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Igreja e Convento do Carmo – Por Elmo Elton

Praça do Carmo e Colégio 1900 - Acervo: José Tatagiba

Os carmelitas, chefiados ao Brasil em 1580, fundaram, em 1682, na vila de Vitoria, o Convento de Nossa Senhora do Monte do Carmo, sendo seu primeiro prior frei Agostinho de Jesus, este recebendo, para a construção e manutenção do novo cenóbio, valiosos donativos do capitão Manuel Torres de Sá, cujo falecimento ocorrera, nove anos depois, isto é, a 19 de novembro de 1701. Tal benfeitor legara aos carmelitas, em testamento datado de 4 de março de 1696, sua fazenda com engenhos de cana, situada em Piranema, no atual município de Cariacica, e mais trinta escravos, assim como capela, ali existente, sob a invocação de Nossa Senhora do Desterro. O doador estabelecera a condição de serem celebradas missas por sua alma e festejar-se, todos os anos, solenemente, o patriarca São José, acrescentando, contudo, que todos esses bens, caso não se cumprissem as cláusulas testamentárias, se reverteriam em favor do Hospital da Misericórdia.

A 22 de setembro de 1685, quando o prior geral dos carmelitas firmou decreto desdobrando a vigararia do Brasil em duas, — a do Rio de Janeiro e a da Bahia-Pernambuco —, anexou à primeira o convento de Vitória, divisão confirmada por Inocêncio XI, pelo breve papal de 8 de fevereiro de 1686.

No Carmo de Vitória não chegaram a residir muitos frades, sendo que o número deles diminuía de ano para ano, tanto que, em 1855, lá existia apenas um carmelita, positivamente o último prior, frei Antônio de Nossa Senhora das Neves, falecido em 1871. Quando Dom Pedro II, em 1860, visitou o convento, anotou em seu diário de bolso que o mesmo, embora "arruinado, tem boas paredes", "boa igreja", "a capela dos 3os ao lado da igreja a mais bonita que visitei..."

O estado ruinoso em que o mesmo se encontrava não seria por falta de recursos para a sua restauração, visto que a fazenda de Piranema, considerada das melhores da província, proporcionava uma renda anual de vinte contos, tudo fazendo crer que frei Antônio de Nossa Senhora das Neves dava maior importância a esta do que ao convento, uma vez que, na fazenda, elevara o número de escravos para oitenta, nela cultivando café e cereais, vendendo-os a bom preço na praça.

Em 1860 os carmelitas permitiram que parte do convento servisse de alojamento à Companhia de Guarnição, embora tal permissão não tivesse aproveitamento imediato, tanto que, em 1862, o presidente da província, o bacharel José Fernandes da Costa Pereira Júnior, referindo-se à urgência de dar-se melhor abrigo àquela corporação, escrevia em seu relatório encaminhado à Assembléia:

"O único remédio para essa situação penosa consiste em remover tanto o quartel quanto a enfermaria para o velho e quase abandonado Convento do Carmo, fazendo-se nele alguns reparos. Diversos orçamentos têm sido enviados ao Ministro da Guerra para esse fim, mas, naturalmente, a necessidade de rigorosa economia, para que o Estado possa satisfazer graves compromissos pecuniários, tem obstado a execução daquela obra".

Não desespero, porém, e dia virá em que a milícia possa abrigar-se no velho e deserto edifício que já serviu de asilo à piedade do monge dos tempos de ascetismo".

Em 1896 o arcipreste Eurípides Calmon Nogueira da Gama Pedrinha reclamou a devolução do convento à Diocese do Espírito Santo, então recém-criada, mas ainda sem bispo a dirigi-la, empenhando-se com senadores, deputados e outras autoridades para que encontrassem solução favorável à sua pretensão, tendo entregue a causa ao Encarregado dos Negócios da Santa Sé, monsenhor Guidi, e ao Bispo de Niterói, Dom João Fernando Thiago Esberand.

