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Igreja e Convento de São Francisco – Por Elmo Elton

Igreja e Convento de São Francisco - Reprodução: Douglas Lynch

Em 1589 dois jovens frades franciscanos, Antônio dos Mártires e Antônio das Chagas, vindos a chamado do donatário Vasco Fernandes Coutinho Filho, chegavam a Vitória, para a construção de um convento. O donatário, porém, falecera antes, a 5 de maio de 1588, mas os religiosos foram recepcionados, carinhosamente, pela viúva, a então governadora da capitania, Dona Luíza Grimaldi, seu adjunto capitão Miguel de Azeredo, o vigário e ouvidor da vara, padre Domingos de Cristo e Marcos de Azeredo, que os hospedou em sua casa.

Não deram os frades, contudo, início às obras, por dificuldades encontradas, retornando a Olinda, de onde haviam chegado, sendo que, em janeiro de 1591, ei-los de volta ao Espírito Santo, quando lançaram, então, os primeiros alicerces do convento, em Vitória, em terrenos que lhes foram doados.

Enquanto se ia construindo o cenóbio, residiam os franciscanos em casa coberta de palha na base da ladeira da Tapera (atual Rua Imaculada Conceição), que se esbarrava ao pé do morro onde se iniciara a construção. Mal levantadas as primeiras paredes, faleceu frei Antônio dos Mártires, daí que as obras, logo paralisadas, só tiveram continuidade dois anos depois, sob a direção de frei João de São Miguel, que, de imediato, procurou erguer as paredes dos corredores.

Em 1597 frei Antônio das Chagas iniciou a construção da igreja conventual, sendo que, cinco meses depois, nela já se celebrava a primeira missa. Como a população de Vitória era constituída de pessoas de escassos recursos, das quais dependiam os frades, a construção tanto do convento como da igreja se demorou mais do que se imaginara.

O monastério, segundo depoimento de frei Apolinário da Conceição, não era grande, mas muito perfeito pela regularidade, embora as suas celas fossem pequenas e pobres. Chegava-se a ele por uma larga ladeira com muro em ambos os lados. O costumado cruzeiro, no começo da subida, foi colocado em 1744, pois que trazia nele esta data. Em 1912 a ladeira foi cortada para alargamento da Rua Coronel Monjadim (antes chamada da Capelinha), o cruzeiro foi removido não sei para onde, tendo a prefeitura municipal assinalado o local em que o mesmo estava assentado com uma lápide, hoje desaparecida (ou soterrada?), com as datas 1744- 1912 e as iniciais S (ão) F (rancisco).

A igreja, por sua vez, era de "mui limitado espaço, havia três altares, ornados de talha, e quem a mandou fazer foi o venerável frei Cosme de São Damião, que o convento teve a felicidade de ter por guardião por mais ou menos três anos, isto é, de 1617 a 20. No altar mor achava-se a imagem do padroeiro e, em nichos laterais, as de Santo Antônio e de São Benedito. O altar do lado da Epístola era da Conceição e o da parte do Evangelho de São Boaventura".

A capela da Ordem Terceira da Penitência, construída não se sabe em que data, ligava-se à igreja conventual por uma abertura em arco, tinha cinco ou seis altares, onde figuravam imagens de porte, inclusive oito delas representando estágios da Paixão de Cristo.

Das datas mais significativas que dizem respeito à igreja e ao convento enumeram-se estas:

Em 1609 os franciscanos receberam, em procissão os despojos de frei Pedro Palácios, aquele que edificara, em Vila Velha, a Ermida das Palmeiras, transformada, com o decorrer dos anos, no Convento da Penha. Esses despojos, cuja trasladação se fizera sob os protestos da população vilavelhense, ficaram no convento, tendo o imperador Pedro II, em 1860, quando de suas duas visitas a este cenóbio, anotado em seu diário de bolso a inscrição colocada sobre o local onde se achavam os mesmos: Vee Petri e Palatus Sanctuarri D. N. de Penha Fundatoris Reliquae simul cum crucis arundinae sigillo que prae manibus gestori consueverat hic sitae sunt. 1774", cuja tradução é a seguinte: "Aqui estão depositados os restos do Venerável Pedro Palácios, fundador do Santuário de Nossa Senhora da Penha, bem como o cajado com o sinal da cruz que nas mãos costumava trazer". Informou o imperador que as letras estavam "pintadas em chapa de chumbo". Acredito que a chapa que ele julgara de chumbo nada mais era que uma lápide de pedra sabão, cuja cor se parece com a do chumbo, conforme constatei em velhos ossários da igreja do Rosário, em Vitória.

A 14 de outubro de 1737 os frades receberam da parte da Câmara um chão de marinha, no lugar denominado Lapa, onde o guardião frei Diogo de Santo Inácio construiu um depósito (trapiche) de víveres que angariavam em seus peditórios pelo interior da capitania. Chegava-se a este cais pela ladeira da Tapera, sendo que o mesmo foi aterrado em 1898, no governo de Moniz Freire, dando lugar à conhecida Rua Cais de São Francisco.

