Morro do Moreno: Desde 1535
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Igreja de São Tiago - Por Elmo Elton

Palácio Anchieta, 1909.

Afonso Brás, jesuíta, acompanhado do Irmão Simão Gonçalves, em 1551, saído de Porto Seguro, a 23 de março, no galeão Velho, juntamente com outros religiosos, os quais seguiram rumo ao sul, aportou, no mês seguinte, na vila do Espírito Santo (hoje Vila Velha), onde deu início à construção da igreja de Nossa Senhora do Rosário, ainda existente, ora tombada pelo SPHAN.

Com a transferência definitiva da sede do governo para Vila Nova atual cidade de Vitória, isso em decorrência de lutas constantes travadas entre índios e portugueses, aquele jesuíta, também, se transfere para a nova vila, aqui continuando seu trabalho evangelizador. Constrói, então, "pobre casa para nós podermos recolher nela. Ela está já coberta de palha, e sem paredes. Trabalharei para que se edifique aqui uma ermida junto dela em um sítio mui bom, em a qual possamos dizer missas, confessar e fazer a doutrina e outras cousas semelhantes".

Afonso Brás, que tinha conhecimentos de arquitetura e carpintaria, deu começo, de imediato, à construção do Colégio dos Meninos de Jesus e da igreja de São Tiago. Observe-se que o templo recebera o nome deste santo como referência a Santiago de Compostela, famoso centro de peregrinação na Hespanha. Os documentos mais antigos de nossa história regional não adotam a grafia São Tiago, mas sempre Santiago ou Sant'Iago, obedecendo, assim, à escrita hespanhola. Diga-se, de passagem, que, quando da inauguração do primitivo templo, a 25 de julho de 1551, a Igreja comemorava o dia do santo, embora tal denominação não fora apenas por ser aquela data a do santo, mas, naturalmente, em homenagem à devoção que a Hespanha, pátria do fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loiola, tinha pelo mesmo apóstolo, cuja biografia assim se resume:

Doze anos antes de Jesus Cristo nasceu Tiago, na Galiléia. Filho de Zebedeu e de Salomé, era irmão de João Evangelista. Deu-se-lhe a alcunha de Tiago Maior para distingui-lo do apóstolo de igual nome, o Menor, que foi bispo de Jerusalém. Era pescador de profissão. Um dia estava em companhia do pai e do irmão, pescando no lago de Genezaré, quando Jesus, ali passando, chamou os dois moços. No mesmo instante deixaram os pais, o barco, as redes, os peixes, as águas e as praias, tudo que formava a razão de ser de suas próprias vidas e seguiram a Jesus, que os agregou ao colégio apostólico. Com Pedro foram Tiago e João testemunhas da trans-figuração do Senhor e da oração no Horto das Oliveiras. Após a Ascenção, Tiago foi à Hespanha, ali lançando as primeiras sementes do cristianismo. Voltando a Jerusalém, é decapitado, por ordem de Herodes, sendo seu corpo sepultado, mais tarde, no local onde, em sua honra, já que padroeiro daquele país, se ergue a famosíssima catedral de Santiago de Compostela.

A primitiva igreja de São Tiago, em Vitória, com o passar dos anos, foi ampliada, recebeu reconstruções sucessivas, até adquirir o aspecto que lhe registram fotografias tiradas no fim do século passado e começo deste, pouco antes de sua demolição. Afonso Brás encantara-se com o Espírito Santo, tanto que, cinco meses após sua chegada aqui, escrevia que "é esta a terra onde ao presente estou a melhor e a mais fértil de todo o Brasil", mas o jesuíta se demorou pouco na capitania, isto é, apenas dois anos, visto que, em dezembro de 1553, era substituído pelo padre Lourenço Brás, seguindo para São Paulo, juntamente com os irmãos de hábito Leonardo Nunes, Vicente Rodrigues, Gregório Serrão e José de Anchieta, este ainda não ordenado sacerdote, todos procedentes da Bahia.

Lourenço Brás, em carta de 1554, informava que a igreja de São Tiago já estava bem maior, acrescentando que a mesma "será tan grande como la del nuestro colegio de Coimbra o mas, y enchese toda".

Em princípio de 1559 ocorreu um incêndio na Casa dos Meninos de Jesus, possivelmente atingindo parte da igreja, que lhe ficava anexa, registrando Brás Lourenço, em 1562, que "a igreja é pobre a qual nem ornamentos, nem retábulos, nem galetas tem, como dije mal providas de vinho e farinha para as missas".

