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Igreja e Residência dos Reis Magos: uma proposta de utilização

Visita dos Reis Magos - Óleo sobre madeira, considerado o mais antigo quadro pintado no Brasil (primeiro quartel do século XVII). Integra o altar da igreja dos Reis Magos, de Nova Almeida.

O uso de monumentos históricos não se deve limitar apenas à sua adaptação como museus ou centros culturais que os liguem aos valores de seu passado, mas ocupá-los também com escolas, centros de saúde, órgãos administrativos, centros de assistência social ou quaisquer outras atividades que condigam com a realidade atual da população no seu dia-a-dia. Por ser um bem comum das comunidades, sua apropriação deve atender, de imediato, os interesses desta como um todo.

Dentro dessas linhas, foi idealizado um projeto de utilização e revitalização da Igreja e Residência dos Reis Magos, em Nova Almeida, pelos arquitetos Fernando Schwab Firme e Helena Maria Gomes, promovidos pela Prefeitura Municipal da Serra, fundação Jones dos Santos Neves e outros órgãos envolvidos no processo cultural.

O projeto, concluído em setembro do corrente ano, acatou diversas sugestões propostas, selecionando alguns pontos considerados importantes. Dentre as propostas encaminhadas, selecionou-se aquelas que melhor se adaptavam à utilização do monumento, considerando, ainda, aquelas de maiores possibilidades de adaptação.

A igreja data do século XVI, tendo grande importância na primeira metade do século XVII, quando obteve dos Reis de Portugal uma grande área de terra destinada aos índios. Seus edifícios foram inaugurados na mesma época, sobrevivendo até os dias atuais, depois de terem servido de base para a catequese e entradas de índios Aimorés e Paranaubís no atual Estado de Minas Gerais. Serviu, também, como primeiro centro divergente de civilização ao norte da capitania, tornando-se, em 1878, Casa de Câmara e cadeia da vila.

Aspectos da edificação

A edificação dos Reis Magos possui planta quadrangular; apresentando na ala oeste a Igreja, com frontão triangular. De entre-meio, a torre sineira e a residência de dois pavimentos que se desenvolve ao redor do claustro. No pavimento superior a residência apresenta duas celas na ala norte, quatro na ala oeste e duas na ala sul. No pavimento inferior apresenta dois acessos: um na ala sul, outro na leste e, ainda, quatro celas na ala oeste e três na ala norte uma das quais é a sacristia.

As paredes foram edificadas com blocos irregulares de laterita argamassadas com caulim, misturado com conchas, revestidos provavelmente com argamassa de tabatinga. As vergas e marcos são de braúna e canela, duas madeiras de lei. No pavimento inferior, não há referência de revestimento, sendo, possivelmente, de terra batida. No andar superior, os pavimentos são de pranchas corridas. A fachada principal volta-se para a grande praça, apresentando um só plano com frontão triangular na Igreja que possui três janelas, um óculo central e a porta principal. A torre sineira é simples e encimada por abóboda de berço, em tijolos com acabamento natural no extradorso em forma de meia laranja. O pavimento superior apresenta quatro janelas e, no interior, a porta principal, tendo em cima um medalhão.

A edificação mostra uma arquitetura rústica em acabamento, sendo apenas requintada no trabalho de talha de retábulo. Procurando evitar alterações na definição geral, situou-se as diferentes atividades cela por cela, afim de melhor aproveitar o espaço.

Avaliação das atividades

Para se avaliar as propostas recebidas, foram definidos nove aspectos considerados significativos:

1) Natureza da atividade: entendendo-se o caráter da atividade que será desenvolvida ou seja: se ela será voltada para o uso da população local ou para a atração de turistas e visitantes.

2) Compatibilidade entre a proposta e o monumento: análise das funções propostas e contração com a natureza inicial do conjunto como monumento religioso e de difusão cultural.

3) Disponibilidade da área para o desempenho proposto: relaciona as exigências de espaço demandadas para atividade proposta, com a oferta efetiva verificada no interior e exterior do monumento.

4) Adaptabilidade do monumento à função proposta: verificação da implantação de uma determinada função em relação às alterações, adaptações ou instalações e compatibilidade das obras com o monumento.