Em 1752 o guardião frei Amaro da Conceição, em ofício datado de 21 de fevereiro de 1752, requereu matrícula de Santo Antônio (com imagem na igreja do convento) como soldado na Companhia de Infantaria, passando o taumaturgo a receber, por mês, um vintém de cada praça e dois por oficial. O comandante da corporação militar, na ocasião, chamava-se José Borges.

Em 1769 terrível seca se registrou no Espírito Santo. "Faltava água na vila de Vitória, os animais, sem pasto, morriam de sede e fome, não havia víveres para a população, "enquanto a mata do outeiro da Penha, em Vila Velha, conservava-se úmida e fresca", daí que os vitorienses, com a pronta permissão dos franciscanos, trouxeram, em procissão, a imagem de Nossa Senhora da Penha até a vila de Vitória. Registram os cronistas que, mal a imagem chegara ao convento de São Francisco, desabou chuva copiosa por toda a capitania, realizando-se, assim, o milagre que os devotos tanto esperavam da santa.

Procedeu-se, em 1744, à reforma do frontispício da igreja, embelezando-a, já que, à época de sua construção, não se conhecia frontão em linhas curvas, predominando, assim, o estilo jesuítico, de linhas retas, despojado de adornos.

Atendendo a pedido da Câmara, os franciscanos, em 1783, inauguraram, no convento, um curso de Filosofia, nomeando-se frei Antônio da Natividade para regê-lo, sendo que, no ano seguinte, construiu-se a torre da igreja, com três sinos, dois não têm inscrição, trazendo o terceiro, de tamanho menor, esta legenda: José Maria JHS — 1781. Ecce crucem domini fugite partes adversae. Joannes Ferreira Lima me fecit. Bracharae.

Em 1824, o ministro provincial, por seu secretário frei Francisco de Monte Alverne, deu ordens ao guardião para, com toda prudência e sem reparo dos irmãos da Ordem Terceira, retirar o Santíssimo de sua capela. Tal recomendação se fizera diante do comportamento pouco recomendável dos membros da Irmandade de São Benedito, de que darei notícias mais adiante.

O Convento de São Francisco, em Vitória, desde 1596 a 1638 ou, se muito, até 1672, servia de noviciado aos moços que pretendiam ingressar na Ordem, sendo que, depois, com a fundação de outras casas no sul, deixou de receber tais candidatos, embora no cenóbio vivesse número considerável de religiosos, alguns deles falecidos em odor de santidade. Em 1765 o número de conventuais chegou a 25. Infelizmente, talvez porque se fossem escasseando as vocações, eis que, durante todo o século XIX, poucos os frades que ali residiram.

Frei Basílio Rower, em suas Páginas de história franciscana no Brasil, cita, com dados curiosos (ou fantasiosos?) alguns dos frades que viveram e morreram em Vitória, tais como frei Antônio dos Mártires, frei Antônio de Santa Maria, que era leproso, frei Francisco da Madre de Deus, mais conhecido como o enfermeiro das contas brancas, frei Simão do Espírito Santo, apelidado Simânico por causa de sua estatura pequena, tendo o historiador Gomes Netto afirmado que "oitenta os religiosos que morreram com fama de santidade em todo o tempo de existência do Convento de Vitória, avultando-se o número de religiosos leigos".

No primeiro meado do século XIX, quando já em plena decadência o velho cenóbio, construiu-se, em frente da igreja, um alpendre, de cinco arcos. A construção se fez a pedido dos irmãos da Irmandade de São Benedito, esta funcionando junto do convento desde 1595. Tal alpendre servia, nas festas de São Benedito, para a realização de leilões, e foi aí que frei Manuel de Santa Úrsula atirou todos os pertences da Confraria, após discussão acalorada com os irmãos. por ter o frade-guardião proibido a saída da procissão de São Benedito, no ano de 1832, assunto já tratado em outro artigo.

É sabido que os irmãos beneditinos, com o passar do tempo, julgavam-se donos da igreja e do próprio convento, embora pouco ou nada fizessem pela conservação de ambos. Pretendiam, em 1877, alterar a forma exterior desses imóveis, para ampliar a área destinada aos leilões, já reconstruída ano antes. Contra isso se opôs frei João do Amor Divino, sendo que, em 1880, permitiu-se, sob certas condições, sua ampliação, não tendo a mesma, contudo, se procedido.

Frei João do Amor Divino Costa fora designado, em 1867, para administrador dos conventos de São Francisco e da Penha. "De 1870 a 1877 serviu de vigário na Vila Velha e, depois, residia ora na Penha, ora no Rio. No Espírito Santo deixava como seu representante um sacerdote encarregado do espiritual e um síndico do temporal. Assim continuaram as coisas até 1898, ano em que a Santa Sé, depois de consultar os superiores da Ordem, entregou ambos os conventos à Mitra, recém-criada em Vitória".