Dito padre se demorou em Vitória até 1564, sendo que o templo, reconstruído e ampliado, tinha, em 1573, "mais cem palmos de comprido, fora a capela, e quarenta e cinco de largo", passando a ser de pedra e cal ali levados "por toda a gente principal que, com suas próprias mãos, ajudou a trazer pedras grandes para os alicerces".

Sabe-se que muitos jesuítas, ao tempo do Espírito Santo ainda capitania, celebraram missas e pregaram nessa igreja, tais como Manoel da Nóbrega, Diogo Jácome, Marçal Beliarte, Inácio de Tolosa, Antônio Blasques, Vicente Rodrigues, Fernão Cardim, Pero Corrêia, Luiz da Grã, Leonardo do Vale, Aspicuelta Navarro, Bartolomeu Simões Pereira e outros tantos, porém, o mais notável deles foi, sem dúvida alguma, o padre José de Anchieta que, ainda em 1566, novel sacerdote, de passagem para o Rio de Janeiro, na esquadra de Mem de Sá, ali celebrara missas de Natal, onde também pregou.

Anchieta, antes de fixar-se no Espírito Santo, estivera de passagem, algumas vezes em Vitória, sendo que, em 1587, deixando o cargo de provincial da Companhia de Jesus, assume o de superior do Colégio de Vitória, gabando então a igreja de São Tiago, tal o fizera, quatro anos antes, o padre Fernão Cardim, ao registrar este que "os padres têm uma casa bem acomodada, com sete cubículos, e uma igreja nova e capaz".

Durante a permanência de Anchieta em Vitória foram concluídas novas obras tanto no colégio como na igreja, até que, em fins daquele ano, estando na aldeia de Reritiba, que lhe era a predileta, retorna à sede da capitania, recebendo do padre Marçal Beliarte a comunicação de que fora confiado a ele (Anchieta) o cargo de visitador das casas do Sul.

Em 1594, Anchieta, após dois anos de estada no Rio de Janeiro, volta definitivamente para o Espírito Santo, sendo que, ano seguinte, cessada violenta epidemia que aqui se alastrara desde meses antes escreve o Auto da Vila da Vitória ou Auto de São Maurício, representado, a 22 de setembro do mesmo ano, no adro da igreja de São Tiago, aí também encenado, mês depois, o Auto das Onze Mil Virgens ou Auto de Santa Úrsula. São Maurício, padroeiro da vila de Vitória, dava nome a um dos fortes da ilha, também conhecido como Fortaleza de Santo Inácio. A imagem do mártir legionário trazia no nicho, colocado sobre o portão dessa edificação militar, uma lanterna sempre acesa.

A igreja de São Tiago guardava várias relíquias de valor, tais como, entre outras, a cabeça de São Maurício, artístico relicário contendo fragmentos ósseos das Onze Mil Virgens, recebido em 1595, restos de São Vidal e de outros mártires da Legião Tebana.

Depois do rompimento de Martin Lutero com a Igreja, sendo que uma das causas desse rompimento se dera visto o padre agostiniano não concordar com o culto e comércio de relíquias, eis que a Igreja, revidando os protestos luteranos, passa a dar maior ênfase ao culto das mesmas, instituindo a Festa das Santas Relíquias, comemorada a 5 de novembro de cada ano.

Relíquias de santos são o que deles restam, após a morte: ossos, cinzas, vestes e outros objetos de seu uso. O Concílio Ecumênico de Trento, convocado pelo Papa Paulo III e realizado de 1545 a 1563 para o estabelecimento definitivo dos dogmas da Igreja Católica, ensinou que "os corpos dos mártires e de outros santos, que foram membros vivos de Jesus Cristo e templos do Espírito Santo, devem ser honrados pelos fiéis, já que Deus, por intermédio deles, concede grandes benefícios aos homens (...) Quando Deus opera milagres, servindo-se das Santas Relíquias, está claro que os fatos miraculosos não são produzidos materialmente pelas relíquias, mas pela vontade divina. A heresia condena a veneração das relíquias e o culto dos santos; a Igreja ensina e decreta um e outro ato. Note-se, porém, que nunca ensinou nem aconselhou a adoração dos santos e de suas relíquias".

