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Igreja de São Gonçalo – Por Elmo Elton

Igreja de São Gonçalo - 2012 - Foto: Walter de Aguiar Filho

Esta igreja chamou-se antes capela de Nossa Senhora do Amparo e da Boa Morte, ali funcionando uma Irmandade sob estas duas invocações. A capela teria sido erigida, possivelmente, em 1707. Sabe-se de documento, datado de 1715, onde se pede permissão para a construção, no mesmo local, da capela de São Gonçalo Garcia, santo português, nascido em 1200, na aldeia de Arriconcha, Termo de Guimarães, e falecido em 1259 (ou 1260?).

A igreja, de sólido acabamento, foi consagrada a esse santo, muitos anos depois, isto é, a 2 de novembro de 1766, com a presença do Visitador Diocesano padre Antônio Pereira Carneiro, vigário colado de Santo Antônio dos Campos, e do vigário da então vila de Vitória, padre Antônio Xavier, sendo esta a disposição dada, na ocasião, às imagens do altar-mor — Nossa Senhora da Assunção, ao centro; São Gonçalo Garcia, abaixo; Nossa Senhora do Amparo, à direita (Evangelho); Nossa Senhora do Rosário à esquerda (Epístola), tudo de acordo com a provisão firmada pelo citado Visitador, em nome de Dom Antônio do Desterro, bispo do Rio de Janeiro, a cuja diocese estava subordinada, em termos religiosos, a capitania do Espírito Santo. Atualmente, tal disposição já é outra, ostentando aquele altar, também, as imagens de Santo Inácio de Loiola e de São Francisco Xavier, ambas oriundas da igreja de São Tiago. Essas duas imagens, que datam do século XVII, são das mais preciosas e belas existentes no Estado. A imagem, de roca, de Nossa Senhora da Boa Morte também figura no altar-mor, em posição deitada, protegida por tampa de vidro.

Segundo o artigo 1º do Compromisso da Venerável Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, datado de 1870, passou a velha Irmandade, fundada em 1707, à categoria de Confraria, por provisão do Conde de Irajá, bispo do Rio de Janeiro e membro do Conselho de sua Majestade o Imperador, a 25 de fevereiro de 1858.

Lê-se, no referido Compromisso, que, daquela data em diante (1870), a Confraria seria "composta de Pardos livres de ambos os sexos, que tenhão 15 annos de idade, que por espirito de Devoção e piedade possão prestar serviços à Virgem Santissima Mãe de Deos e nossa Co-redemptora e por suas reconhecidas virtudes deem exemplos aos seos semelhantes: admitir-se-hão também homens e mulheres brancas em identico cazo, precedidas as formalidades que se estabeleceram n'este Compromisso".

Um esclarecimento: A primitiva Irmandade, antes denominada Nossa Senhora do Amparo e Boa Morte, teria ficado depois com as designações sucessivas de Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte dos Pardos e de Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, isso em decorrência de desavenças constantes entre os irmãos.

Demolida a igreja de São Tiago, no governo de Jerônimo Monteiro, a sede paroquial foi transferida dali, a 10 de novembro de 1911, para a igreja de São Gonçalo, igualmente para esta transferidos os ofícios religiosos da matriz de Nossa Senhora da Vitória, quando de sua demolição, em 1918.

Em 1932 Dom Benedito Paulo Alves de Souza, terceiro bispo da Diocese, em atenção a pedido da citada Confraria, assinou decreto elevando-a à condição de Arquiconfraria, nestes termos:

"Aos que o presente Decreto virem, saudação, paz e bênção em Nosso Senhor. Fazemos saber que atendendo ao pedido da Mesa Administrativa da Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, erecta na Igreja de São Gonçalo, de sua propriedade, nesta cidade episcopal, a qual teve início no ano de 1707 como simples Irmandade, elevada por provisão do Ordinário Diocesano de 1858 à Confraria: Considerando que até o presente tem sabido manter com toda a majestade e imponência o culto da Santíssima Virgem Nossa Senhora em sua igreja: Considerando mais que, desde o ano de 1918, nos tem dado carinhosa hospitalidade, servindo essa igreja de Catedral provisória, nela funcionando o Curato da Catedral, a Irmandade do Santíssimo Sacramento e demais associações religiosas da paróquia de Nossa Senhora da Conceição da Prainha de Vitória; embora por esse motivo, tenha sido a Confraria beneficiada com a reforma total da sua igreja que ameaçava ruína: Querendo nós dar um testemunho da nossa gratidão para com a mesma: Havemos por bem erigi-la em Arquiconfraria da Boa Morte e Assunção com todos os direitos e privilégios que pertencem às arquiconfrarias na forma do Canon 701 do Código de Direito Canônico. Damos portanto por erigida, na igreja de São Gonçalo de nossa cidade episcopal de Vitória, a Arquiconfraria da Boa Morte e Assunção e que, no mais breve tempo possível, seja confeccionado um novo compromisso para substituir ao atual, já antiquado, pois foi aprovado em 1870, devendo ser submetido à nossa aprovação logo depois de aceito pelos membros da Confraria. Dado e passado na Câmara Eclesiástica de Vitória, sede da Diocese do Espírito Santo, sob nosso sinal e selo de nossas Armas, a 15 de agosto de 1932, festa da gloriosíssima Assunção da Virgem Santíssima Nossa Senhora. Benedicto, Bispo Diocesano. De mandado de S. Excia. Revma. Pe. José Lidwin, — Secretário do Bispado."