5) Freqüência de utilização: uma das primeiras intenções é o uso permanente ou mais contínuo possível. Portanto, esse aspecto considera as possibilidades de implementação dessa utilização junto ao público.

6) Relação entre os ônus de implantação e manutenção e os benefícios produzidos - interligar as atividades de manutenção com fórmulas que garantam benefícios que assegurem a auto-sustentação do empreendimento. Devem ser considerados igualmente os benefícios financeiros, como também os de ordem culturais.

7) Segurança: assegurar a integridade física do monumento, que corre riscos com possíveis adaptações destinadas à implantação de determinadas atividades.

8) Caráter da atividade: utilização do monumento ligado a sua conservação, que se relaciona com a natureza das atividades propostas. Atividades sazonais, esporádicas, pouco representam em termos de comunidade e perpetuação do conjunto.

9) Integridade: uso predatório, como o turístico, acaba por consumir as fórmulas que geram o projeto.

Resultado da Avaliação

Foram selecionadas nove propostas. Analisou-se cada uma delas, atribuindo-lhes pontos. Fazendo-se uma soma algébrica, obteve-se uma relação de funções prioritárias em ordem decrescente. Destinou-se então maior espaço para as atividades que obtiveram maior número de pontos, até que esgotassem as possibilidades do prédio.

Foram selecionadas as seguintes propostas:

1. Atividades musicais   32 pontos

2. Biblioteca                 31 pontos

3. Pequeno Auditório     30 pontos

4. Galeria de arte          28 pontos

5. Culto religioso           26 pontos

6. Oficinas de arte         24 pontos

7. Museu                      22 pontos

8. Festival de verão         6 pontos

9. Loja Turística               4 pontos

A Proposta

“É da essência do homem criar material e, moralmente, fabricar coisas e fabricar-se a sí mesmo Homo Faber" BERGSON.

Para uma utilização adequada e permanente da edificação e que esteja voltada para os interesses da comunidade, pensou-se numa escola. Escola que formasse indivíduos no sentido de ampliar a consciência do fazer, atividade que era desenvolvida nesta edificação desde o início de sua construção. Voltada para a criação artística iria preencher uma lacuna inexistente na região. Seria uma atividade permanente que engendraria uma seqüência de atividades culturais que, por sí só, não subsistiria, a menos que possuíssem uma infra-estrutura muito forte, o que é possivelmente exógeno à comunidade.

Na Igreja, deve permanecer a atividade de culto, função que existe desde sua fundação e que se mantém até hoje. O que se propõe é um uso mais intenso, inclusive para cerimônias de casamentos e batizados. Atividades musicais como concertos de câmara e apresentações de corais, podem utilizar o mesmo espaço. Basta que se restaure o retábulo, cuja pintura original encontra-se coberta por duas ou três camadas de tinta, e ele estaria adequado para receber de volta o quadro dos Reis Magos que já se encontra totalmente restaurado.

Pode-se utilizar um mesmo espaço para o funcionamento de um pequeno auditório e de uma galeria de arte. O primeiro se prestaria a promoções da escola e uso da comunidade para conferências, palestras, debates, filmes e reuniões.

A galeria, além de promover exposições de trabalhos da própria escola, serviria como espaço a outros artistas que quisessem utilizá-lo. Essas exposições, contendo um número de obras de arte superior ao que comporta o espaço, poderiam se estender às paredes do claustro vizinho.

Cada exposição doaria uma obra ao acervo da galeria, que poderia ficar permanentemente exposto em outros espaços ou serem recolhidos ao acervo remanescente em um depósito.

Uma pequena biblioteca, junto ao hall de entrada, serviria às necessidades da escola, e poderia atender à população que quisesse dela se servir. Seria totalmente compatível com o monumento.

O acervo deve ser voltado para os assuntos ministrados nos cursos e aos interesses do público em geral e se formaria com doações de particulares e livrarias.