A relíquia (cabeça) de São Maurício teria vindo diretamente do Vaticano para a igreja de São Tiago, em decorrência de pedido dos próprios jesuítas, já que esses emprestavam brilho especial ao culto das relíquias. São Maurício comandava a legião tebana no Oriente: na Síria e na Palestina. O imperador Maximiano, tendo exigido prestasse a legião adoração às divindades pagãs para alcançar ajuda nas lutas movidas contra o império romano, não foi atendido pelos novos soldados cristãos, o que motivou o morticínio de 6661 legionários, a 26 de setembro do ano 286, no lugar hoje denominado São Maurício de Agauna. Quanto às relíquias das Onze Mil Virgens, sabe-se que Úrsula (362-383) e outras donzelas, todas convertidas ao cristianismo, destinavam-se a casamentos forçados com oficiais bretões, daí que, embarcadas com destino a Nantes, nas Gálias, onde os mesmos se encontravam. Acontece que a frota foi atacada pelos hunos, então devastadores de impérios da Europa. Úrsula, que era filha de Dionato, rei de Cornubia, e suas companheiras, porque não aceitassem as propostas indecorosas dos hunos, foram degoladas, a 21 de outubro do ano 383.

Em 1597, na manhã de 9 de junho, domingo, falece, na aldeia de Reritiba, o padre José de Anchieta, sendo seu corpo trazido, com grande acompanhamento de índios e portugueses, até a vila de Vitória, recebendo sepultamento na igreja de São Tiago. O padre Bartolomeu Simões Pereira, que lhe celebrou as exéquias, proclamou-o, na ocasião, Apóstolo do Brasil. Os ossos do santo jesuíta permaneceram, ali, até 1609, quando, por determinação do Geral da Companhia de Jesus, no Brasil, o padre Cláudio Acquaviva, foram levados para a Bahia, às escondidas da população de Vitória, ficando, contudo, com os jesuítas moradores na vila, alguns ossos, entre os quais a tíbia direita.

Em 1759, os padres da Companhia de Jesus, por ordem do Marquês de Pompal (Sebastião José de Carvalho e Mello), foram expulsos de Portugal e seus domínios, sendo que, a 22 de janeiro do ano seguinte, deixavam esses padres os residentes em Vitória e no interior, num total de dezesseis, a capitania do Espírito Santo, pela nau Libúrnia, após confiscados todos os seus bens, menos o Colégio e a igreja de São Tiago, como também as residências de Reritiba e Nova Almeida.

Trinta e sete anos após a retirada dos jesuítas do Brasil, eis que a igreja de São Tiago é prejudicada por novo incêndio, ocorrido às 21 horas do dia 28 de setembro de 1796, tendo o povo se abalado "perante o espetáculo terrível das chamas que se elevaram da capela-mor daquele templo rico em tradições caríssimas aos vitorienses".

Maria Stella de Novaes, sobre tal ocorrência, informa:

"Costumavam os moradores da Vila festejar o dia de São Miguel, com preparativos tradicionais, em que não faltavam um mastro levantado na véspera. Mascarados, ou melhor, festeiros, vestidos a caráter, traziam aquele inestimável troféu, para a frente da matriz, de acordo com a tradição, desde o tempo dos jesuítas que, para distração dos estudantes e estímulo de seu gosto literário, criaram a festa das Onze Mil Virgens e outras divulgadas pelos cronistas.

— Os máscaras apregoavam a festa, mediante um Bando, em versos, decassílabos, rimados, ao par (...). Havia-se concluído essa parte inicial dos festejos ,quando surgiu um clamor coletivo: — Fogo! Logo, fantasiados, indígenas e o povo correram a lutar contra as labaredas, enquanto as mulheres transportavam as crianças para os morros protegidos pelas florestas.

— Os barris!

Três dessas reservas de pólvora estavam guardadas num salão contíguo ao foco do incêndio. Foram retirados providencialmente. Entretanto, quais os recursos para extinguir-se um incêndio de tais proporções, naquele tempo? As reservas de água consistiam apenas em poços escavados, em diversos pontos da Vila, principalmente na rua do Egito. Então o povo lançou mão de potes, bilhas, purrões e demais utensílios próprios, que foram apanhados e, cheios de água, atirados à fogueira.

— Trabalhou-se a noite inteira e no dia seguinte. Finalmente verificou-se que o primoroso altar-mor, obra de talha e dourados finíssimos, executados pelo famoso artista Irmão Trigueiros, estava inteiramente destruído".

