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Hoje, quando retorno à UFES - Por Bernadette Lyra

UFES, década de 1970

Hoje, quando retorno à UFES, a memória me faz passar do tempo do relógio a um tempo em que os aspectos míticos, afetivos e históricos inevitavelmente se juntam. E passado, presente e futuro, enfim, tudo se dá de modo simultâneo e as lembranças são como peças de um quebracabeças, formatando o desenho de meu pertencimento a esta Universidade.

Vocês talvez pensem que a memória está presa ao passado e que as lembranças são coisas paradas no tempo. Mas, na verdade, a memória é como um corpo vivo que vibra em três dimensões: as lembranças se dão no presente, remetem ao passado, se dirigem ao futuro.

Foi no ano de 1969 que eu estava como aluna na primeira turma a ocupar o campus de Goiabeiras. Naqueles dias, atravessávamos pontes improvisadas sobre a lama para alcançar o curso de Letras, no primeiro CEMUNI construído, e a água crescia a cada maré alta, transbordava dos mangues por debaixo do prédio. Assim íamos nós, estudantes, professores e funcionários, dividindo alegremente o espaço com os lagartos esverdeados que, no calor, se estendiam ao sol, no cimento do pátio, e com alguns pequenos batráquios, que, quando chovia, nos olhavam do canto das portas com olhos redondos. E assim também seguíamos, entre as lamentações da bela Inês de Camões, as variantes linguísticas, as declinações do latim e tantas e tantas descobertas que nos comoviam a cada verso, a cada romance, a cada poema estudado.

E naqueles anos passaram-se coisas incríveis, como as primeiras casuarinas que brotavam no campus; os primeiros prêmios literários a que concorríamos; um certo fusca azul em que nos amontoávamos: eu, Rita, Mariusa, permanentemente e, de vez em quando, mais uns dois ou três colegas apanhados no meio do caminho. Havia gente que não fazia o curso conosco, mas, de repente, lá aparecia. De alguns, eu agora me lembro: Carmélia, que agitava a bengala e gritava "Viva o simpósio"; Tatagiba, em crise de ceticismo, a doar os livros já lidos de sua biblioteca (foi assim que a mim coube meu primeiro Barthelme); Olival exibindo um poema concreto, ou seja, a impressão de seu próprio polegar pincelado de tinta, a que ele deu o nome de "A assinatura de Deus".

De toda maneira, a folia álacre desse pequeno grupo, que girava em volta da literatura, resultava em conversas sobre as últimas novidades nas prateleiras da livraria Âncora e revistas recém-chegadas nas bancas, além da leitura de poemas, trechos de romances, contos e muita falação. E, por vezes, mais tarde, tudo acabava em risos, vodcas, laranjadas, discussões sobre pessoas que admirávamos ou que odiávamos e, sobretudo, em planos para o futuro quando, ingenuamente, achávamos que haveria de chegar o dia em que seríamos escritoras e escritores capazes de fazer uma obra que iria embasbacar o mundo.

O que teríamos perdido ou o que teríamos ganhado com isso, nunca soubemos e não saberemos jamais. Pois, na verdade, cada qual seguiu sua vida, cada qual foi pra seu lado, para muito além da atmosfera daqueles anos estudantis permeados de dores, amores, alegrias, espantos, esperanças, tristezas e temores. Depois, vez ou outra, ocorria um encontro casual, um café ali em uma esquina qualquer da cidade, cada vez mais mutante, cada vez mais cheia de gente. E falávamos do calor e do frio, das estações perplexas, dos colegas e amigos sumidos, da necessidade de resgatar a obra dos companheiros mortos. E falávamos ainda do trabalho, das aulas a dar, das conferências, dos cursos, das viagens e tudo bem, até mais e a gente se vê por aí. E lá íamos de novo, sem olhar para trás, sem saber se voltaríamos a nos encontrar.

A estas relatadas lembranças e a tantas outras, se misturam os muitos anos em que atuei como professora no mesmo departamento de Letras em que me formei. A areia movediça da memória me apanha. E colegas, alunos e amigos são vultos que aparecem e desaparecem como fantasmas perdidos na espuma das recordações.

Hoje, quando retorno à UFES, vou andando pelas passarelas; vou passando por entre aquela multidão de pessoas, as mais variadas em idade, cor e gênero; vou cruzando o agulheiro de novos prédios, multiplicados por cima da cartografia antiga. Então, me vem a certeza de que tudo muda, tudo se modifica, tudo se atualiza, no entanto, meu afeto e minha dívida de gratidão para com esta Universidade permanecem como uma cicatriz que guarda uma relação distante com o caco de vidro, com a ferida e com o sangue, mas se mantém, visível e inexorável, como uma lâmina fina gravada na superfície da pele.

 

Fonte: UFES: 65 anos – Escritos de Vitória, 33 – Secretaria de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019
Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Francisco Aurélio Ribeiro, Elizete Terezinha Caser Rocha, Getúlio Marcos Pereira Neves
Organização e Revisão: Francisco Aurélio Ribeiro
Capa e Editoração: Douglas Ramalho
Impressão: Gráfica e Editora Formar
Foto Capa: David Protti
Foto contracapa: Acervo UFES
Imagens: Arquivos pessoais
Autora: Bernadette Lyra
Professora Emérita da Ufes , escritora, membro do IHGEL, da AEL, da AFEL
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2020

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