Assim foi que, a 22 de dezembro de 1896, Dom Esberand expedia ofício ao arcipreste Pedrinha, juntando cópia do despacho do Ministro da Justiça, nestes termos:

"Ministério da Justiça e Negócios Interiores 1ª. Seção — Diretoria do Interior.

Capital Federal, 14 de dezembro de 1896.

Senhor Presidente do Estado do Espírito Santo:

A fim de ser instalada a residência do bispo da diocese ultimamente criada, e de acordo com o que solicitaram vosso antecessor e o bispo da diocese de Niterói, resolveu o Governo Federal restituir a igreja e parte do convento da Ordem Carmelitana, na cidade de Vitória, a qual fora cedida, em 1860, para servir de aquartelamento à força de linha, ali existente.

Dando-vos disto conhecimento, comunico que, segundo declara o Ministro da Guerra, em aviso de 10 do corrente, foram expedidas as necessárias providências no sentido de ser desocupado o referido edifício.

Saúde e fraternidade

Alberto Torres"

 

O comandante da Companhia de Guarnição, apesar da portaria ministerial autorizando a desocupação do imóvel, relutou na entrega do mesmo, somente o fazendo em fins de janeiro de 1897. Ressalte-se que o caso de entrega definitiva do Carmo à diocese perdurou até 1911, e só teve desfecho favorável, justo se diga, graças à atuação persistente do senador João Luiz Alves, então representante do Espírito Santo no Senado Federal.

Com a chegada do primeiro bispo diocesano Dom João Batista Correa Néri, eis que o Convento do Carmo deixou de existir, a rigor, com tal denominação, nele passando a funcionar o Ateneu Diocesano, depois transferido para o Convento da Penha. Dito prelado promoveu, apenas ligeiramente, a reforma da igreja, chamada o Carmo Grande, dando-lhe a designação de Episcopal Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, da qual era devoto, retirando do altar-mor a centenária imagem de Nossa Senhora do Carmo e substituindo-a pela nova padroeira. As festas de Nossa Senhora do Carmo realizava-se, anualmente, em Vitória, a 16 de agosto, quando eram distribuídos escapulários aos fiéis pelos Irmãos da Ordem Terceira, uma vez que todos confiantes na promessa da Virgem ao carmelita São Simão Stock: "Eis aqui um privilégio para ti e para todos os carmelitas: — quem morrer vestido deste escapulário estará livre das penas eternas".

Em fevereiro de 1900 três Irmãs de Caridade (vicentinas) chegaram a Vitória, passando a dirigir, ali, o Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora.

Em 1910, já a diocese sob a direção de Dom Fernando de Souza Monteiro, fez-se ampla reforma no convento, acrescentando-lhe um novo andar, reformando-se, também, em 1913, a velha igreja conventual, assim como hoje é vista, destruindo-se, na ocasião, a capela da Ordem Terceira, que lhe ficava ao lado, aquela mesma que merecera a admiração de Dom Pedro II. As obras de remodelação ficaram a cargo de André Carloni.

A 23 de março de 1916 falecia, no Rio de Janeiro, Dom Fernando de Souza Monteiro, indiscutivelmente o maior benfeitor do Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora, sendo seu corpo, trazido para Vitória, sepultado na mesma igreja que ele havia reformado, descaracterizando-a totalmente.

O Colégio de Nossa Senhora Auxiliadora, que os capixabas insistiam em chamar Colégio do Carmo, teve vida longa, uma bonita história, relevante, plena de benemerências, prestou incomensuráveis serviços à instrução e educação feminina do Estado, participou ativamente de todos os eventos religiosos da cidade, sua lembrança perdurando, ainda hoje, nos corações daquelas que lá estudaram, sendo que, na década de 60, esse estabelecimento de ensino foi, sem justas razões, desativado por Dom João Batista da Motta e Albuquerque, elevado a arcebispo metropolitano de Vitória, a 26 de maio de 1958, tendo falecido em 1984, após 27 anos frente aos destinos desta arquidiocese.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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