As festas tradicionais da igreja de São Gonçalo, habitualmente precedidas de tríduo, isto é, de recitação do rosário e de ladainhas, foram sempre: — a procissão de Nossa Senhora da Boa Morte, realizada no dia 14 de agosto, com início às 19 horas, e a de Nossa Senhora da Assunção, às 17 horas do dia seguinte. Por muitos séculos, a Assunção de Maria apoiava-se apenas em tradição da Igreja, passando, depois, a dogma de Fé, no pontificado de Pio XII, quando das celebrações do Ano Santo de 1950.

A representação de Nossa Senhora da Boa Morte é feita por imagem antiga, de roca, a mesma que, durante o ano, fica exposta no altar-mor. Sai, na procissão, deitada numa espécie de leito (charola). Traz os olhos cerrados e arroxeados, lábios descorados, as mãos postas como em oração, os cabelos ocultos sobre o manto azul. Nos pés, pequeninos, estão modelados e pintados os sapatos, os mesmos que vão compor a imagem que é conduzida no dia seguinte.

Na representação de Nossa Senhora, viva e já assunta, a imagem, de 1,50 ms de altura, também de roca, é vista, na procissão, sobre a mesma referida charola, a cabeça tem aspecto saudável, risonho, os cabelos longos aparecem, mostra braços abertos, a mão esquerda ostenta uma palma e a direita um buquê de rosas brancas amarradas por um laço de fita de cetim azul-celeste. A atual vestimenta da santa, oferecida recentemente pelo senhor Jocarly Nascimento, o mais idoso dos membros da Arquiconfraria, difere de suas vestes primitivas, quando o manto, se bem me lembro, era de tecido encorpado, azul-pavão, salpicado de estrelas douradas, não sobrepostas ali, mas tecidas no próprio pano. Essa imagem, na procissão, ostenta uma coroa dourada, possuindo, no seu acervo de jóias e relíquias, uma outra de ouro de 18 quilates com peso de 218 grs., um colar de ouro trabalhado, dois anéis de ouro com pedras preciosas (brilhantes), um par de brincos de ouro, uma chave simbólica de prata e um punhal de metal.

Antigamente, da troca de vestes das duas imagens se incumbiam apenas as senhoras, sendo que tal tarefa agora a executam o provedor Carmosino Neves da Vitória e o irmão Jocarly Nascimento.

Ambas as procissões são acompanhadas pelos irmãos, homens e mulheres da Arquiconfraria. Primitivamente, os homens usavam hábitos pretos (balandraus), capa, escapulário de cetim azul e correa. Tal hábito teria sido cópia daquele que é vista na imagem de São Francisco de Paula, ali venerado, em altar lateral, desde o início da construção do templo. Atualmente, apenas os membros da Diretoria usam hábito, os demais irmãos saem de opa, assim como as irmãs.

Essas procissões, que hoje não têm, sequer de longe, o concorrido acompanhamento das de antes, são animadas pela Banda da Polícia Militar, sendo que, na da Boa Morte, tocam músicas fúnebres, e, na da Assunção, dobrados festivos. O andor, porque muito pesado, é conduzido, quase sempre, por jovens integrantes das Forças Armadas (Marinha e Exército). Anos atrás, após encerrada a segunda procissão, realizavam-se animados leilões no adro da igreja.

A Arquiconfraria mantém cemitério particular, no bairro de Santo Antônio, em Vitória. Esse cemitério teria sido inaugurado, tudo faz crer, quando, no mesmo bairro, também inaugurado o Cemitério Municipal de Vitória, em 1908. Antes disso, os defuntos, conforme sabido, eram enterrados no interior das igrejas ou, então, em áreas anexas às mesmas. Os irmãos gozam de direito de sepultamento ali, pelo período de quatro anos. Recentemente, foram construídos, no local, 58 nichos (ossários), visto a exigüidade de espaço para a abertura de novas sepulturas.

A igreja de São Gonçalo, tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional desde 8 de novembro de 1948, incluindo, nesse tombamento, imagens, alfaias e móveis (Livro de Tombo Histórico, fls. 42, insc. n9 251), situa-se na parte alta de Vitória. É pouco espaçosa, tem frontão em estilo barroco simples, com duas aberturas laterais, onde ficara os sinos: — um de um lado, dois do outro, outrora tangidos, nos dias de festa, pelo hábil sineiro Odilon Grijó, ex-provedor da Arquiconfraria. O templo dispõe de sacristia, consistório e coro, tendo este contado, até os anos 40, com organizadíssima orquestra, então regida pelo professor Arnulpho Mattos, exímio tocador de flauta e violoncelo.

Pela Lei nº 2145, de 14 de agosto de 1972, assinada pelo prefeito municipal de Vitória, Chrisógono Teixeira da Cruz, a Venerável Arquiconfraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção passou a ser considerada de utilidade pública.

Lastimavelmente a igreja de São Gonçalo, antes visível aos moradores e transeuntes de parte considerável da cidade, já agora não pode ser admirada de longe, visto a imperdoável construção de altos edifícios em toda a área onde a mesma se acha, tal desrespeito se registrando no que tange aos demais monumentos religiosos de nossa ilha.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017



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