingente de populações indígenas para a região.

A maior parte das informações desse período vem de .antigas aldeias, que os índios chamavam de "sambaquis", que são depósitos de conchas, com restos de cozinha e esqueletos (o atual lixo). Eles estão localizados principalmente na baía de Vitória, na região dos rios Piraquê-Açu (Fundão e Aracruz) e Reis Mago: (Fundão e Serra) e no "delta" do rio Doce (Linhares e São Mateus).

No interior, as aldeias estavam localizadas em Castelo (Gruta do Limoeiro), Santa Teresa (Gruta em Nova Lombardia), Domingos Martins (Vale do rio Jucu) e entre os municípios de Santa Leopoldina e Santa Maria do Jetibá (Vale do Rio Santa Maria).

As pesquisas e datações a partir dos "sambaquis" da região da planície litorânea do rio Doce mostram que ela foi habitada pelos índios entre 4.600 - 4.200 anos atrás.

No período entre 4.000 e 2.500 da presente data, índios que ainda não conheciam a cerâmica, ou seja, não utilizavam utensílios feitos de barro, já estavam habitando as restingas litorâneas, nas proximidades dos mangues, lagunas e zonas pantanosas. Amplia-se a área de ocupação que cobre quase todo o litoral, desde o rio ltaúnas até o Rio Itabapoana. Nesse mesmo período, por outro lado, no interior do Estado o que havia eram índios caçadores, que moraram nos vales dos rios Reis Magos, Jucu, ltaúnas e Santa Maria.

Depois, entre o período de 2.500 a 1.500 anos atrás, a cerâmica já era utilizada pelos índios. E eles vão morar preferencialmente as áreas de restinga (terra boa para plantar mandioca), nas proximidades dos mangues e áreas pantanosas, por causa da pesca. Essa forma de vida perdurou por muito tempo. Essas aldeias estavam localizadas na faixa costeira do litoral norte, na Baía de Vitória e no vale dos rios Jucu, Benevente e ltaúnas.

No final desse período, a população indígena começou a ter aldeias fixas, habitadas por um período de três a quatro anos. Quando a terra cansava, procuravam outros locais para plantio e mudavam as aldeias para as proximidades. Assim, a coleta de frutos do mar deixa de ser a principal atividade dos índios do citado período. E a caça de animais de pequeno porte e o uso de milho, amendoim, mandioca e batata doce passam a ser sua principal fonte de alimentação.

As aldeias desse período estavam concentradas no litoral (baía de Vitória e Jacaraípe) e vales dos rios Reis Magos, Doce, Cricaré, Jucu e Itaúnas. Na planície litorânea os índios preferiam as áreas de restingas. Mas as pesquisas feitas no Município de Ecoporanga mostram que os índios também já habitavam a parte Noroeste do Espírito Santo.

A pedra é a matéria-prima para o fabrico de instrumentos dos índios e dentre elas o quarto é a rocha preferida para uma série de objetos, como' perfuradores, raspadores diversos e, no final do período, já ocorrem pedras com alteração pelo polimento.

A cerâmica encontrada em algumas aldeias não decoração. Suas formas também são simples.

A partir de 1.500 anos atrás começa o período cerâmico, de intenso povoamento do Espírito Santo e da ampliação das diversas manifestações ceramistas. É o período pré-histórico mais conhecido onde aparecem várias fases das três grandes tradições ceramistas da arqueologia brasileira: a tupi-guarani, aratu e a una.

O clima nesse período é praticamente estável, não sofrendo alterações consideráveis.

A agricultura é intensificada, nesse período, e desenvolvem-se outras formas de outras tecnologias básicas, notadamente a cerâmica.

A tupi-guarani é uma tradição arqueológica que se encontra em todos os estados brasileiros. No Espírito Santo é estudada através de três fases: a cricaré, a tucum e a itabapoana.

As aldeias tupi-guaranis eram constituídas de grandes casas que abrigavam de 60 a 70 pessoas, de uma mesma família.

A agricultura era praticada em larga escala, com o plantio de mandioca, e, no final do período, o milho, presença desse cereal é comprovada pela decoração plástica da cerâmica denominada "escovado", que resultado da impressão dos sulcos do sabugo de mi na pasta da cerâmica.

A tradição tupi-guarani é encontrada no vale do rio Doce e seus afluentes, no vale do rio São Mateus, no vale do rio Cricaré e em toda a faixa litorânea do Estado.

Pesquisas chegaram a uma data de 1.150 anos para a fase cricaré.

Essa cerâmica está associada etnograficamente aos índios falantes da língua tupi-guarani.

Outra tradição ceramista no Espírito Santo é a que tem uma delimitação geográfica entre a faixa litorânea, desde a baía de Vitória até a foz do rio São Francisco, pelo interior dos Estados da Bahia, Sergipe, Piauí e Goiás.

A tradição aratu está representada no Estado do Espírito Santo por quatro fases: jacaraípe, itaúnas, guarabu e camburi. Sobre essas duas últimas fases não há estudos detalhados devido à pequena quantidade de sítios encontrados. Foram obtidas duas datações para esta tradição: 850, 700 e 350 anos. Pelos dados etnográficos e etnológicos, a filiação dessa tradição é com os índios classificados na família lingüística malali, maxacali e pataxó.

A tradição una é estudada a partir de dados levantados no Estado do Rio de Janeiro, partes de Minas Gerais e do Sul do Espírito Santo. É das demais pelas características da cerâmica e pelo constante de sítios funerários.

A tradição una está representada no Estado pela tangui. Datações revelaram que entre 1200 e 1250 atrás ela já estava em desenvolvimento no Sul do Espírito Santo. Os índios que desenvolveram essa tradição foram os puris-coroados.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 19/08/1999
Autor do texto: Celso Perota
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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