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Jerônimo Monteiro - Capítulo II

O casal Francisco de Sousa Monteiro e Henriqueta Rios de Sousa, pais de Jerônimo Monteiro (fim do séc. XIX). APEES — Coleção Maria Stella de Novaes

Resultado feliz da propaganda intensa de suas riquezas pelo Governador Francisco Alberto Rubim (1812-1819), no século XX, o Espírito Santo atraía correntes migratórias em busca de terras férteis para o café e a cana-de-açúcar. Desciam baianos, subiam paulistas e fluminenses, enquanto, saturados já do trabalho, nas catas, entravam mineiros decididos ao emprego de economias, em propriedades agrícolas, no litoral, e consequente comércio com o Norte e o Rio de Janeiro.

Animados pela estrada aberta pelo clarividente Governador, estrada que, da primeira cachoeira do Rio Santa Maria da Vitória ia ter à cidade de Mariana, entusiasmaram-se os herdeiros e pósteros daqueles que escreveram, com o sangue das lutas e o suor do trabalho, os episódios incríveis da pesquisa e da lavra do ouro. Comprimidos quase, em dificuldades de expansão dos negócios, sonhavam com um porto marítimo para o escoamento dos produtos pecuários, em troca do sal e de tecidos. Fazendeiros, criadores e mercadores buscavam terras novas, próximas do litoral, servidas pelas vias fluviais, que terminavam em portos marítimos e facilitavam, assim, negócios rendosos. Iniciaram a cafeicultura no Sul do Espírito Santo. Muitos se refugiavam das complicações políticas, resolvidas, em Minas, a tiros e cacetadas, quando não caíam em tocaias de capangas.

Havia o Governo Geral do Brasil abandonado já a política de reduzir o Espírito Santo a barragem contra a entrada via Oeste. Mesmo porque o interior estava sendo invadido pelas referidas bandeiras e por desertores e criminosos que buscavam refúgio nas matas espírito-santenses, para jeitosamente, depois, entregarem-se à descoberta e à exploração de minas auríferas. Além disso, a navegação do Rio Doce, aberta pelo Governador Antônio da Silva Pontes (1800-1808), animava a descida de mineiros, que se estabeleciam no Guandu e suas adjacências.

E foi nessa luta árdua pela vida, nesse belo sonho de prosperidade honrada, que, em 1854, Bernardino Ferreira Rios, negociante forte em Paulo Moreira, empenhou-se em abrir um caminho até a Barra do Itapemirim, empresa arrojada naquele tempo, através da floresta primitiva, a enfrentar puris, répteis e feras. Contudo, mupicando sempre e cauteloso no perigo, o intimorato lusitano realizou, com alguns companheiros, o extraordinário feito de chegar ao incipiente Arraial das Cachoeiras do Itapemirim, descer ao ponto visado, passar ao Itabapoana, subir às terras do Alegre e, sempre metido na mata, voltar ao lugar Santa Cruz, na famosa e Estrada de São Pedro de Alcântara, antes Estrada do Rubim.

Homem de prestígio, pela fortuna e integridade, Bernardino Rios não podia fugir da influência local: metera-se na política. Vitorioso, porém, o Partido Conservador viu-se perseguido e até mesmo ameaçado de "uma liquidação a tiros", costume daquele tempo, conservado, aliás, desde as lutas entre paulistas e emboabas. Foi, talvez, o motivo de suas vistas para o Espírito Santo.

Conhecido e apreciado o novo meio, que se lhe deparava calmo e propício ao recomeçar da vida, Bernardino Rios, que muito perdera na política, e via-se cheio de compromissos decorrentes do fascínio partidário, resolveu liquidar o restante de suas posses em Minas e... desaparecer...

Cachoeiro se lhe descortinou ideal para o trabalho e a consolidação do futuro de sua família!

No Relatório de 23 de maio de 1855, o Presidente Sebastião Machado Nunes dizia à Assembleia Legislativa do Espírito Santo: — "Os cidadãos Bernardino Ferreira Rios e Misael Ferreira de Paiva, auxiliados por Manuel Pereira de Faria e Francisco de Paula Cunha, realizaram a abertura de uma picada na extensão de nove léguas, desde a povoação do Alegre, no município do Itapemirim, até a Estrada de São Pedro de Alcântara, no lugar denominado Santa Cruz, procurando, desse modo, pôr em comunicação o referido povoado com o de Abre Campo, em Minas".