Os integrantes da Irmandade de São Benedito, os chamados caramurus, repito, cada vez mais se sentiam donos do Convento, ali continuando a realizar suas festas, antes profanas do que mesmo religiosas. As procissões do santo saíam, todos os anos, sob grande entusiasmo, as festas sempre acompanhadas de leilões, durante os quais aconteciam brigas, muitas discussões, com a presença de desocupados, de capoeiras, razão por que A Gazeta de Vitória, em sua edição de 8 de junho de 1881, ano em que não houve leilão, graças medidas tomadas pelo Dr. Tito Cabral, Ribeiro Coe-lho, Sebastião Fernandes e Cleto Nunes, escrevia: "... acabou-se aquela antiqualha. Não pediram pimenta nem melaço, peixe e cabritos, por entenderem que aquilo é até imoral, e sim — esmolas em dinheiro".

Das disputas entre os devotos de São Benedito, desde o roubo da imagem do santo, da igreja do Convento para a do Rosário, assim se expressa Basílio Daemon:

"Relatar as desordens que por muito tempo houveram por essa causa, os ataques e provocações havidas de um e outro lado a ponto de haverem muitos ferimentos, como fossem na Ladeira de Pernambuco, na Rua dos Quadros, Largo da Conceição, Porto dos Padres, e outros lugares, seria encher páginas, porque não foram poucas as desordens nem de pouco alcance os ferimentos, visto os irmãos chegarem a formar dois grupos distintos e com bandeiras à frente irem contender uns com os outros, resultando disso não pequena alteração de ânimos, e ainda hoje que a civilização há bastantemente arrefecido, contudo, ainda se encontram muitos irmãos pertencentes às Irmandades de São Benedito, de São Francisco e Rosário que, despeitosos, por motivos frívolos de festividades e primazias, se exarcebam".

A 27 de março de 1905, o bispo diocesano Dom Fernando de Souza Monteiro baixou portaria reduzindo a três as procissões de Vitória, excluindo. naturalmente, as duas de São Benedito, que saíam do Convento e do Rosário, em datas diferentes. Os caramurus e peroás se revoltaram contra tal medida, mas de nada adiantaram seus protestos.

A Irmandade de São Benedito do Convento continuou apenas com a realização de seus leilões, e porque quisesse de volta a sua procissão, endereçou documento ao bispo pedindo-lhe permitisse a realização da mesma, lembrando tal documento ter a Irmandade fundado, em 1874, a Sociedade Emancipadora Primeiro de Janeiro, "quando começava a evoluir o espírito de extinção dos escravos", de ter libertado com o produto de suas rendas a diversos irmãos cativos, de ter aberto, também, em 1874, nas dependências do Convento, um hospital para tratamento de variolosos, de ter criado uma escola noturna, após a Lei de 13 de maio de 1888, onde aprenderam muitos libertos, de ter fundado a Sociedade Beneficente Franciscana, que, "embora de caráter mormente civil, há prestado muitos socorros aos indigentes e pensiona a família de seus sócios falecidos etc.".

Dom Fernando, contudo, fez-se surdo aos pedidos e reclamos dos caramurus, de forma que, a partir de 1910, já a Irmandade praticamente não existia... A igreja e o convento se arruinavam, de ano para ano, sem que a Diocese desse um passo para reconstituir tão importante monumento, basta se dizer ter sido o convento franciscano de Vitória o primeiro construído no sul do Brasil Colônia (Província Franciscana de Nossa Senhora da Conceição).

Em 1926 o padre Leandro Del'Uomo, italiano, sem conhecimento algum sobre a história deste País, põe abaixo o convento, naturalmente com o apoio de Dom Benedito Paulo Alves de Souza, que, antes, porque desamante das tradições da cidade, mandara destruir a velha matriz de Nossa Senhora da: Vitória, para, no mesmo local, construir um novo templo, a Catedral. Desmontado todo o convento e sua igreja, não se poupou, sequer, a sepultura com os ossos e o cajado de frei Pedro Palácios. Da capela da Ordem Terceira da Penitência o padre demolidor aproveitou as muralhas, alterou-a e prolongou-a através do corpo da igreja conventual, da qual conservou apenas a fachada. Também destruiu o alpendre, o que lá se vê, agora, é de construção recente, trabalho de André Carloni, no início da década de 50. Imagens, alfaias, o mobiliário primitivo, tudo isso se dispersou...

O padre Leandro Del'Uomo tentou edificar, no local, o Orfanato Cristo Rei, obra meritória por certo, mas nunca concluída, não hesitando, contudo, em por abaixo um monumento de mais de trezentos anos, numa terra onde poucos os de tamanha antigüidade e valor histórico.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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