Das imagens carbonizadas, dentre as quais se incluíam as de São Tiago, São Lourenço, os bustos-relicários de santas Úrsula e Córdula, além de tantas outras relíquias, restaram apenas duas imagens preciosíssimas, as de Santo Inácio (1491-1556) e São Francisco Xavier (1506-1552), datadas do século XVII, isto é, esculpidas logo após a canonização dos dois jesuítas, ambas podendo ser admiradas na igreja de São Gonçalo, onde se encontram desde 1940.

Afirmam alguns cronistas que a imagem de São Tiago era toda de prata, afirmação a que não se pode dar o menor crédito, assim como alegaram, também, que as imagens de Santo Inácio de Loiola e São Francisco Xavier, ambas de madeira, eram de bronze, isso em decorrência, talvez, da pintura dourada dessas imagens, que, vistas de longe ou de relance, podem até parecer metálicas. Quanto à imagem de São Tiago teria arabescos cinzelados em prata sobre a escultura, tal como se vê, ainda hoje, na imagem de São Francisco Xavier, na Sé da Bahia.

Das demais relíquias que restaram da igreja, afora as duas já citadas imagens, conhecem-se apenas algumas pias de pedra, fragmentos de talhas (capitéis), também parte de retábulo de um de seus altares laterais. Esse retábulo, finalmente entalhado, mas grosseiramente repintado, vi-o, por muito tempo, servindo de altar à capela do cemitério de Santo Antônio, para onde teria sido levado, quando da demolição do templo.

Em 1860, a 26 de janeiro, o imperador Pedro II, com luzida comitiva, chega a Vitória, visitando, no mesmo dia, a igreja de São Tiago, já então conhecida como "Capela Nacional", tal se lê em seu diário de bolso:

"Te-Deum na igreja dos Jesuítas, hoje Palácio, lápide da sepultura de Anchieta na capela-mor perto dos degraus do altar-mor".

Lastimavelmente, durante o governo de Jerônimo de Souza Monteiro, tanto a igreja como o colégio perderam suas linhas características, da igreja restando apenas as paredes externas, tendo o governante escrito em seu relatório final que, "em face do progresso material que se acentuava e cada vez mais se acentua na Vitória, pela transformação que vai se operando no aspecto da cidade, que renasce e se embeleza nas novas construções, que vão surgindo, não podia continuar o edifício do Palácio do Governo com a sua vetusta feição conventual, em contraste com as linhas de arquitetura dos edifícios novos e em flagrante infração das posturas municipais. No plano da reconstrução, entraram a elevação de todo o edifício rasgamento das acanhadas portas e janelas, revestimento de toda a fachada, platibandas e cornijas, a abertura da entrada principal na parte fronteira ao cais do Imperador, ao invés da antiga entrada pelo lado da igreja de São Tiago (já desapropriada para esse fim), para as repartições públicas e para o museu, formando um edifício separado, se bem que obedecendo aos mesmos traços da arquitetura do Palácio".

Ora, alegar-se que a igreja fora desapropriada para nela instalar-se um museu é coisa descabida, de espantar, não fosse a mesma já por si um autêntico, preciosíssimo museu. Documento firmado pelo Bispado do Espírito Santo, em 1911, diz que "o adquirinte (o Governo) é obrigado a entregar ao Bispado o túmulo em que se acham os restos mortais digo, os restos memoráveis do Padre José de Anchieta, ocorrendo com as despesas da remoção e construção do túmulo no local destinado, obrigação essa que será observada, sob pena de ser o Bispado indenizado da quantia de vinte contos de réis, obrigando-se ainda o Governo a entregar todos os móveis e utensílios existentes na igreja e mais objetos do culto religioso que existirem na mesma igreja".

A conservação do túmulo não se fez nem, por isso, se pagou multa alguma ao Bispado, então dirigido por Dom Fernando de Souza Monteiro, irmão do presidente do Estado, tal se deduz do que informa o Dr. João Lordelo dos Santos Souza, médico baiano, então diretor dos Serviços Sanitários do Espírito Santo, em carta dirigida ao escritor Xavier Marquês, com data de 10 de agosto de 1913, nestes termos:

"A capela de São Tiago, que fica junto do Palácio do Governo, está sendo demolida, por ter sido desapropriada para a criação de um estabelecimento: Museu do Estado.