O festival de verão poderia desenvolver-se por todo o mês de janeiro. E proposto não apenas com o caráter inicial de festividade, mas como uma oportunidade de amplo intercâmbio de idéias, através da ministração de cursos e com a participação de elementos de outros estados ou países. Festividades propostas pela Fundação Cultural poderiam diluir-se ao longo deste período.

Basicamente, esse centro estaria voltado para a iniciação artística, com possibilidade de desenvolver diferentes níveis de expressão tais como expressões gráficas, plásticas, musicais corporais ou teatrais.

As oficinas/ateliês utilizariam, como espaço de expressão, as celas do prédio, comunicando-se, na maioria das vezes através do claustro, e, em certos casos: internamente, de acordo com as possibilidade oferecidas pelo prédio. Quase todas as celas, principalmente as do pavimento superior, tem condições de ventilação e iluminação suficientes às atividades ali localizadas.

As atividades de dança e teatro, por não terem espaço físico definido, poderiam ser exercidas no auditório, no pátio interno, nas áreas externas ou na sala de música.

Destinar-se-ia compartimentos chamados de serviços para funções de apoio às atividades principais. Foram localizados dois conjuntos de sanitários, um para cada sexo, um depósito geral para cadeiras, stands, cavaletes e outros materiais volumosos; um depósito destinado ao material de limpeza e uma sala para utilização da administração. Na entrada destinou-se uma área para informações turísticas relacionadas com a história do monumento.

E importante não esquecer que atividades turísticas são predadoras, trazendo poucos benefícios para a comunidade. Além do mais o próprio monumento já é uma atração turística, o que bastará para que esta seja uma atividade secundária.

O espaço externo

O conjunto dos Reis Magos, em Nova Almeida, é a única aldeia jesuítica que ainda conserva o traçado original. Implantado sobre o planalto junto às margens do rio Reis Magos, o conjunto compreende a Igreja de nave única, a torre sineira de entremeio, e a residência que abriga dois pisos abrindo para o claustro. Em frente ao conjunto, duas alas de palmeiras imperiais formam uma praça de forma retangular de 32,50m x 153m, inserida em outra praça maior de, aproximadamente, 16.540m2.

Circundando a praça, uma rua que serve de acesso às residências que, com exceção de um sobrado à direita, são térreas. Atrás da edificação, a área pertencente ao conjunto, estende-se até os limites de um morro.

São excelentes as condições que apresentam os espaços externos. Diversas atividades propostas para o monumento podem ser desenvolvidas como por exemplo, as aulas de pintura, de desenho, de teatro, dança, música, apresentação de grupos folclóricos como o Reizado, Ticumbi e Congadas. Da mesma forma o festival de verão.

Organização interna

Para a direção da escola, devera ser formada uma Comissão Executiva (um Conselho Deliberativo. O primeiro deve ser formado pelos professores da escola e, o segundo, por representante: das instituições envolvidas e membros da comunidade (em maior número).

A Comissão Executiva, formada pelos professores, deve ter um coordenador, e as seguintes atribuições:

1 Coordenar as atividades desenvolvidas na escola;

2 - Tomar decisões em conjunto;

3 - Reunir-se semanalmente para avaliar os trabalhos e solucionar eventuais problemas;

4 - Levar as decisões da Comissão de Conselho Deliberativo. O Conselho Deliberativo por sua vez, terá as seguintes funções:

1 Aprovar as deliberações do corpo de professores;

2 - Procurar viabilizar as atividades escolares, divulgando, conseguindo verbas e materiais;

3 - Exercer todas as funções externa: de ligação entre a escola e demais entidades como o MEC, FUNARTE, Governo Estadual, Federal, IPHAN, etc.

A implantação

Para que se possa utilizar o prédio é necessário o trabalho de restauração de suas partes de deterioradas, introdução de equipamentos inexistentes, como as instalações hidráulicas e sanitárias, instalação elétrica (ampliação) e definição de manutenção.

É importante que se defina qual instituição base que tomará frente em qualquer trabalho de revitalização de monumentos culturais, para que ele não venha servir a outros fins que não esse.

 

Fonte: Revista Fundação Jones dos Santos Neves ANO II, nº 4 – outubro/dezembro de 1979, Vitória – Espírito Santo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2017

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