Jamais, entretanto, poderia o audaz lusitano imaginar que, decorridos alguns anos, pelo mesmo caminho, que trouxera até o Arraial das Cachoeiras do Itapemirim, passariam, a cavalo, em viagem de quinze dias, seus descendentes (netos que não o conheceram), para, no Colégio dos Lazaristas, no Caraça, receber a cultura precisa aos estudos superiores. Iam preparar-se para dar ao Espírito Santo a dedicação do sacrifício e da energia, no ideal do seu soerguimento espiritual e administrativo.

Isso porque, na humildade de um rancho, na confluência do Salgado com o Itapemirim, à beira da mata virgem, longe de todo o conforto, fundara-se um lar que daria ao Espírito Santo onze herdeiros, entre os quais, um Bispo e dois Presidentes do Estado: Dom Fernando, Bernardino e Jerônimo de Sousa Monteiro. Com os filhos e netos, dali sairiam, ainda, senadores, deputados, engenheiros, médicos, professoras e damas prendadas, que realizariam a felicidade de seus lares. Tudo porque, no Arraial do Cachoeiro, Bernardino Rios abriu a Fazenda Cachoeira Grande e estabeleceu uma casa comercial, para entreposto das tropas que, numerosas, desciam de Minas carregadas de toucinho, carnes, fumo, etc. Voltavam com sal e fazendas. Dois veleiros, "Santa Bárbara" e "Deus te Ajude", do mesmo comerciante, transportavam as mercadorias para o Porto do Itapemirim e o Rio de Janeiro.

Desde Minas, havia Bernardino Rios se relacionado com o jovem Francisco de Sousa Monteiro, a quem emprestara um burro e mercadorias, "para começar a vida". Comprando e vendendo, Francisco, no regresso da primeira viagem, pagou a dívida e comprou outro burro; assim continuando, formou uma tropa e contratou tropeiros, guias e piaus. Dirigia os negócios da tropa e tão bem se houve que Bernardino Rios o admitiu como empregado de sua casa comercial.

Conforme registramos no primeiro capítulo, descendia Francisco de Sousa Monteiro da elevada estirpe reinol dos Monteiros vindos de Braga, para a zona do Casca. Foram ascendentes de viçosos troncos: Sousa Monteiro, Monteiro de Barros, Cesário Monteiro, Monteiro da Gama, Monteiro de Castro e outros. Nasceu a 24 de abril de 1823, em Piracicaba de Mato Dentro (Catas-Altas).

De acordo com a norma do tempo, quando o estudo se fazia na "aula" de Gramática Latina, Francisco assim apurou sua bela inteligência e, a 8 de dezembro de 1840, recebeu o diploma passado pelo professor Francisco de Abreu e Silva, que lhe traçou os melhores encômios. Na "aula" de Gramática Latina, o professor lecionava português, aritmética e, às vezes, retórica. E decidia a vocação dos alunos: os inteligentes, que se tornavam mais cultos, deviam ser padres. É o que nos conta Dr. Afonso Cláudio, quanto ao Espírito Santo antigo. E o que se passava, igualmente, em Minas. Por isso, o professor Abreu e Silva atestou que Francisco "frequentava sua aula, com tanto esmero e capricho que não hesitava em considerá-lo suficientemente hábil, para dedicar-se a estudos maiores ou ascender ao sacerdócio, sendo de sua vocação".(4)

Francisco, porém, resolveu apurar sua instrução. Sonhava exercer o magistério, por isso ensinava para estudar e, nas horas vagas, estudava para lecionar, principalmente português e aritmética.

Desejava consolidar o saber. Mas não permaneceu nessa atividade. Passou para a outra já referida, mesmo porque, sendo o primogênito, a morte de seu pai deixou-lhe os encargos da família: mãe e irmãos.