Prazerosamente, após a leitura de sua prezada carta; fui em busca do jazigo do Pe. Anchieta, e de acordo com as informações que me deu. Indagando, soube que havia uma lápide em frente ao altar-mor, onde consta ter sido inumado o Pe. José de Anchieta. Mandei proceder a uma pequena escavação. Sob os escombros, de fato, encontrei a referida lápide, com os seguintes dizeres: Hic jacuit venerab, P. Josephus de Anchieta Soc. Brasiliae Apost. e novi orbis Taumaturg. Obit Reritibae diae IX jun. ann. MDXCVII". Não existe, porém, a sepultura do Pe. Gregório Serrão. Pela inscrição verifica-se que aí fora sepultado o Pe. José de Anchieta, visto dizer jacuit e, pelos documentos existentes na Biblioteca Pública do Estado, consta que efetivamente os ossos foram, em 1611, trasladados para o Colégio dos Jesuítas da Bahia. No entanto, ainda existe um fêmur que esteve muito tempo guardado na Tesouraria da Fazenda e pertenceu ao esqueleto do bem-aventurado extinto. Quanto ao segundo quesito, tenho a declarar a existência do fêmur. Tendo eu encontrado falsas costelas e outros ossos (vértebras etc. ) na sepultura sobre a qual estava a lápide, não sabendo se de fato pertencem a Anchieta. Não existem documentos que provam a existência dos despojos nesta cidade, tendo tido informações fidedignas sobre o fêmur, de um respeitável serventuário federal.

Dentro em breve deverá chegar à Capital o Excelentíssimo Senhor Bispo Diocesano e fica a meu cuidado pedir-lhe a trasladação da lápide e do conteúdo da sepultura para outra igreja. Dar-lhe-ei disso informações circunstanciais".

A artística lápide do túmulo do padre José de Anchieta, ali colocada no século XVII, foi, posteriormente, transferida para o local onde hoje se encontra.

Leia-se, ainda a propósito do mesmo túmulo, esta in-formação do engenheiro Antônio Athayde:

"Já o Governo do Espírito Santo havia adquirido a igreja de São Tiago e iam se efetuar as obras de adaptação para as repartições públicas, começando pelas escavações do solo. Exercíamos o cargo de diretor de Agricultura Terras e Obras, na administração do Coronel Marcondes (1912/1916), quando tivemos de assistir à retirada da pedra de Anchieta, com muita dificuldade devido a seu grande peso, que fora, naturalmente, colocada ali na intenção de ficar "ad perpetuam rei memoriam", porém não se encontrou nenhum despojo dentro de seu túmulo. Estava completamente vazio".

O Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nas comemorações do centenário da Independência do Brasil, mandou construir no local, isto é, sobre a referida lápide, uma coluna com o busto do famoso jesuíta, trabalho do escultor conterrâneo Paulo Motta.

O templo, antes de demolido, possuía duas torres, uma delas, a mais alta, manteve-se de pé até o governo de Nestor Gomes (1920-1924), sendo a menor, a das semáforas, ali instaladas para orientação de embarcações que se destinavam ao porto de Vitória, demolida em 1911. Registre ainda que, ao tempo em que o comércio local abria às seis horas e cerrava as portas às vinte e duas horas, o sinal de silêncio era dado pelo sino dessa torre.

A 29 de outubro de 1939, na administração do interventor João Punaro Bley, na mesma área onde se erguia a igreja de São Tiago, irrompeu violento incêndio, destruindo as oficinas do Diário da Manhã, no andar térreo, e todas as repartições do pavimento superior, isto é, as secretarias do Interior e Justiça e de Educação. Não se salvou coisa alguma, a não ser o túmulo simbólico do padre Anchieta, que ficou intacto, ali se construindo, mais tarde, a cripta atual, ponto de visita obrigatória de devotos e admiradores do jesuíta, recentemente beatificado.

Concluindo, é de reprovar-se tenha Jerônimo de Souza Monteiro, sabidamente um dos maiores administradores que já teve o Espírito Santo, planejado e executado a destruição de obra tão valiosa da arquitetura colonial brasileira, tudo mediante integral apoio de seu irmão Dom Fernando, 2º bispo deste Estado. É que ambos, embora espirito-santenses, nascidos na fazenda de Monte Líbano, em Cachoeiro de Itapemirim, viveram a meninice e juventude fora de Vitória, portanto pouco ou nada conheciam das melhores tradições da cidade, como bem o comprovam esta e outras demolições ocorridas exatamente no governo temporal e espiritual de um e de outro.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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