Realizou-se essa transferência, quando se relacionou com Bernardino Rios, cuja filha Henriqueta, de seis anos apenas, trazia, no aventalzinho rodado, broinhas de mel e biscoitos de goma, "para o empregado do papai". Fugia a menina para a loja, encantada pelas histórias que Francisco inventava para distraí-la. E assim delineava-se um romance lindo!... que, sentados numa pedra, na Fazenda Monte Líbano, os filhos e netos comentavam, enternecidos!... E até há pouco tempo, ao passar por ali, podiam dizer: "Esta pedra foi cadeira no rancho de Vovó Riqueta".

Aquela menina gorducha e ativa, dez anos depois, casaria-se com Francisco, a 30 de agosto de 1855, na Fazenda Cachoeira Grande, em cerimônia realizada pelo vigário da Vara do Itapemirim, Pe. João Felipe Pinheiro. Ela, portanto, com dezesseis anos, e ele com trinta e dois.

A lua de mel?

Naquele tempo não se pensava em viagem nupcial. Era o duro da vida. Era o certo "começar a vida". E Francisco e Henriqueta foram para o seu rancho, em cuja entrada — a sala de visitas, se via a pedra, hoje "documento" de uma história daquele tempo... Iam abrir a fazenda, na faixa de terra, dote de Henriqueta, e na qual seriam empregadas as economias do ex-caixeiro, depois sócio e, agora, genro de Bernardino Rios.

Iniciaram logo o trabalho, com alguns escravos, que auxiliavam o proprietário, na derrubada penosa da mata e preparo de roçados, enquanto a jovem esposa, linda, de olhos e cabelos castanho-claros, cozinhava, lavava, passava, costurava (máquina de mão), arrumava..., acompanhada pelo Isaac, de sete anos, filho dos escravos Jerônima e Faustino. O menino apanhava gravetos para o fogão de trempe e vigiava a aproximação de animais, que vinham desalterar-se no Itapemirim, pois a água do Salgado era salobra, motivo do seu topônimo. E Henriqueta pensava em índios...

À noite, à luz ingrata de um candeeiro, Francisco aprimorava a instrução da esposa, pois, de acordo com as observações de Expilly, nas suas viagens a Minas, à mulher mineira daquele tempo "bastava saber a leitura do livro de orações e a receita da goiabada". Mas Da Henriqueta jamais desmereceu a cultura do marido; se não foi mulher letrada, adquiriu instrução precisa para, mais tarde, secundá-lo na educação dos filhos, quando chegaram ao tempo das primeiras letras, como se dizia então. Viúva aos quarenta e oito anos, com oito filhos menores (duas faleceram e uma casou-se), assumiu, com energia e clarividência, a direção da fazenda e a formação dos filhos, que sempre a respeitaram e adoraram. Encaminhou-os na vida.

Em "Um Bispo Missionário", biografia de Dom Fernando de Sousa Monteiro, poderá o leitor apreciar o trabalho titânico de Francisco e Henriqueta, no desenvolvimento da fazenda a que deram o nome de Monte Líbano — a terra de Nosso Senhor, atestado nobre da fervorosa crença dos seus fundadores. Do rancho à beira do rio, atingiu o esplendor da casa-grande, com salões enormes, finamente guarnecidos, capela, jardim, pomar, colmeias, aviários, pocilgas, currais, engenhos de cana, de café, serraria, olaria, forno de cal, pastos, cafezais, etc. Ali só se compravam querosene e sal.

Mobílias de jacarandá e austríacas.

Piano de cauda.

Lustres de cristal e porcelana chinesa.

Grandes espelhos.

Louça estilo-Império.

Tudo bom e fino.

Paredes forradas de papel acetinado, na sala de visitas; estampado de "Paulo e Virgínia", na sala de jantar.

Grandes terreiros de café, entre os quais, o Cruzeiro, que imprimia ao conjunto um misto de elevada poesia e piedosa tristeza.

Havia Francisco, antes da casa-grande, construído outra menor, na encosta, a fim de preservar a família do perigo das enchentes que, às vezes, quase alcançavam o rancho. Traziam até jacarés, que devoravam a criação.

Aí nasceram os sete primeiros filhos.

 

Notas:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2019

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